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Na largada, Dilma enfatiza questão social

É simbólica a escolha de Dilma por Porto Alegre para dar os primeiros passos da campanha. Pode ter muito a dizer. Talvez seja um reconhecimento pelo estado em que construiu sua trajetória política. Uma busca por votos na região em que ainda aparece com menos intenções nas pesquisas. Uma resposta ao PMDB por não apoiá-la por aqui, mostrando que seu palanque é o de Tarso, o que disse abertamente hoje. A demonstração de que a conquista do governo do Rio Grande do Sul é muito importante para o PT. Talvez um desses itens, talvez todos. Ou ainda mais coisa, vai saber. Mas dá o que falar.

Mais significativo ainda foi o conteúdo do discurso da largada da campanha. Significativo não para o estado, mas para a eleição de Dilma presidente, como um primeiro discurso a orientar os rumos dos próximos três meses. Ela deixou claro: “vou tratar da questão social, porque é o que me diferencia do meu adversário”.

E detalhe, isso foi na Assembleia, onde foi receber a homenagem do Parlamento por sua trajetória, a Medalha do Mérito Farroupilha. O público lá era restrito: políticos e imprensa, muito pouca gente mais. Se nesse cenário ela aborda principalmente questões sociais, mais agradáveis aos ouvidos do povo, parece ser porque realmente está interessada em privilegiar essa abordagem, em focar a campanha e seu futuro governo nisso. Tomara.

Ao mesmo tempo, fica a indagação: se é isso que a diferencia de seu adversário, quer dizer que o resto é igual? Talvez seja modo de falar, um preciosismo meu. Mas é bom cuidar.

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Outro aspecto positivo do início da campanha do PT, nítido no ato realizado hoje na Esquina Democrática – a Arrancada da Vitória -, é a presença de diversos partidos na coligação de Tarso Genro, além de alguns apoios importantes, como bem apontou Marco Weissheimer. O PDT está com Fogaça, mas hoje o ex-governador Alceu Collares declarou formalmente seu voto no petista. Subiu junto no palanque, abraçou o candidato e integrou-se a PT, PCdoB, PSB e demais integrantes da Unidade Popular. Estou até agora procurando o isolamento que a Zero Hora atribuiu ao PT gaúcho.

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E os adversários de Dilma e Tarso também deram suas largadas. Só não digo que agora vai começar a pegar fogo porque seria piada. Mas será que vai incendiar? Qual vai ser o nível da sujeira? A campanha já seria pesada por si só, e a presença da internet e principalmente das mídias sociais entra como uma incógnita no processo: de fato democratiza, amplia o acesso a informação? Em que medida prejudica (e temos Serra e a briga pública com o DEM como exemplo)? Até que ponto amplia a baixaria? Os trolls já estão aí para não me deixar mentir, não me fazer achar que minha dúvida é loucura.

Entre governo e oposição, sempre governo

E não é que a Zero Hora acertou no tom? E em política, pasmem. O autor da proeza é Paulo Germano, o repórter que assina a matéria “Ninguém é de ninguém”, sob a cartola “Salada eleitoral”, nas nobres páginas 4 e 5 dessa edição dominical.

Em primeiro lugar, as palavras todas encaixam. Elas estão no lugar certo, é gostoso de ler. Na forma, o texto é muito bom. Utiliza metáforas inteligentes, mas compreensíveis por todos. Não são ideias jogadas, são palavras trabalhadas.

É também uma matéria boa em conteúdo. Discute a falta de coerência dos partidos. Dos políticos também, mas principalmente das siglas. Tem problemas, é verdade, mas ainda tem mais méritos, admito. Chama a atenção a utilização de citações. Quando fala do PMDB, principal alvo da matéria, Germano usa uma fala de algum peemedebista. Ao mostrar a incoerência do PTB, é vez de citar um petebista, e assim sucessivamente. O que deixa mais evidente o oportunismo relatado.

Um único parágrafo me fornece duas sensações antagônicas. Primeiro, o sentimento de que eu gostaria de tê-lo escrito. A segunda, a de que esconde uma baita sacanagem.

“Às vésperas da eleição, cada vez mais “ideologia” parece esnobismo fora de moda. Entre todos os principais partidos, uma prioridade evidente é atingir o poder, seja com quem for, seja como for. Escancara-se um pragmatismo político no qual direita se abraça na esquerda, tempo de TV engole utopias e, para piorar, os que se dizem éticos emudecem frente aos desonestos. A intenção é a mesma: evitar ficar na oposição.”

Gostaria de tê-lo escrito porque seu texto é irretocável e traduz em poucas linhas como funciona boa parte da política nacional. Mas traz escondida a tentativa de retratar o todo por essa parte, valoriza a velha ideia de que é tudo a mesma coisa, nada boa para a nossa frágil democracia. Uma tentativa de mostrar todos os partidos e todos os políticos como pertencentes a uma só laia, a uma só estirpe. E essa laia não é nada boa. É o oportunismo, chamado pelo jornal de pragmatismo. Segundo o Houaiss, a palavra usada por Paulo Germano significa uma “corrente de idéias que prega que a validade de uma doutrina é determinada pelo seu bom êxito prático”. Ou seja, os fins justificam os meios. Acho que está mais para um vale-tudo mesmo.

Mas há ainda algo mais grave. Depois do texto principal, quatro retrancas dão conta de mostrar as incongruências de PDT, PTB, PP e PT. O PMDB já foi bastante batido, apontado como o exemplo-mor de oportunismo; quer dizer, de pragmatismo.

E o PSDB? A ZH simplesmente deixou passar batido. Daí fica difícil acreditar nas boas intenções.

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A matéria: Ninguém é de ninguém

As retrancas: Paulinho do PDT foi vice de Ciro, adotou Alckmin, abraçou Lula e está com Dilma
O PTB de Lara apoiou Yeda, lançou candidato e mantém cargos no governo
O PP não gostava do PT, aceitou convite de Lula e agora namora Serra
Os petistas abandonaram a pureza, assediaram inimigos e estimularam a barganha

Entrevista: “O Brasil é uma falsa federação”

Como se sintoniza uma rádio? Por bolinhas de cristal. Nós também temos bolinhas de cristal dentro da nossa cabeça. É assim que nós nos sintonizamos uns aos outros. Pelas bolinhas de cristal ou pela aura. É isso que chamamos de espírito.

Giovani Cherini (PDT), presidente da Assembleia Legislativa do RS, no Bibo Nunes Show, direto do 5º Encontro Estadual de Terapeutas e Profissionais Holísticos

O passado e o futuro da política gaúcha – Parte II

Voltemos, pois, a Tarso. Embora eu seja muito mais fã de Olívio, Tarso é um nome mais facilmente digerível pelos gaúchos – não pelos petistas, que urram de alegria e veneração ao ver o bigodudo. Tarso é aparentemente mais maleável, menos radical, mais burguês. Mas penou com essa coisa de ter deixado a prefeitura no meio do mandato. Agora, o principal rival de Tarso é José Fogaça (ex-PPS, atual PMDB), prefeito de Porto Alegre até o dia 30, quando deixa o posto para o vice, o ex-petista, agora pedetista José Fortunatti. (Essa muvuca de siglas, especialmente na direita, é fogo.)

Fogaça não vai poder usar a mesma arma contra Tarso. Afinal, o telhado é de vidro. Mas Tarso, igualmente, fica engessado. Se chover pedra, ambos quebram. O grande problema é que Fogaça, apesar de não ter feito absolutamente nada de relevante (ah, perdão, tem aquela história de levantar a mão pra atravessar a rua na faixa – um projeto ridículo forte e consistente para transformar a cidade, o único em seis anos), tem uma imagem positiva. Vai entender por quê. Acho que é justamente por aquela carinha de bebê chorão, que escreve músicas bacanas, que não tem raiva. Não tem raiva, mas não tem proposta. Vale lembrar que se elegeu prefeito com a única plataforma de “manter o que está bom, mudar o que está ruim”. Grande proposta, ahn.

A disputa vai ser ferrenha. Nada está definido, muito antes pelo contrário. Não arrisco um palpite, por menor que seja, por mais incosequente que eu me permita ser. Não consigo vislumbrar quem leva essa eleição. Torso por Tarso (bonito trocadilho, hein), apesar de tudo. Mas levo medo. PMDB de novo no governo? Bom, é menos pior que PSDB, mas não podemos pensar em eleger simplesmente algo menos pior – aliás, depois de Yeda, nada pode ser considerado tão efetivamente ruim, qualquer coisa passa no quesito do menos pior.

Mas o PMDB ganhar força não é bom, especialmente porque no RS ele é mais de direita do que em outras partes do país. Conta ainda com o apoio do PDT, que ganhou a prefeitura de Porto Alegre e o vice na chapa de Fogaça e pode ser importante na decisão, mas que não fecha totalmente em ideias com o PMDB, já que apoia Lula, o que Fogaça decidiu não fazer (aliás, consigo ver Brizolla se remexendo no túmulo ao tomar conhecimento da aliança de seu partido com a direita).

Por outro lado, não consigo imaginar quem correria por fora dessa vez. Yeda, além de sofrer do problema de ser a última governadora, fez realmente um governo muito ruim, e seus índices de popularidade são baixíssimos. O PSOL não tem força suficiente para eleger Pedro Ruas. Se fosse para eleger uma terceira via, pelo menos que fosse o Beto Albuquerque, do PSB, mas duvido. Tem ainda o PTB, que decidiu bancar a candidatura de Lara, mas não deve ir longe (espero não ter que bater na boca). O DEM, bom, o DEM ainda existe?

É, parece que só há uma alternativa. Ou é Tarso ou é Tarso.

O passado e o futuro da política gaúcha

Uma coisa pesou na campanha de Tarso da última vez que ele se candidatou ao governo do Rio Grande do Sul. As artimanhas, de parte a parte, foram todas baixas, e a discussão política ficou no nível de quem é o menos ou o mais sacana. Ou seja, inexistente. Projetos para a cidade foram simplesmente ignorados. Ainda que eu ressalve que projeto não ganha eleição – embora devesse -, baixaria também não. Lembro claramente de panfletos pretos, pesados, acusatórios. E não foi só da direita.

Tarso Genro havia sido eleito prefeito de Porto Alegre, prometendo cumprir o mandato inteiro. Seria o segundo do petista, intercalado por um de Raul Pont. Pois depois de dois anos Tarso se desincompatibiliza para se candidatar ao governo do estado. A oposição bateu nessa tecla do primeiro ao último dia da campanha, pintando um candidato desonesto, imoral, traidor.

Isso foi em 2002, e Tarso concorria com Antônio Britto, ex-governador do RS pelo PMDB, em uma gestão fraudulenta, marcada pelo descaso com o funcionalismo, planos de demissões, corrupção. À época no PPS, Britto decidiu partir para a comparação em um nível abaixo do c* do cachorro. Palavreado chulo, visando o calcanhar de aquiles e não uma discussão equilibrada. Afinal, ele não tinha como sustentar.

Tendo caído na armadilha do adversário, Tarso adotou a mesma estratégia. Sua campanha foi, além de baixa, burra, mal-feita. Acabou se elegendo Germano Rigotto, do PMDB, que correu por fora usando como slogan um coração. Bonitinho, queridinho, sem proposta. Apolítico. Mas sua estratégia foi inteligente, fugiu da briga.

No Rio Grande do Sul, não se reelege projeto político. É muito difícil um governador fazer um sucessor. Os gaúchos são bastante implicantes e sempre têm mais reclamações do que elogios. Os que passaram no governo por último são os que sofrem mais, frutos da memória mais fresca. Assim foi novamente em 2006. A disputa ficou polarizada entre Germano Rigotto, o então governador, e Olívio Dutra, que passara pelo cargo entre 1998 e 2002, pelo PT. Rigotto penou com a memória recente dos gaúchos e seu governo vazio, de nada fazer. Olívio apanhou muito da mídia – leia-se RBS, única mídia aqui pelos pampas -, que formulara um anti-petismo raivoso e muito poderoso no Estado.

Correu por fora uma paulista arrogante, mas que representava um partido forte nacionalmente mas absurdamente fraco regionalmente. O PSDB não tinha, e continua não tendo, quadros significativos. A vitória de Yeda Crusius foi mero acaso, fruto muito mais de uma negativo aos outros dois candidatos fortes do que a uma atitude afirmativa de seu projeto. Aliás, muitos peemedebistas se deram mal ao votar em Yeda para impedir que Olívio fosse para o segundo turno. O petista ganhou o posto e Rigotto ficou para trás. Mas Yeda levou a melhor.

Continua…

PMDB, PT, PDT e a negociação de apoios no RS

Voltando ao assunto dos apoios e coligações no RS, as disputas e alianças entre PMDB e PT, envolvendo PDT, PTB etc., só de pode chegar a uma conclusão: que coisa feia que é a política brasileira! Tem nomes bons, sim, mas eles acabam se perdendo nesse mar de lama e de jogos de interesse. Os partidos teoricamente se constituiriam em torno de uma ideia. Faz parte do partido quem compartilha daquela ideia. Ideologia, se chama isso.

Pff, parece coisa do passado. A gente lê no jornal como uma coisa natural o PMDB gaúcho estar dividido entre o apoio a Dilma ou a Serra e cogitar ainda a ideia de um candidato próprio do partido – com o qual só os gaúchos ainda sonham, diga-se. Como pode um partido estar dividido entre dois projetos antagônicos? Cadê a ideologia? Qual é a ideologia do PMDB?

Claro, falar do PMDB é sempre muito divertido. É o caso mais evidente dessa muvuca que a gente chama de política partidária. É o partido que é sempre oposição e governo, que apoia qualquer tipo de candidato sem corar o rosto de seus líderes.

Mas não é o único a lidar com tal desfaçatez, muito pelo contrário. Vejamos outro exemplo: no RS, PMDB e PT são como vinagre e azeite, não se misturam de jeito nenhum. Todas as eleições preveem uma disputa entre os dois partidos, embora alguns acabem correndo por fora. O PSDB do estado não tem a mesma força do nacional, de forma que foi quase um golpe de sorte – ou de muito azar, no caso – a eleição de Yeda Crusius como governadora. Mas não tem nenhum outro nome que se destaque. O dela própria, aliás, já não se destacava.

Ainda assim, com essa polarização entre PT e PMDB, o PDT fica negociando o apoio nas eleições de 2010. Joga uns dados com um, vai lá e joga mais uns com o outro. Vai acabar fechando com o PMDB, como já está quase certo, até porque herda a prefeitura de Porto Alegre, à qual o peemedebista José Fogaça vai renunciar para se candidatar ao governo do estado, deixando o posto de brinde para José Fortunatti, ex-PT, atual PDT. Mas namorou por bastante tempo a ideia de apoiar a candidatura de Tarso Genro, do PT. O objetivo de toda a negociação era ver com qual dos dois apoios o PDT sairia com mais vantagens. Em nenhum momento se cogitou analisar projetos e estabelecer uma afinidade ideológica.

Assim, a política brasileira é uma confusão de siglas, nomes, alianças. Um partido pode ter uma postura completamente diferente em dois estados ou em nível federal. Chega a ser quase maldade pedir para o leitor lembrar em quem votou na última eleição, apesar de isso ser bastante importante.

E dá pra levar a sério uma coisa dessas?

Politicagem gaúcha

Ok, tudo mudou desde que eu comecei a escrever esse post até agora. Tinha lido sobre isso não faz muito tempo, mas agora o Rigotto me boicotou e não vale mais o que eu dizia. Quer dizer, em parte ainda vale. A politicagem continua, com a diferença de que agora Rigotto está fora da disputa (medo de perder e afundar sua carreira política?). Vou manter quase igual o que eu tinha escrito, onde explico melhor o que estou querendo dizer. Lá vai:

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O PMDB gaúcho lembra um pouco o PSDB nacional, nessa indecisão pelos seus candidatos nas próximas eleições. Apesar disso, a situação do PMDB no estado não é tão delicada. Enquanto o Serra vai se encalacrando ao deixar o tempo passar e não fazer nada, Fogaça não perde tanto caso não saia candidato.

O PDT aparece como fator importante na decisão do partido. Também em cima do muro, sem saber se vai com PT ou PMDB. No caso de Fogaça se candidatar (agora aparentemente decidido), o mais óbvio seria o apoio ao atual prefeito, não apenas pelas alianças já construídas na prefeitura, mas porque o vice-prefeito, José Fortunatti, do PDT (ex-PT), herdaria o cargo. Com a indicação de Rigotto ao governo do estado (descartada hoje à tarde), nada garante que os trabalhistas não retomem a velha aliança com o PT.

Como se vê nessa mistura de letras dos partidos que compõem o que vai ser o principal foco do jogo político no RS, a coisa aqui passa longe da ideologia. O Rio Grande do Sul vai perdendo a intensidade da polarização que o caracteriza. O PT e o PMDB já não são mais tão inimigos, as conversas vão sendo ditas nas entrelinhas, não se fala mais abertamente que não se concorda com fulano ou sicrano. Vai ficando tudo muito nebuloso e parecido.

Na matéria da Zero Hora sobre o assunto, na edição de hoje, dia 26, o presidente estadual do PDT, Romildo Bolzan, diz: “Rigotto é menos competitivo do que Fogaça. Nesse caso, há bem menos chances de nos aliarmos ao PMDB. Não é nada pessoal, mas é uma questão política”. Ou seja, pouco importa que Rigotto (ou Fogaça) esteja de um lado da corda e que Tarso esteja do outro, representando visões opostas (ou nem tanto). O PDT vai junto de quem puxar mais forte.

E Fortunatti ainda tem a cara de pau de dizer: “Tenho uma visão ética da política”. Deve ter errado o termo, apenas. Em vez de política, quis dizer politicagem. Ah bom.

Enquanto isso…

No PSDB consolida-se a candidatura da governadora Yeda Crusius à reeleição. Com sua reputação praticamente ilibada (cof cof), pode-se dizer que assim vamos bem, hein…

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