Arquivo

Posts Tagged ‘marketing eleitoral’

Debate na Globo: um monólogo a cada dois minutos

O circo armado pela Globo

Confesso. Apesar de ser muito nova na época, a memória coletiva de 1989 me dava um medo da repetição da história. Temia pela possibilidade de um debate de nível tão baixo como aquele na vênus platinada. Mas vários fatores fizeram com que o debate de ontem à noite na Globo começasse parecendo um circo – com direito a arena, plateia redonda com poucas filas, candidatos caminhando e a exaltação do apresentador como a apontar um elefante ou um macaco que dança – e terminasse com os espectadores mais valentas tivessem que tapar os ouvidos com o ronco do companheiro.

A eleição de 1989 foi a primeira a utilizar um marketing eleitoral profissional. Refiro-me à construção da imagem de Fernando Collor, baseada em pesquisas de opinião acerca das expectativas dos eleitores. Seus opositores, Lula entre eles, não estavam preparados para um golpe tão baixo como o daquele debate da Globo, nem por parte de Collor, que usou assuntos pessoais para desestabilizar Lula, nem pelo lado da emissora, em sua edição cruel das imagens no Jornal Nacional do dia seguinte.

Em 2010, não se pode acusar ninguém de ingenuidade. Ainda mais depois de uma campanha tão pesada e tão cheia de baixarias e porradas abaixo da linha da cintura. Ou seja, Dilma foi preparada emocionalmente para aguentar qualquer coisa.

Um debate sem debate

Não precisou. Esse formato da Globo de deixar eleitores supostamente indecisos fazerem perguntas, sem nenhum tipo de improvisação, e os candidatos não se confrontarem diretamente, faz com que tenhamos um monólogo a cada dois minutos. Não um debate de ideias, em que uma fala responde a outra, a completa ou a nega, mas em que se constrói um raciocínio e uma evolução de ideias em crescimento. Assim, um raciocínio tinha que ser inteiramente construído e finalizado em 120 segundos, tempo igual para resposta, réplica e tréplica – nomes usados por falta de outros melhores. Impossível a coisa esquentar.

Para Dilma, na frente nas pesquisas, nem interessava mesmo que se saísse do tom monocórdico. A diferença poderia ter sido feita por Serra, com alguma agressividade que, espantosamente, não se viu.

Alguns apoiadores até reclamaram de uma ou outra pergunta ou do plano utilizado na filmagem, diferente para Dilma e Serra, que teria valorizado mais o tucano ao estampar mais de perto seu focinho seus olhos azuis. Mas o fato é que a Globo foi razoavelmente neutra, considerando o que se poderia esperar, dada a história. Para pés já calejados, o piso ontem foi de algodão.

Continua…

Uma imagem vale mais do que mil propostas

Marcelo Beraba – “Planejamento da cobertura eleitoral”

Beraba conversou com os presentes basicamente sobre sua experiência de cobertura de eleições e o planejamento feito pelo Estadão esse ano. Ou melhor, as mudanças com o passar dos anos a que os jornais foram obrigados com as transformações da política. Enfocou na questão do marketing eleitoral, que diz ter começado de forma organizada e sistemática com Collor em 1992 e que fez com que os jornalistas tivessem que se acostumar a cobrir não só a política bruta, mas a construção da imagem de cada candidato, cada sigla.

Foi Collor que inovou na utilização “fortíssima” de pesquisas, para construir o político que o eleitor queria ver. Sua estratégia deu certo, ele captou a expectativa do eleitor e construiu sua imagem com muita competência. A partir dessa eleição ficou claro que o candidato que não se preocupasse com imagem não iria longe. Sentiu-se, então, a necessidade de saber como os candidatos eram orientados, como lidavam com a TV, não mais só a biografia dos caras, suas propostas e mobilizações.

Essa abordagem foi ampliada ainda mais com o passar do tempo. Hoje, quando se começa a pensar em planejamento da cobertura eleitoral nas redações , um ponto inicial é saber de que maneira estão sendo construídas as candidaturas. Não é para satisfazer a curiosidade do leitor, ou pelo menos não deveria ser. A questão é que se tem que mostrar para o cidadão que a mensagem que os candidatos passam é cada vez menos espontânea e mais construída. O papel do jornalista é desmistificar essa construção. Desconstrui-la (ao contrário do que fez essa Veja aí ao lado).

Beraba falou um pouco também sobre as vantagens que o veículo pode obter a partir de determinadas coberturas, como firmar sua imagem, aumentar sua audiência etc. Por exemplo, há tipos diferentes de coberturas, dependendo do tamanho, da verba e da abrangência do veículo. Pode mobilizar profissionais para colarem nos candidatos por onde quer que vão ou manter correspondentes regionais ou ambos ou nenhum.

Mas a mim interessa mais saber como o repórter pode contribuir para a sociedade, como pode exercer sua função social de bem informar. Um dos maiores desafios é levar para o leitor/espectador a discussão de programas. Beraba acredita que ainda não se tenha encontrado uma forma de fazer isso que não seja chata ou superficial. Os temas são sempre os mesmos, com poucas variações. Como tratar temas com a complexidade que eles merecem de forma atrativa?

Uma cobertura que extrapola a editoria de política e se espalha por quase todo o jornal. E com o agravante hoje de ter que lidar com o imediatismo da internet, dosando profundidade, exclusividade, tempo. Muita coisa que antes se guardava para o impresso, agora tem que ir para a internet, não tem jeito.

O desafio é como fazer uma cobertura que não se submeta à agenda dos candidatos, porque não dá pra deixar de acompanhá-lo, mas, ao mesmo tempo, tem que se criar uma agenda própria, uma discussão independente. Isso se faz, segundo Beraba, explicando o tempo todo os porquês de cada ato do candidato e puxar para a análise, além de desconstruir aquela imagem forçadamente construída. Ir além das aparências.

%d bloggers like this: