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#2BlogProgRS: liberdade de comunicação e democracia

Idas e vindas depois, aconteceu o 2º Encontro de Blogueir@s do RS nos dias 3 e 4 de agosto, em Porto Alegre. A abertura, na sexta à noite, juntou um povo interessado em discutir liberdade de comunicação, uma luta muito maior e mais importante do que a da liberdade de imprensa, como afirmou o secretário Marcelo Danéris, do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. “Vocês carregam uma capacidade libertária e civilizatória”, disse, para logo depois citar até o velho Marx em sua defesa da liberdade de comunicação.

Danéris estava ao lado de Altamiro Borges, do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, Gérson Barrey, representando a secretária de Comunicação e Inclusão Digital, Vera Spolidoro, e Rosane Bertotti, do Fórum Nacional de Democratização da Comunicação. O debate rendeu, e a gente saiu da Nós Coworking mais de 22h30, em uma noite bizarramente quente pra um 3 de agosto gaúcho, em que se falou na necessidade de se rediscutir a comunicação no Brasil, de o governo enfrentar o poder midiático e de fato proporcionar um espaço para uma comunicação plural e democrática. “A blogosfera é muito diversa, tem muitas opiniões diferentes. O que nos unifica é a defesa da liberdade de expressão, a luta contra o poder midiático monopolista e centralizador e a luta por direitos e justiça social”, disse Miro.

Apesar da confraternização de sexta ter ido longe, o povo de fé voltou no sábado de manhã para debater o Direito à Comunicação. E rolou debate mesmo! A ministra da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos tinha compromisso em seguida, mas se empolgou discutindo com o pessoal alguns temas bem pertinentes e fez uma fala ampla e contundente. “A liberdade no século XXI é indissociável da liberdade de comunicação e inclusive do acesso a tecnologias que viabilizem a livre comunicação”, falou logo de cara.

Ao lado de Marco Weissheimer, nosso grande blogueiro gaúcho, do RS Urgente, e de Igor Felippe, que trouxe o MST (que sempre teve seu direito à comunicação negado pela grande mídia) para dentro do debate do #2BlogProgRS, Rosário fez questão de dar o microfone a quem a questionava (a divergência mais forte foi além da comunicação, tratando do Haiti), mas não sem antes ter feito uma provocação muito válida à blogosfera. A ministra propôs “à sociedade, ao MST, aos blogueiros, aos movimentos” que revisitem as agendas abertas na Conferência Nacional de Comunicação de 2009. Isso porque a bandeira da inclusão da comunicação como um direito humano na Constituição Federal deveria ser levantada pelos blogueiros, segundo ela, puxando a luta que começou na Confecom.

A tarde de sábado foi voltada ao debate de como a rede pode ser utilizada para o ativismo. Mais especificamente, para o ativismo político. Discutiram Ney Hugo, do Fora do Eixo, Rute Vera, do blog Ong da Rute, e o cicloativista Enrico Canali. A discussão sobre a pressão por uma cidade mais inclusiva, que priorize as pessoas e proporcione espaços de convivência foi uma das que mais empolgou o pessoal.

No final do sábado, uma mesa para debater formas de organização da blogosfera, para que o debate não aconteça uma vez por ano, mas que sejam criadas alternativas de aprofundamento da discussão e de prática cotidiana efetiva, além da regionalização do debate. Rolou uma conversa com André de Oliveira, do Coletivo Catarse, Paulo Salvador, da Altercom, e Fernanda Quevedo, do Fora do Eixo, que mostraram de que forma esses coletivos de comunicação se organizaram, para inspirar o movimento de blogueiros que vem surgindo. Ao final, choveram crachás na mesa pedindo inscrição; todos queriam contribuir para o debate, que foi muito bacana e que, evidentemente, não se fechou ali. Abriu-se um caminho para que continuemos a conversar a partir de agora, estruturando essa organização.

Balanço do encontro

Eu sou suspeita pra falar, mas quero registrar minha avaliação de alguns altos e baixos do 2BlogProgRS. O principal “baixo” foi a dificuldade de organização, em função de pouca gente envolvida diretamente nas questões práticas e de ninguém poder se dedicar exclusivamente a isso. Deriva daí (e do envolvimento com as eleições, acredito) o quórum um pouco baixo, principalmente no sábado. Ainda assim, os debates foram realmente muito bons. Esse é o grande “alto”, e não falo como organizadora. Realmente gostei muito de ter estado lá, presenciado as discussões, concordado com uns, divergido de outros, vivenciado o debate respeitoso, mas livre e franco. E o astral do lugar estava muito legal. Tenho que concordar com a Binah que estava mais bacana do que o 3º Encontro Nacional, em Salvador. E por fim na lista dos pontos altos a presença do povo. Tanto os gaúchos dedicados ao debate da comunicação quanto os que simpatizam com a causa (que, afinal, dialoga com todas as outras causas defendidas por aí) e até de um pessoal bacana que veio de longe pra prestigiar. Registrei presenças de Floripa, Rio, São Paulo e Brasília.

Uma coisa que pra mim foi muito legal foi a participação de movimentos sociais, que vem sendo reivindicada há algum tempo e foi muito pedida em Salvador, no 3º encontro nacional. Levamos isso como um objetivo, de estabelecer esse diálogo com movimentos mais tradicionais e ampliar a abrangência da luta, e acho que aqui conseguimos fazer neste encontro. É uma porta que vai se abrindo, agora é preciso construir a continuidade.

E agora falando como participante, mas também como organizadora, não posso deixar de agradecer alguns apoios muito importantes. O governo do estado, através da Secretaria de Comunicação e Inclusão Digital, esteve aberto ao diálogo desde os primórdios da nossa organização, tendo apoiado já o primeiro encontro e agora mais uma vez contribuído para que tudo desse certo, mostrando interesse no debate da democratização da comunicação. Sem esse apoio, certamente, não daria.

A Veraz tocou toda a logística do encontro. À Patrícia e ao Paulo Cezar, grandes parceiros, muito obrigada.

A Associação Software Livre, mais uma vez, parceiraça tocando a transmissão ao vivo e já em seguida disponibilizando os vídeos dos debates, que já estão sendo subidos no Youtube.

O espaço em que foi realizado o encontro foi um dos responsáveis pelo clima bom e pela integração do pessoal. Vale então citar a Nós Coworking.

Outro campeão de elogios foi o coffee break, fornecido pelo coletivo Utopia e Luta e indicado pela Cintia Barenho.

Miro, Barrey (e Vera), Danéris (e Stela), Rosane, Rosário (e Rodrigo e Luca), Igor, Marco, Ney, Rute, Enrico, Paulo (e Rovai), André, Fernanda. Sem palavras, brigadíssima ;)

E, por fim, amigos, parceiros, participantes. Brigadão pela presença e pela qualidade do debate.

Fotos: Fora do Eixo e Cris Rodrigues
Mais fotos no Flickr do Fora do Eixo, no meu e no álbum da Cintia Barenho. Mais alguém?

Por um país com dignidade

“Peregrino do Direito”: o apelido foi dado pelo procurador aposentado do Estado Jacques Alfonsin, e o juiz espanhol Baltasar Garzón gostou. “Nunca tinham me chamado assim, e é o que sou. Sou um peregrino impenitente na defesa do direito”, disse em sua conferência Direitos Humanos, Desenvolvimento e Criminalidade Global, na noite desta terça-feira (17) em Porto Alegre, em que recebeu a Comenda da Ordem do Ponche Verde, a mais alta condecoração oficial do Rio Grande do Sul, logo depois de o governador, Tarso Genro, instaurar a Comissão Estadual da Verdade.

Baltasar Garzón é conhecido pela sua luta para recuperar o acontecido em ditaduras ao redor do mundo e fazer justiça com os responsáveis. Foi ele, por exemplo, que emitiu uma ordem de prisão contra o chileno Augusto Pinochet, que comandou uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina por 17 anos. Em sua conferência, não faltaram elogios a Tarso e a Lula, embora à tarde tivesse lamentado que não se estivesse fazendo a busca por Justiça no Brasil. Sobraram, por outro lado, críticas ao país de origem. Segundo ele, a Espanha ainda convive com fantasmas da guerra civil, que já terminou há 70 anos, mas ainda está presente no cotidiano dos cidadãos em nomes de ruas, por exemplo. Vale lembrar que faz pouco tempo que a Câmara Municipal de Porto Alegre rejeitou a proposta de mudança de nome da avenida Presidente Castelo Branco (estamos em tempo de eleições municipais, #ficaadica).

Um dos momentos em que Garzón mais arrancou aplausos da plateia, que lotou o auditório do Ministério Público do RS, foi quando afirmou que não é preciso recuperar a dignidade das vítimas das ditaduras, porque elas não a perderam. “Perderam aqueles que massacraram, que torturaram, que negaram a justiça, a reparação, e aqueles que consentiram e que consentem”. Ele enfatizou essa última parte: os que viram a cara e dizem que o país tem mais com o que se preocupar tampouco são dignos.

Por tudo isso e mais um pouco, ressaltou a importância do momento por que passa o Brasil, com sua Comissão da Verdade, instituída pelo governo Dilma Rousseff, e agora com a Comissão Estadual da Verdade.

O governador Tarso Genro falou antes de Garzón e, claro, rendeu-lhe homenagens. Depois delas, focou nas críticas ao que chamou de “movimento de conservação da obscuridade”, em reação à vontade do governo Lula de examinar sua história. Citou os dois argumentos mais usados por esse pessoal, e aí já incluiu a mídia como veiculadora dessas ideias. Primeiro, a ideia de que qualquer olhar para o passado seria revanchismo. Balela, o que o governo queria, segundo o ex-ministro, era um julgamento profissional. “Não é revanchismo porque nós não vamos torturá-los, matá-los, humilhá-los”.

O segundo argumento, “de cinismo absoluto”, convence muita gente pouco informada por aí. É o de que é preciso investigar e punir os dois lados. Ou seja, julgar mais uma vez aqueles que lutaram contra a ditadura e que já foram julgados por ela. “Julgados, processados, torturados e mortos”, enfatizou o governador.

Essa história sempre me faz subir o sangue, de modo que tenho que acrescentar mais uma observação ao que já disse Tarso. Quem pegou em armas nos anos 1960, 70 e 80, o fez porque vivia um regime de exceção, de perseguição, de tortura, exílio, assassinato. O fez como reação, não porque curtia uma lutinha. E o fez sem o poder e a legitimidade do Estado nas costas. Sem a lei a seu favor. Sem exército a lhe defender. Dá pra colocar no mesmo saco, hein?

Além de Tarso, Garzón e Alfonsin, falaram também a ministra da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, e o ministro do Superior Tribunal de Justiça e coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Gilson Dipp.

Um país tem que conhecer sua história!

Maria do Rosário: “O Brasil vive uma travessia para uma nação de direitos humanos. Na luta contra a ditadura decidimos pelo caminho da democracia, e essa é uma decisão inarredável da sociedade brasileira, do povo brasileiro e das instituições nacionais.”

Gilson Dipp: “Estamos vivendo um redimensionamento da sociedade brasileira frente ao seu passado, ao seu presente e certamente ao seu futuro.”

“Nenhuma sociedade afirma-se como democracia se não estiver em paz com a sua consciência e conhecendo a sua história.”

Fotos: Camila Domingues e Caco Argemi/Palácio Piratini

Comitê pelo direito à memória, à verdade e à justiça será lançado no RS

Do RS Urgente:

O Comitê à Memória, à Verdade e à Justiça será lançado segunda-feira (27), às 19 horas, no Teatro Dante Barone da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. O objetivo do comitê é mobilizar a sociedade gaúcha em defesa da aprovação, no Congresso Nacional, do projeto de lei que cria a Comissão Nacional da Verdade para trazer a público fatos até hoje ocultados sobre o período da ditadura militar no Brasil. O lançamento do comitê no RS é uma iniciativa do governo do Estado e da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. A ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, participará do ato que conta com o apoio das seguintes entidades:

Associação dos Criminalistas do Estado do RS (Acriergs), OAB-RS, Comitê Estadual Contra a Tortura RS, União dos Estudantes – Livre RS, Movimento Fora da Ordem, DCE UFRGS e União Nacional dos Estudantes.

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