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A diferença de um projeto popular

Hoje faltam cinco dias para o primeiro turno das eleições municipais de 2012. Falta pouco tempo para elegermos nossos futuros prefeitos e prefeitas, mas antes precisamos apontar algumas questões.

A essa altura do campeonato, não se pode dizer que os candidatos mais bem colocados, acredito que em todas as grandes cidades do Brasil, tenham  diferenças radicais. Sua candidatura está sujeita às regras do jogo político que está colocado, e eles só chegaram a uma boa posição nas pesquisas se submetendo a questões como financiamento privado de campanha, alianças etc.

Embora estejam todos presos ao mesmo jogo e acabem adotando posturas semelhantes em muitos casos, há, sim, diferenças fundamentais. Diferenças de projeto político. E aí foco em Porto Alegre, que é onde moro, onde voto e de onde me sinto apta a falar.

Vou retomar um período meio antigo, que muita gente já cansou de ouvir falar, para ilustrar essas diferenças. Porto Alegre teve 16 anos de administração popular, de prefeitos petistas. Popular. Do povo. Não só porque visava aos interesses do povo, mas porque era feita por ele. Trabalhadores na Prefeitura.

Nesses 16 anos, a vida melhorou no cotidiano do porto-alegrense. O transporte público era referência, os parques eram valorizados, a cidade foi pioneira na coleta seletiva. Mas, acima de tudo, a administração foi extremamente ousada e colocou o cidadão no centro do debate da cidade. Ele passou a dizer onde a comunidade estava precisando de investimento, como investir o orçamento. Não só opinar, mas decidir. O Orçamento Participativo já parece tema vencido, mas é importante citá-lo porque ele é sintomático desse projeto político de que eu falava mais acima.

Foi esse Orçamento Participativo, além da forma de lidar com o bem público e com a condução da administração da cidade, que chamaram a atenção de gente de vários lugares do mundo. O Fórum Social Mundial foi consequência de uma política diferente feita aqui, que experimentava uma relação nova com a cidade. Que democratizava a democracia. Movimentos sociais do mundo inteiro se reuniram então em Porto Alegre. Usavam do exemplo daqui para dizer que um outro mundo era possível, sim.

O projeto se desgastou e parou de trazer novidades. Somado a isso e a erros políticos, uma campanha insistente e sistemática dos meios de comunicação contra o Partido dos Trabalhadores e os principais movimentos sociais (só o PT tem antipetismo!) acabou por tirar esse projeto político da Prefeitura, substituindo-o por um modo mais tradicional de fazer política, em que o prefeito é eleito pelo povo, mas administra sem ele.

Nesse meio tradicional, aqui ou em qualquer lugar, pode até acontecer de ser eleito um cara competente, bem intencionado. Mas aí entra a diferença na forma como lida com a coisa pública e como enxerga a sociedade, especialmente no âmbito municipal. Se ele não enxerga o protagonismo em cada cidadão, ele limita sua capacidade de agir, de transformar a realidade de verdade.

Em Porto Alegre, os governos do PT foram substituídos por uma parceria assim tradicional, mas não necessariamente tão bem intencionada. A dupla Fogaça-Fortunati responde por inúmeros retrocessos, que começam por tirar força do OP e continuam em uma gestão medíocre da cidade. A dupla Fo-Fo não melhorou a sinalização, piorou o transporte público (a Carris está quebrada), ajudou a aumentar a sensação de insegurança, praticamente acabou com a coleta seletiva (o lixo se espalha pelas ruas), reduziu a importância da cultura…

Esse projeto de que falo é o mesmo que, em nível nacional, transformou o país, como todos já estamos cansados de saber e viver.

Público x Privado

Observando especialmente o perfil de José Fortunati, que as pesquisas indicam ser o vencedor das eleições, notamos uma diferença bem grande. Ainda que o prefeito não tenha privatizado empresas públicas, como fez o projeto neoliberal que se opõe ao projeto dos governos Lula-Dilma, ele fez concessões que retiram espaços públicos de quem é de direito, dos cidadãos de Porto Alegre, que privatizam esses espaços. A parceria público-privada com a Opus pode ter deixado o Araújo Vianna um baita espaço pra shows, mas agora sua utilização não visa mais o interesse público. Afinal, esse é o papel da administração municipal, mas não da empresa privada. Resumindo, as atrações que ocorrerem ali terão o preço colocado de forma a dar lucro à empresa. O cidadão não vai mais ter acesso à cultura como um direito, vai estar submetido aos interesses do mercado, que sempre privilegiam a elite.

Da mesma forma, o Largo Glênio Peres, cujo episódio do chafariz no comício de Adão Villaverde ficou emblemático. E é a mesma mentalidade que privilegia o carro ao transporte público, que governa para quem não precisa da mão do Estado.

A cidade é onde a vida acontece. A administração municipal influencia no dia-a-dia do cidadão e que afeta sua qualidade de vida. Por isso, ela precisa ser executada voltada para ele, para as necessidades de sua população.

Eu não voto em candidato, eu voto em partido, voto em projeto. E voto no único partido que tem projeto para toda a sua população, que privilegie os que mais precisam. Voto no único partido dos trabalhadores.

Chafariz no comício é consequência da privatização do espaço público

Hoje, 27 de setembro, a dez dias das eleições municipais de 2012, tivemos comício da Frente Popular no Largo Glênio Peres, Centro de Porto Alegre. Para quem não é daqui, o Glênio Peres é aquele espaço público que serve, no dia a dia, de passagem para milhares de pessoas, mas que também é palco de manifestações populares, de feiras de agricultura familiar, de ocupação. Um espaço do povo.

Nem tanto.

No meio do comício, enquanto falava a ministra da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, militantes receberam uma visita inesperada. Água. E ela não vinha do céu, mas do chão. A novidade anunciada tempos atrás pela Prefeitura, ocupada por José Fortunati desde que José Fogaça renunciou para se candidatar sem sucesso ao governo do estado, mostrou pela primeira vez claramente o prejuízo que causa.

O chafariz – pontos de água espalhados em uma linha quase reta – está em espaço público, mas foi colocado pela Coca-Cola. A privatização do espaço tem consequências bem graves, e diz muito da forma de administrar a cidade – bem diferente da administração popular. Consequências que vão bem além dos militantes molhados, do outro que caiu ao tropeçar tentando escapar da água e do material de campanha encharcado.

Prefiro não apostar na possibilidade de os correligionários do prefeito Fortunati serem tão contra o espírito democrático a ponto de ligar os chafarizes de propósito. E na verdade não importam muito as desculpas que a Prefeitura possa dar (segundo a Rádio Guaíba, o coordenador do programa Viva o Centro, Glênio Bohrer, disse haver um acordo para que não fossem ligados durante o comício e que desconfia de sabotagem, mas poderiam dizer que ligava automático, sabotagem, acidente, responsabilidade da empresa, não importa). Não importa, porque só têm duas opções: ou o chafariz é responsabilidade da Prefeitura ou da Coca-Cola. O fato é que estamos falando de um espaço público, que deixou de ser.

No momento em que a Prefeitura entrega nas mãos de empresas privadas a recuperação e a administração de lugares do povo, ela está dando um recado claro: esse espaço deixou de ser do cidadão. Ela sujeita os habitantes do município às vontades de uma entidade que se move em função do lucro. E isso não é uma ofensa, é o pressuposto básico do capitalismo, cujo espírito, segundo Max Weber, é não simplesmente o lucro, mas a acumulação de dinheiro. Exatamente o oposto do que deveria ser o pressuposto de uma administração pública, que seria o de prover o bem estar da comunidade.

É esse modelo que vamos deixar ocupar o Paço Municipal mais uma vez?

Por que a Frente Popular renova esperanças

No dia em que o deputado Beto Albuquerque anunciou o nome do candidato a vice-governador na chapa de Tarso Genro através do Twitter, retuitei um comentário do deputado estadual Elvino Bohn Gass: RT @BohnGass Estamos todos juntos, Tarso, Olívio, Raul, Beto, Manuela.. Vendo esta cena aqui no diretório do PCdoB minha esperança se renova.

Foi meio automático, achei sincero e bacana e passei adiante. Aí veio o questionamento, que eu não esperava – olha como as redes sociais vêm pautando as discussões -, do @BetoHagemann: E a tua esperança? Se renova?.

Sim, se renova. Sinto que se renova, mas por quê?

Identifico dois fatores. Um bem prático, que não é o principal. Porque fortalece a expectativa de eleger Tarso governador, já que os votos do Beto Albuquerque, de acordo com as pesquisas, podem decidir o pleito.

Mas o principal é que a retomada da Frente Popular, com PT, PSB e PC do B juntos, dá uma nostalgia de tempos mais fáceis, em que acreditar era natural, levantar a bandeira dava orgulho. Não é a mesma coisa, eu sei. O mundo é outro, o RS é outro, claro. O contexto é diferente, mas ainda assim. A sensação é de que tudo pode voltar a ser limpo e claro como antes. De que as ideologias voltam a orientar a política do PT. Estou sendo simplista, mas isso é mais uma sensação, que não sei explicar direito. Talvez uma nostalgia de mais coerência, de uma coligação forte, mas pura. Uma coligação que não ofenda meus princípios. Veremos.

Candidato a vice-governador foi anunciado pelo Twitter

Hoje o cenário da política gaúcha tomou definitivamente o seu rumo. PSB e PC do B aderiram à campanha de Tarso Genro (PT), e definiu-se Beto Grill (PSB) como vice na chapa.

Mas não quero falar das consequências políticas. Quero falar da relação com o eleitor. O anúncio do nome de Beto Grill foi feito pelo colega de partido Beto Albuquerque. Pelo twitter.

Antes dos jornalistas, antes da imprensa tradicional poder pensar em divulgar em primeira mão, um político o fez. Talvez por uma certa ansiedade, um pouco de pressa. Mas vejo como uma coisa positiva. Diminuindo os intermediários entre a notícia e a sociedade, me parece que a relação fica mais democrática. As chances de a mensagem se deturpar no meio do caminho diminuem. É como um boato, que vai aumentando à medida que vai passando de boca a boca. Quanto menos gente houver entre a fofoca inicial e o destinatário final, mais fiel ela vai ser.

O jornalista passa a repensar seu papel. A Rosane de Oliveira, por exemplo, apenas retwittou o que disse Beto. Um pouco depois, o deputado Elvino Bohn Gass comentava através do serviço de microblogs, sem intermediários. A Zero Hora deu uma nota curta, informando que o vice tinha sido anunciado pelo Twitter. Só.

Como lidar com a notícia daqui para a frente? O leitor está opinando pelas redes sociais o tempo todo, está mais próximo da notícia. Tanto da notícia em si, que perde sua aura de inantingível quanto da transmissão do fato, através de envio de vídeos, fotos, sugestões, pautas. Um pouco parte da notícia, um pouco repórter, um pouco leitor. A transformação transforma cada parte do processo em um híbrido, com uma mistura de funções. As definições de quem faz o quê estão mais difusas.

O desafio é lidar com isso. Mas, se vem pro bem, que venha logo. A gente que se vire.

Para ler mais:

A nota de Zero Hora.

Twitter:

@BetoAlbuquerque
@rosaneoliveira
@Beto_Grill
@BohnGass

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