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Novela da Globo não conhece meio termo

Qualquer autor de obra de ficção tem o poder de transformar a receptividade para determinados temas ou abordagens, dependendo dos personagens da boca dos quais coloca a informação – e como coloca. Quanto maior a audiência e menor a profundidade, maior é a influência sobre o senso comum. Novelas têm especial apelo para isso. O que dizer, então, de uma novela das nove da Globo?

Fazia tempo que eu não assistia novela. Decidi agora acompanhar essa pra ter um momento de ócio nada criativo, em que eu pudesse descansar sem pensar em nada. Aviso, não está funcionando. Já fui bem noveleira, mas agora a reação que as novelas provocam em mim é de incredulidade e uma certa raiva, por conta dos valores que tentam passar para a grande maioria dos brasileiros.

E não se trata só de política. Um tema bastante recorrente, por exemplo, é o sexo. E nessa “Insensato Coração” ele é particularmente maltratado. Há uma situação em que ele aparece com maior intensidade, em uma época da vida em que é mais tabu, mais difícil de lidar, a adolescência, o começo da vida adulta.

Uma menina de 18 anos decide transar com um rapaz simplesmente para “perder a virgindade”. Quando vi a situação que se configurava, imaginei que viria uma discussão saudável sobre a pressão que meninas e meninos sofrem para beijar, quando ainda crianças, e para transar, quando chegam mais próximo do fim do colégio – ou até um tanto antes. Ser virgem muitas vezes é visto como aberração, e todo o mundo está careca de saber que adolescente quer mesmo é ser aceito. Logo, valeria um debate sobre a necessidade de o jovem fazer o que os amigos querem que ele faça, e não o que manda sua vontade.

Pff, doce ilusão. O autor colocou do outro lado – porque em novela tudo só tem dois lados, sem meio-termos – a mãe da moça, que, por acaso, é a malvada da novela. Ou seja, tudo que ela porventura possa dizer tem grandes chances de vir a ser interpretado como errado pelo telespectador mais incauto.

Imediatamente, ela repudia a atitude da filha, acusando-a de ter entregado a um qualquer seu maior “trunfo”. Ridículo, seria um completo desserviço à sociedade se a argumentação fosse tida como séria, podendo dificultar ainda mais a relação de jovens com seu corpo e sua cabeça. A boa notícia é que ela é malvada, então tende a desmistificar a sacralização do sexo.

O grande problema está do outro lado. Lembrando que só há dois lados, como falei. A menina vê a relação sexual como um ritual de rompimento de hímen. Algo como escovar os dentes, sem graça e quase sem importância. A única coisa que a atrai é a curiosidade, satisfeita de forma fria e distante.

As discussões entre as duas personagens são a parte mais surreal da história. A mãe grita de um lado que a menina entregou seu maior trunfo, enquanto a garota rebate que apenas rompeu seu hímen.

O que o autor faz é criar duas situações possíveis para a discussão sobre sexo. Ou sacraliza ou banaliza. Nenhuma das duas favorece o debate franco e saudável, a tratar o sexo como algo natural e gostoso, que faz bem, mas deve ser feito com vontade, sem precipitação. Não por uma questão moral da sociedade, de preservação da virgindade, algo que não faz muito sentido. Mas por respeito ao próprio corpo e aos sentimentos de todos os envolvidos. Especialmente o seu, de forma ainda mais profunda e relevante com adolescentes.

Comportamento dos mineiros surpreende positivamente

Já que o assunto do momento é o resgate dos mineiros no Chile, vamos a ele. Mas nada de muito pesado, que esse negócio de discutir aborto já está acabando com as nossas forças. Hora de comemorar. Nem falo pelo resgate em si. Ótimo, maravilha que estão todos vivos e bem.

Mas o principal mesmo é que eles passaram dias a fio presos olhando sempre para as mesmas caras. Podiam enjoar um do outro, brigar por bobagem, deixar a convivência pesada se sobrepor à amizade e à necessidade de sobrevivência – física e psicológica – de forma saudável.

Mas não. Eles demonstraram uma força de vontade surpreendente. Positivamente surpreendente. Foram sãos ao não deixar rolar desunião. Foram nobres até. Confesso que eu apostava – não que eu quisesse, mas achava que aconteceria – que as dificuldades se imporiam e gerariam inúmeras desavenças. Ainda mais tendo que cortar aqueles vícios nada saudáveis, mas que geram crises de abstinência e irritação, como o cigarro.

Lá dentro, eles não tinham alternativa. Não podiam se dedicar ao que mais gostavam, não podiam ver quem quisessem. Tinham que fazer o melhor com o que tinham em mãos. E fizeram.

O mais bonito é isso. Eles mostraram organização e força de vontade. Mostraram que há uma luz no fim do túnel – perdão pelo trocadilho infame – e renovaram, pelo menos em mim, uma esperança na humanidade. Uma esperança de que a índole do ser humano é boa. Que é a sociedade que o corrompe, mas que ele é bom. Que ele é solidário, sociável. Que precisa dos outros e entende isso. Que não vive sozinho e que, por isso, tem que conviver com os amigos, irmãos, estranhos, como se fossem parte de si mesmos. Porque são. Não vivo sem o outro, então tenho que tratá-lo bem.

No fundo, é uma atitude egoísta. Ser solidário é um pouco ser egoísta. Mas se pensarmos sempre assim não saímos do impasse. Portanto, é mais negócio simplesmente ser solidário e fazer do mundo um lugar um pouquinho melhor para se viver.

P.S.: Mil perdões pelos trocentos clichês que rechearam esse texto.

Folhateen é jornalismo dos bons para adolescentes

Se às vezes é difícil de engolir a cobertura de política dos grandes jornais brasileiros, há situações em que alguns surpreendem pela qualidade. Algumas surpresas são realmente inesperadas, o que é ótimo. Por exemplo, o caderno Folhateen, da Folha de S.Paulo. Acostumada como estou com o jornalismo gaúcho, fica difícil ver a possibilidade de fugir da futilidade em um suplemento para crianças e adolescentes. E não é que dá?

Se sexo, AIDS, drogas parecem já estar esgotados, há uma infinidade de outros temas que podem ser abordados. A capa do Folhateen de ontem (02), por exemplo, é sobre como lidar com a descoberta de que seu pai ou mãe é gay. Sensacional! É difícil mesmo, o preconceito é muito grande e essa se torna uma dificuldade a mais na vida já conturbada de um adolescente. Eu nunca tinha visto nenhum veículo abordar o tema – sem pré-julgamentos.

Em suma, o caderno fala de comportamento com a linguagem direcionada para um público específico, atendendo suas peculiaridades. “Comportamento” pode preconceituosamente parecer jornalismo de segunda categoria, mas, especialmente na juventude, é essencial uma orientação, um lugar onde procurar explicações sobre coisas que podem acontecer e com as quais é difícil de lidar. Às vezes não se tem com quem conversar a respeito das mudanças da vida, ou falta informação.

A matéria não é enorme, nem poderia. Os jovens já leem tão pouco que o melhor que o jornal pode fazer é não assustá-lo com textos imensos. Mas ocupa o tamanho certo para provocar a discussão, que vai além do jovem diretamente afetado pelo tema, mas atinge também o colega que lê a Folha e poderia olhar com olhos tortos para aquela menina da classe cujo pai assumiu a homossexualidade.

Ou seja, além de cumprir com o objetivo de informar, a Folha contribui para, através da discussão do tema, combater o preconceito. Pesquisando edições anteriores, percebe-se que é prática adotada sempre. Há temas como ateísmo, maconha em família, carreira no exército, livrarias, de tudo. Isso é jornalismo dos bons. E feito para adolescentes.

Na página seguinte, um texto sobre eleições e as vantagens democráticas de se tirar o título de eleitor e votar aos 16. No mesmo caderno, uma outra matéria trata de jovens que perderam tudo em tragédias e levam uma vida improvisada. Nesse caso, o jornal ajuda a sensibilizar o adolescente, ele olha para o outro e o enxerga, como outro ser que sente, e que muitas vezes sofre. Alguém digno de solidariedade em momentos difíceis, de compreensão quando erra, de compaixão.

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A primeira é imagem é a que ilustra a matéria de capa dessa semana. De Daryan Dornelles/Folhapress.

As outras são de edições antigas, porque não tive acesso à versão online da edição atual.

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