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Archive for the ‘Economia’ Category

O lado mais triste da crise

“Estou ficando desesperadamente envergonhado fazendo isso por nada. Alguém poderia, por favor, colocar uma moeda por consideração? 20 centavos em duas horas é humilhante.”

Covent Garden, Centro de Londres, 16/11/2011

Quem elegeu Mario Monti e Lucas Papademos?

Emir Sader lançou a questão no seu mural no Facebook: “Saem Berlusconi e Papandreou, eleitos pelos cidadaos, entram Papademos e Monti, eleitos pelos mercados (isto é, pelos especuladores), por Merkel, Sarkozy e o BCE. Estes sao melhores eleitores do que os cidadaos? Essa é a conclusao que querem tirar?”.

Será que os líderes de Alemanha e França e o Banco Central Europeu perceberam que desta forma estão desacreditando a democracia?

Por pior que possam ter sido os governos de Georges Papandreou e, especialmente, de Silvio Berlusconi, eles foram eleitos pelo povo. Podemos questionar se foram bem eleitos ou não, podemos não entender as motivações do povo na hora do voto. É possível argumentarmos que os italianos elegeram um primeiro-ministro que tinha a mídia em suas mãos, no que a eleição fica comprometida, que isso prejudica o caráter democrático da república italiana etc. etc.

Mas há uma diferença. Mario Monti e Lucas Papademos podem ser extremamente competentes. Aliás, apostaria que o são. Mas há uma certeza que se pode ter a seu respeito. Ambos foram escolhidos com um único objetivo e de acordo com um único interesse. E esse interesse não é o bem comum, não é o melhor pra cada cidadão. O interesse que os rege é o mercado. É a ele que respondem, é para ele que são competentes. Além da ideologia que os orienta, têm quase uma dívida de gratidão. Estão onde estão para acalmar os mercados. Se não tivessem essa capacidade, não estariam lá. E se não fizeram, podem sair com facilidade.

Um modelo nada democrático na Europa, que, junto com os Estados Unidos, forma o exemplo de democracia do mundo ocidental. Aqueles que têm autoridade para invadir países e ditar regras usando como argumento a necessidade de levar democracia para onde antes só havia ditadura. São esses que agora impõem uma ditadura de mercado.

Como fica agora? Líderes eleitos pelo povo, como Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, perdem sua legitimidade. E chefes de Estados mais fracos, como Portugal e Espanha, se veem obrigados a andar na linha ditada pelo mercado. O cidadão vai ficando cada vez mais para último plano. Cada vez mais trabalha apenas para pagar as dívidas criadas em seu nome sem o seu consentimento.

Portugal sente a crise

Não precisa mais que alguns poucos dias em Portugal para ver e sentir que a coisa está feiatugal para ver e sentir que a coisa est. O país nos recebe bem e é um lugar extremamente agradável de visitar. Mas talvez não esteja mais tão bom assim de morar. A impressão passa pela sensação de insegurança ao andar nas ruas, de tristeza pela quantidade enorme de gente pedindo dinheiro (incluindo muitos idosos), a gurizada vendendo drogas em dia claro, o aviso constante para cuidar dos pertences por causa de assalto. Fica a impressão mais subjetiva de que falta alguma coisa, de que já não é como era, mesmo que eu nunca estivesse pisado em terras portuguesas antes desta última semana. Isso vem na voz dos portugueses. E nas páginas dos jornais.

Com a notícia de que a Grécia vai fazer um referendo para decidir se continua ou não na zona do euro e a incerteza que isso causa, Portugal tremeu. Sabe que está na fila e sua vez está chegando. É o próximo a encarar o furacão, dependendo de como as coisas andarem no companheiro ainda mais fraco que está se segurando para não ir à bancarrota. Na verdade, se segurando para não admiti-la, ela que já é evidente.

A Europa está tensa. O imprudente presidente francês – que o professor universitário português Viriato Soromenho-Marques chamou, no jornal Diário de Notícias, de “insulto continuado à grandeza da França” –, Nicolas Sarkozy, já disse que seria melhor a Grécia não ter adotado o euro, mas agora treme diante da possibilidade de ela fazer-lhe a vontade.

O referendo chamado pelo governo grego é uma oportunidade de o povo exercer a democracia, ainda que não tenha sido chamado por esse motivo. A verdade é que a Grécia está numa sinuca de bico, e aceitar as condições impostas desde Berlim não é tarefa fácil. As medidas de austeridade vão prejudicar ainda mais o já combalido povo grego, especialmente, como sempre, os mais pobres. Então o governo faz um pacote e joga a batata assando para as mãos dos eleitores. Ou ficam na zona do euro e aceitam as medidas ou demonstram sua soberania negando a imposição externa, mas assumem as consequências de abandonar a moeda comum. Não há meio termo.

A culpa, nesse momento, não é exatamente do primeiro-ministro grego, George Papandreou. A União Europeia lhe impôs a condição, e ele repassou-a ao povo. A situação agora é imprevisível, ainda que mais de 70% dos gregos não queiram abandonar o euro. Os mercados devem flutuar nesse tempo de incerteza até o começo de dezembro, quando o referendo deve ser realizado.

Portugal vai continuar observando e torcendo, enquanto os articulistas de seus jornais clamam por uma postura sensata de fazer o que for necessário para resguardar a estabilidade e proteger a moeda. É o que a chanceler alemã, Angela Merkel, quer, como já deixou claro ao afirmar que salvar o euro é mais importante do que salvar a Grécia. Ela sabe que a União Europeia está em crise e o euro pode dançar à medida que os países endividados (já estão na lista também Espanha e Itália, além da Irlanda) forem quebrando. A gente vê nas ruas de Portugal o resultado da sensatez de abdicar de sua soberania e submeter-se às vontades da EU. Como elo fraco, nunca dá as cartas, sempre baixa a cabeça. E como elo fraco, sempre arca com o prejuízo.

O país das grandes navegações agora vê seu navio balançar. Para a Europa, perder Portugal pode não ser tão simples quanto perder a Grécia (não que isso o seja). Mas quando a estabilidade do euro está em jogo…

“Nós somos os 99%” – Occupy London

Fazia 8ºC na City, o coração do mercado financeiro inglês, em Londres, na tarde de quarta-feira, 19 de outubro. Ainda assim, cerca de 150 pessoas continuavam nas barracas montadas desde sábado, 15, em frente à Catedral de St. Paul’s, e não pareciam pretender sair de lá tão cedo. Em Londres, a repercussão do movimento americano Occupy Wall Street está sendo chamada de Occupy the London Stock Exchange, ou Ocupem a Bolsa de Londres (página no Facebook e no Twitter), e segue na mesma linha do que se vê nos Estados Unidos. Não há um líder ou um porta-voz, sequer uma proposta clara do que pode ser feito para mudar o mercado financeiro ou o sistema político-econômico.

“Pergunte a 100 pessoas aqui e você vai ter 100 diferentes respostas”, disse Ben, um jovem de 22 anos que recém terminou a faculdade de história e política e agora trabalha em um bar, mas não quis ser fotografado nem dar o sobrenome. “A polícia nesse país usa um monte de artifícios pra tentar pegar alguém”, justificou. A sensação não é incomum por aqui. A instituição que deveria dar segurança geralmente é motivo de medo. Mas a relação com o movimento anda amistosa, apesar de um pequeno confronto no começo.

Apesar de estar na frente da catedral há apenas cerca de 24 horas, Ben não pensa em sair de lá. Diz que vão continuar acampados, sem prazo definido de retirada. Assim como tantos outros que circulavam por lá, ele tinha um pedaço de papel rosa pendurado na roupa com a inscrição “Info”. Apesar do sinal, ele diz não ser parte de nenhuma organização e explica que a experiência do acampamento é uma democracia direta: “nós não elegemos líderes para tomar decisões; todo o mundo discute tudo o que precisa ser discutido”.

“Dizer que esse é um movimento anti-capitalista não está exatamente certo”, afirma, pois alguns não defendem uma transformação radical. Não é o caso de Ben, que acredita que o governo também é parte do problema – “tanto conservadores quanto trabalhistas” –, por manter e incentivar o sistema econômico. “Eu diria que sim, é preciso mudar o sistema político.” Sua proposta é mais democracia, de forma mais direta. “As coisas não podem continuar do jeito que estão. Quando os bancos vão bem, eles ficam com todo o dinheiro. Quando eles vão mal, todas as pessoas pagam.” Mas ressalva que “cada pessoa tem uma razão para estar aqui”.

De fato. A não muitos passos de Ben, um iraquiano que vive há 10 anos em Londres falava de suas razões para estar na frente da catedral, e elas não eram exatamente iguais às do colega de acampamento. Enquanto o primeiro era contra os bancos e a forma como o mercado financeiro está estruturado, ele afirmava que não é contra nada nem ninguém, apenas quer viver em comunidade e mostrar para as pessoas que isso é possível. “Nós não queremos consertar nada, porque é impossível. Nós queremos uma coisa nova, e uma coisa nova é todo o mundo vivendo bem”, embora não saiba como isso possa ser feito. Ele diz representar os 99% do mundo, em alusão a uma das chamadas do movimento, que opõe a imensa maioria ao 1% que está nos bancos e faz as coisas andarem errado.

Ao mesmo tempo, o inglês Dub, 26 anos, questionava o sentido da vida e as razões da desigualdade no mundo, propondo solidariedade de uma forma bastante genérica, mas ao mesmo tempo muito consciente da importância da internet para fazer o movimento explodir.

O Occupy the London Stock Exchange tem suas raízes no movimento americano, que questiona o mercado financeiro e o sistema econômico mundial. As palavras de ordem e a maioria das manifestações seguem a mesma linha, embora as motivações sejam de fato muito amplas e às vezes desconexas. Os jovens acampados no centro de Londres podem não estar muito seguros do que querem, mas eles sabem que alguma coisa está errada. Se estivessem sozinhos ali, com as mesmas ideias e os mesmos discursos, talvez não chamassem muita atenção. Mas eles fazem parte de um movimento mundial que já não se permite ser ignorado.


E eles insistem em curar a doença com a droga que a causou

O grande problema da crise atual é que ela está sendo “debelada” pelos mesmos que a criaram (ou representantes do mesmo espectro ideológico). Ou seja, estão sendo tomadas medidas semelhantes às que causaram a tormenta para curá-la. As últimas décadas viram o mundo inteiro adotar a desregulamentação e diminuir o investimento em políticas sociais, deixando o mercado agir livremente e impor a sua regulamentação, de acordo com os seus interesses. E o mercado sabe ser bem cruel. Ele não é uma entidade magicamente autoguiada, na verdade segue regras ditadas por um grupo proporcionalmente muito pequeno da sociedade. Pequeno, com muito dinheiro e muito poderoso.

Este grupo não está lá muito preocupado com o bem-estar das pessoas de um modo geral. Seu único objetivo é acumular dinheiro, custe o que custar.

O problema é que os políticos, eleitos pela grande maioria que não pertence a esse reduzido grupo, seguem as regras ditadas por ele. As políticas neoliberais – as preferidas desse grupo – vêm prejudicando milhões de trabalhadores nas últimas décadas. Nos países que continuaram deixando de investir nos seus cidadãos – destacadamente EUA e países-membro da União Europeia –, o desemprego atinge índices recordes e a qualidade de vida piora. Os ricos pagam cada vez menos taxas, e a conta sobra para os pobres e a classe média.

É por isso que a colunista da revista Time Rana Foroohar diz, na edição desta semana (íntegra disponível para assinantes), que a desigualdade não é sintoma da crise, mas sua causa. Com isso ela quer diz dizer que a origem da crise coincide com a origem da desigualdade. As causas são as mesmas. E combater uma passa por enfrentar a outra.

A medida anunciada pelo presidente americano, Barack Obama, esta semana vai exatamente na direção contrária. Corta gastos do governo em um momento em que a maioria das pessoas está vivendo pior do que duas décadas atrás e a distância entre ricos e pobres vem aumentando. Em que a maioria das pessoas precisa da ajuda do governo.

A primeira conclusão, mais fria, é de que o remédio não vai curar a doença. Pelo simples motivo de que o remédio é feito da mesma droga que a causou. Mas vale ir além e refletir um pouco sobre os porquês de se tomar determinadas decisões políticas. Sobre o que motiva o governo e o Congresso americanos e o que devia motivá-los.

Na minha concepção ingênua de política – essa macropolítica envolvendo partidos, governos, deputados, senadores –, ela serve para organizar a sociedade, já que somos muitos e precisamos de alguns representantes que ordenem a bagunça, criem regras e distribuam a riqueza. Ok, isso bem a grosso modo. Mas o importante é que é um sistema representativo no qual os representantes devem governar para o povo. É a tal da democracia – se bem que eu acho que em qualquer sistema se deveria pensar no bem comum. Mas aí entra um tal de poder no meio, que gera uma sede incontrolável por ele e que distorce as coisas e turva visões. Transforma os objetivos, inverte as práticas.

Resumindo, a minha grande questão é: mesmo que as medidas adotadas tanto pela Europa quanto pelos EUA solvessem a crise atual, de que adianta tomá-las se trarão como consequência direta uma piora na qualidade de vida da imensa maioria dos cidadãos? Não faz o menor sentido que qualquer política que prejudique as pessoas seja tomada, especialmente quando não há perspectiva de reverter esse mau cenário.

O que fica é a esperança já reciclada de que, por não resolver o problema, a “solução” da crise leve a uma crise ainda maior, que torne impossível manter esta forma cruel de se fazer política e acabe gerando uma transformação mais radical.

Banrisul anuncia medidas para garantir transparência e ética

Alguém lembra daquela história das empresas de publicidade contratadas pelo Banrisul (SLM e DCS) com contratos superfaturados? Isso veio à tona em setembro do ano passado, durante a gestão PSDB/PMDB, mas, como no Brasil só se lembra daquilo que interessa a determinados interesses, a história sumiu dos jornais. Agora voltou a ser notícia, ainda que tratada de forma meio morna. O fato é que a nova direção do banco está adotando medidas para manter a transparência e um rigoroso controle ético, de forma que irregularidades não encontrem mais espaço. Entre essas medidas, o rompimento de todas as relações com as empresas envolvidas nas denúncias.

A informação a seguir foi tirada daqui.

A diretoria do Banrisul divulgou nota de esclarecimento referente à suspeita de fraude ocorrida no banco e investigada pela Operação Mercari, que veio a público em setembro de 2010, durante a gestão anterior. O esquema, investigado desde 2009, envolveria superfaturamento em ações de marketing da instituição, chegando a um prejuízo de R$ 10 milhões. Tais investigações não se referem a nenhum quadro da atual administração.

Confira abaixo a nota na íntegra.

NOTA À IMPRENSA

Diante das manifestações veiculadas na imprensa acerca da denúncia, por parte do Ministério Público Estadual, de envolvidos em supostas irregularidades na área de eventos e mídia externa da Unidade de Marketing do Banrisul, a direção do Banco vem manifestar o que segue:

1) Desde a deflagração da operação dos órgãos de controle e investigação, em setembro de 2010, o Banrisul vem adotando medidas saneadoras no setor.

2) A partir da posse da nova diretoria, em 17 de março último, todo um padrão de conduta visando garantir transparência e economicidade, necessárias a este tipo de atividade, foi reforçada, tanto no fluxo dos processos internos, como na reestruturação da área de marketing.

3) Já na primeira reunião da nova diretoria, em 21 de março do corrente, ficou decidida a abertura de novo processo licitatório para a contratação de agências de publicidade, cujo edital será publicado em breve.

4) Os empregados do Banco envolvidos já foram afastados das suas funções.

5) A Diretoria determinou que a Assessoria Jurídica do Banco tome todas as medidas cabíveis para o ressarcimento de possíveis prejuízos sofridos pela Instituição.

6) Também foi determinada a suspensão de todas as relações comerciais do Banco com as empresas envolvidas.

Considerando o compromisso ético com a boa governança corporativa e a transparência de seus negócios e ações, o Banrisul, habilitado como assistente de acusação no processo, reafirma sua posição de acompanhar e prestar o apoio necessário ao trabalho desenvolvido pelo Ministério Público Estadual, Ministério Público de Contas, Tribunal de Contas do Estado e Polícia Federal, a fim de garantir que todas as irregularidades sejam amplamente apuradas.

Diretoria do Banrisul

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