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Uma cachoeira de disparates

Eu sei que comentar essa história da Veja é só se dar trabalho. A coisa é tão explicitamente esdrúxula que nem valeria o tempo de me botar a digitar essas letras. Mas não adianta, não estou conseguindo segurar. Mas vou tentar ser breve.

Pois então, o panfleto mais vendido do Brasil (como pode, meu deus?) veio com uma capa digna de… Bom, digna de nada, na verdade bem sem dignidade. O argumento (sic) é que a história de corrupção que envolve o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o senador Demóstenes Torres e mais uma penca de gente, inclusive da imprensa, é coisa do PT para encobrir o escândalo do mensalão.

Escândalo. Palavra interessante para entender o momento. O objetivo, segundo a Veja, é esconder um escândalo. Mas ele existe? O mensalão virou “escândalo” em 2005, na tentativa de impedir o então presidente Lula de se reeleger. Naquela época, o PT se encolheu e respondeu muito mal às denúncias. Não sabia o que dizer e acabou não dizendo nada por um bom tempo. Ainda assim, e sem nenhuma outra grande história para encobrir o que a mídia já tinha definido como o maior escândalo de corrupção da história (a memória curta a faz esquecer do tão recente Fernando Collor, isso sem falar em outros Fernandos por aí), não deu certo. Lula se reelegeu.

Por que, então, o partido teria tanto medo do tal mensalão agora que ele já não é mais explosivo? Convenhamos que a história de que está próximo do julgamento não é exatamente crível, né?

E bom, impossível não notar a contradição da publicação, adepta antiga da prática conhecida por dois pesos e duas medidas. Ou seja, avaliar o caso conforme o interesse. Quando o governo é alvo de denúncias, é preciso investigar até a sobrinha da prima do vizinho da faxineira do ministro. Quando tem repórter da revista metido na história da corrupção, pra que investigar?

É engraçado que até o partido Democratas já desistiu de defender o senador envolvido nas tramóias com Cachoeira, mas Veja continua agarrada na defesa. Por quê? O leitor não estranha que a revista não tenha interesse em investigar a fundo qualquer denúncia de corrupção? Não estranha que a capa da publicação seja um assunto requentado enquanto outro ferve na arena pública de debates?

E é engraçado também como, para esse tipo de publicação, jornalista deveria ter imunidade, mais que deputados, senadores ou gestores públicos. Mais que deus, acho. Se um jornalista matar alguém, ele não deve ser investigado? E se ele for corrupto? Investigar ilegalidades cometidas por profissionais de imprensa é tentativa de censura? Defender tal tese é desvalorizar a profissão, não o contrário. Ora, poupem os meus botões.

Mas olha, não vou me alongar mais. Uma olhadinha rápida nas páginas da revista, recheadas de adjetivos exagerados, ofensivos e, o mais evidente de tudo, ridículos basta para que toda a história criada por Veja venha abaixo. Impossível levar a sério tamanho disparate.

Deixo-vos com a leitura da nota divulgada hoje pelo presidente da Cãmara dos Deputados, Marco Maia:

Tendo em vista a publicação, na edição desta semana, de mais uma matéria opinativa por parte da revista Veja do Grupo Abril, desferindo um novo ataque desrespeitoso e grosseiro contra minha pessoa, sinto-me no dever de prestar os esclarecimentos a seguir em respeito aos cidadãos brasileiros, em especial aos leitores da referida revista e aos meus eleitores:

– a decisão de instalação de uma CPMI, reunindo Senado e Câmara Federal, resultou do entendimento quase unânime por parte do conjunto de partidos políticos com representação no Congresso Nacional sobre a necessidade de investigar as denúncias que se tornaram públicas, envolvendo as relações entre o contraventor conhecido como Carlinhos Cachoeira com integrantes dos setores público e privado, entre eles a imprensa;

– não é verdadeira, portanto, a tese que a referida matéria tenta construir (de forma arrogante e totalitária) de que esta CPMI seja um ato que vise tão somente confundir a opinião pública no momento em que o judiciário prepara-se para julgar as responsabilidades de diversos políticos citados no processo conhecido como “Mensalão”;

– também não é verdadeira a tese, que a revista Veja tenta construir (também de forma totalitária), de que esta CPMI tem como um dos objetivos realizar uma caça a jornalistas que tenham realizado denúncias contra este ou aquele partido ou pessoa. Mas posso assegurar que haverá, sim, investigações sobre as graves denúncias de que o contraventor Carlinhos Cachoeira abastecia jornalistas e veículos de imprensa com informações obtidas a partir de um esquema clandestino de arapongagem;

– vale lembrar que, há pouco tempo, um importante jornal inglês foi obrigado a fechar as portas por denúncias menos graves do que estas. Isto sem falar na defesa que a matéria da Veja faz da cartilha fascista de que os fins justificam os meios ao defender o uso de meios espúrios para alcançar seus objetivos;

– afinal, por que a revista Veja é tão crítica em relação à instalação desta CPMI? Por que a Veja ataca esta CPMI? Por que a Veja, há duas semanas, não publicou uma linha sequer sobre as denúncias que envolviam até então somente o senador Demóstenes Torres, quando todos (destaco “todos”) os demais veículos da imprensa buscavam desvendar as denúncias? Por que não investigar possíveis desvios de conduta da imprensa? Vai mal a Veja!;

– o que mais surpreende é o fato de que, em nenhum momento nas minhas declarações durante a última semana, falei especificamente sobre a revista, apontei envolvidos, ou mesmo emiti juízo de valor sobre o que é certo ou errado no comportamento da imprensa ou de qualquer envolvido no esquema. Ao contrário, apenas afirmei a necessidade de investigar tudo o que diz respeito às relações criminosas apontadas pelas Operações Monte Carlo e Vegas;

– não é a primeira vez que a revista Veja realiza matérias, aparentemente jornalísticas, mas com cunho opinativo, exagerando nos adjetivos a mim, sem sequer, como manda qualquer manual de jornalismo, ouvir as partes, o que não aconteceu em relação à minha pessoa (confesso que não entendo o porquê), demonstrando o emprego de métodos pouco jornalísticos, o que não colabora com a consolidação da democracia que tanto depende do uso responsável da liberdade de imprensa.

  1. Ainda sem comentários.
  1. 17/04/2012 às 10:18

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