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As grandes transformações se fazem com ideias, diz Marco Aurélio Garcia

Continuando o debate sobre a crise, na sexta-feira 27, foi a vez de o diretor geral do Le Monde Diplomatique, fundador e presidente honorário da Associação pela Tributação das Transações Financeiras para ajuda aos Cidadãos (Attac) e um dos fundadores do Fórum Social Mundial, Bernard Cassen, e o assessor de Assuntos Internacionais do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia, discutirem a crise do neoliberalismo a partir do ponto de vista europeu e latino-americano.

Para Cassen, a União Europeia é o modelo mais avançado de aplicação das regras neoliberais, que envolvem liberdade de circulação de capital, de bens, de serviços e de pessoas. Liberdades que, para ele, constituem o fundo da crise sistêmica que o mundo vive hoje. O livre comércio e a liberdade de circulação de capitais são as regras que permitiram o roubo dos créditos hipotecários. Falando especialmente da Europa, diz que os gastos seguiram iguais ao mesmo tempo em que as receitas baixaram, obrigando os governos europeus a recorrerem aos mercados financeiros a taxas proibitivas. “Como consequência veio uma enorme austeridade, corte nos serviços públicos e salários, que desembocaram numa recessão, daí a dívida aumenta, há novos planos de austeridade etc. etc.”

A adoção de uma moeda única para países tão diferentes como França, Alemanha, Espanha, Grécia, Itália foi criticada pelo jornalista e apontada como uma das origens da crise. A dívida que se acumulou em muitos deles traz desvalorização interna, com corte de salários e desemprego cada vez mais alto, segundo o jornal conservador Financial Times, citado por Cassen. “A participação dos 1% mais ricos passou de 8.4% a 18%. Os governos, sejam de esquerda ou direita, adotaram exatamente as mesmas medidas, aplicaram com enorme determinação os planos de austeridade.” O jornalista citou a Troika, a equipe responsável por negociar as condições dos resgastes financeiros na Europa composta por um representante do Banco Central Europeu, um do FMI e um da Comissão Europeia. “Na Europa agora são essas três instituições que definem a quem emprestar dinheiro e as medidas de austeridade. Os governos não decidem nada na Europa Ocidental, estão nas mãos dos sistemas financeiros representados por essa Troika.”

Bernard Cassen também aponta a contradição entre a emergência de movimentos sociais de jovens que desconfiam das instituições e mantêm distância da política – “muitos jovens não vão votar, porque não se veem representados pelos partidos” – e o crescimento assustador de uma extrema direita. “Um dos desafios dos partidos de esquerda é reconquistar os jovens, mostrar que há futuro. (A candidata à Presidência da França) Marine Le Pen tem entre 18% e 20% e é a principal ameaça agora. O risco é uma virada à extrema direita.

“A democracia está ameaçada”

A perspectiva da crise a partir da América Latina também entrou no debate através de Marco Aurélio Garcia. Na Europa, segundo ele, o estado de bem estar vem sendo destruído a partir de uma mudança da social-democracia pro neoliberalismo. Os reflexos na América latina começam pela transformação de um partido “que era social democrata não num partido DE direita, mas num partido DA direita”. Marco Aurélio diz que não temos como evitar que o que está acontecendo na Europa afete a América Latina, apesar das nossas salvaguardas. “A crise guarda certa analogia com o que vivemos aqui nos anos 80 e 90, e, ao invés de aprenderem com o que passamos aqui, eles estão cometendo os mesmos erros. O modelo argentino de resolução da crise, de uma crise aguda como a da Grécia, é a única saída para o que a Europa vive”, disse. E acrescentou que seus efeitos sociais são “terríveis”, com desemprego e redução de todas as garantias sociais. “Hoje os jovens, ao contrário de todas as gerações anteriores, acreditam que vão viver pior que seus pais.”
“Do ponto de vista político, nós estamos vivendo uma gravíssima ameaça à democracia.” Se em alguns países a mudança de governo aconteceu por eleição, em outros foi golpe de Estado.

Na América Latina, temos uma certa diversidade de caminhos seguidos. Emir Sader costuma separar a esquerda latino-americana em dois grupos; de um lado Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e, de outro, Venezuela, Equador, Bolívia. Mas Marco Aurélio aponta, ao contrário, para os caminhos comuns, que contrastam com os rumos que a União Europeia está tomando. “Optamos por um crescimento acelerado. Somenteisso pode dar conta da questão fundamental da nossa região e que em breve vai ser a da Europa também, que é a questão da desigualdade. Não só redução da pobreza, mas da desigualdade. Sem ela o próprio conceito de democracia fica comprometido. Não há democracia política sem democracia social. Nós temos conseguido combinar planos de redução com políticas de desenvolvimento macro-econômico.”

E sobra também uma merecida crítica aos meios de formação de opinião. “Há uma tendência muito grande, nesse momento, de classificar experiências como a do Brasil de populistas. O que eles não gostam é de ver o povo participando da política”, acusou. Argumenta que em países como Venezuela, Equador e Bolívia – e agora em curso no Peru –, além da “tentativa exitosa de ampliar o espaço politico”, foi empreendida também uma reconstitucionalização. Outro aspecto destacado foi a integração latino-americana, que foi levada adiante independentemente dos rumos que a União Europeia tomava. É uma integração diferente da que tínhamos antes, quando a América Latina enfrentava o lado mais feio do neoliberalismo. “Os mecanismos que tínhamos eram de livre comercio, balizados num período de hegemonia neoliberal. O Mercosul, que foi criado como um mecanismo muito importante de aproximar Brasil e Argentina depois se transformou em mecanismo comercial.”

“Queremos uma integração solidária”

A política externa não-imperialista levada a cabo pelo Brasil também entrou na conversa. O objetivo de construir um polo mais integrado, segundo o assessor para Assuntos Internacionais, não é fácil. “Tínhamos uma ideia de que uma aliança estritamente comercial seria muito boa para o Brasil, mas muito má para os outros países.” Desse jeito, a integração não seria equilibrada, mas assimétrica. Por isso, precisamos de uma integração política. Ao contrário da União Europeia, que não foi capaz de construir um instrumento de defesa e por isso “desliza quando se trata de temas de segurança coletiva”, criamos o conselho de defesa sul-americano. Marco Aurélio argumenta que a região não tem potenciais conflitos internos, e portanto não há motivo para desenvolver estratégias militares de confronto com os vizinhos, mas de enfrentar ameaças externas. “ O Brasil tem uma coisa muito clara: nós não queremos ser a Alemanha da América do sul, nós queremos uma integração solidária.”

Falta, porém, produção cultural. Ao contrário de outras transformações por que passaram o Brasil e que geraram discussões do ponto de vista das ideias, o Brasil de hoje se discute. Exemplos passam por Paulo Freire, Gilberto Freyre, grandes nomes da literatura. Nos anos 50, Celso Furtado, Sociologia de São Paulo, explosão do cinema, do teatro, Brasília como a grande expressão de um projeto arquitetônico e urbanístico. “Agora passamos por transformações muito mais importantes e não temos um debate, um florescimento cultural. As grandes transformações se fazem com mudanças políticas, econômicas, sociais, mas elas se fazem sobretudo com ideias.”

Movimentos têm que propor alternativas

A França de 1968 teve uma das maiores manifestações do século XX, mas a direita teve uma enorme lição parlamentar um mês e meio depois e o sistema não mudou. O argumento de Marco Aurélio Garcia serve para mostrar que “movimentos que se basearem só na indignação não têm futuro. Eu não acho q nós tenhamos nenhuma perspectiva revolucionária no futuro”. Ele é cauteloso mesmo com as “revoluções” no Oriente Médio, que não são um processo de democratização como o que se está divulgando. “Estamos vendo é uma grande revolução islâmica. Vai ser um mundo muito mais complexo do que o que temos até agora. Por isso o debate de ideias, precisamos pensar alternativa. O que me assusta na Marine Le Pen é q ela tem a maioria do voto operário na França. Redutos tradicionais do Partido Comunista e da esquerda deslizaram para a extrema direita.”

Respondendo a provocação do colega de mesa, Bernard Cassen, concorda que o jornal conservador Financial Times se tornou neokeynesiano, e conta que a presidenta Dilma o lê diariamente. “E ele já fala na possibilidade de a solução argentina ser a solução da Europa. Ela tem uma aproximação maior com a Europa do q o Brasil, porque aqui o neoliberalismo mantém os pobres e os excluídos lá; na Europa (como na Argentina) há um movimento de ‘declassimento’.”

Com relação a nossa imprensa, Marco Aurélio é bastante crítico. “Há uma proliferação de subintelectuais (nos jornais). A tiragem dos jornais está diminuindo. A Espanha, a França têm jornais diferenciados, aqui todos dizem a mesma coisa. E aqui eu sou bem neoliberal e acho que quem vai resolver isso é o mercado, o que não significa que a regulamentação não tenha que ser tratada na esfera pública.”

Categorias:Comunicação
  1. 30/01/2012 às 21:11

    Felizmente existe um sistema a ser implantado no lugar do capitalismo: PROUT.

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