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Número de moradores de rua cresce a olhos vistos em Londres

Faz quatro meses e nove dias que eu estou em Londres. Pouco tempo, muito tempo? Depende. Tempo suficiente para perceber algumas mudanças significativas na vida da cidade. Fico com uma delas, a principal, na minha opinião. Nessas quase 18 semanas, cresceu a olhos vistos a população de moradores de rua da capital inglesa. Quando me dei conta da mudança, alguns dias atrás, fiquei na dúvida se se tratava de uma constatação de verdade ou se eu simplesmente não tinha reparado antes na quantidade de gente pedindo esmola e se encolhendo embaixo de cobertores mal ajambrados para tentar espantar o frio, que agora começa a chegar.

Procurei estatísticas, dados que me dessem a comprovação (ou não) dessa minha impressão. Não os encontrei (se alguém souber de alguma informação mais precisa, seria muito bem vinda), mas ainda assim posso dizer com razoável segurança que não se trata só de uma falta de atenção de uma brasileira recém chegada, lá por julho e agosto. Tenho pelo menos duas razões para acreditar nisso. Ambas um tanto (mas não totalmente) subjetivas.

A primeira é que sim, eu prestei atenção quando cheguei. Sempre observo esse tipo de coisa em viagens, e aqui, com mais tempo e olhar de quem passa a morar na cidade, não seria diferente. E lembro bem de reparar que a cidade era consideravelmente suja, que toda noite tinha gente caindo de bêbada pelos cantos do bairro boêmio do Soho (caindo mesmo, deitado no chão) e de que, apesar dos muitos problemas e de ser um dos países mais desiguais do assim chamado mundo desenvolvido, não se via quase ninguém pedindo dinheiro ou dormindo pelos cantos. Agora a cena é recorrente, em uma proporção enorme. O avanço, a meu ver, foi extremamente rápido.

O segundo motivo a me fazer crer que de fato a população de sem-teto aumentou foi a conversa com algumas pessoas daqui e a constatação óbvia de um período de crise e recessão combinadas com um política conservadora. Um inglês em particular foi bastante rápido na resposta, dizendo que eu provavelmente tinha razão na minha observação, porque isso é o que geralmente acontece quando o Partido Conservador está no poder. O olhar para o social diminui e a desigualdade aumenta. É quando mais gente perde o emprego e, lastimavelmente, mais gente perde sua casa. E aqui se nota muito a humilhação que essas pessoas sentem. A vergonha de estar pedindo, de não ter como manter uma casa. A vergonha é maior que o frio e a fome.

O índice de desemprego, esse eu tenho certeza, está aumentando, principalmente entre os jovens. A taxa de desemprego no Reino Unido, de 8,3%, é a mais alta desde 1996, e o número total de desempregados não era tão grande desde 1994. São 2,62 milhões fora do mercado de trabalho. A relação entre as duas coisas é inegável.

A Europa está em crise, não é novidade. Diz a The Economist dessa semana que 2012 vai ser um ano de grande recessão no Velho Mundo. Nada que até o mundo mineral não soubesse. O mais difícil é quando os números se transformam em vidas reais e em sofrimento diário. Quando deixam de ser números e se transformam em pessoas. Principalmente porque as que mais sofrem são aquelas que menos contribuíram para que as coisas chegassem a esse ponto, as mais vulneráveis.

Como explicar para alguém que se tornou um morador de rua que ele se tornou um morador de rua porque a Europa precisa salvar os bancos e o euro?

A foto é do jornal The Guardian.

Categorias:Comunicação
  1. 29/11/2011 às 10:08

    Excelente, Cris. Parabéns!

  2. Helena Pahl
    29/11/2011 às 12:04

    Sem dúvida Chis, é uma realidade que nao há como ser escondida. Moro na Alemanha onde ainda nao encontrei morador de rua, claro nao sou reporter, mas no domingo em uma feira de natal (Weihnachtsmarkt) na cidade de Milltemberg(Bavaria) encontrei um pedinte, coisa rara em pequenas cidades. Com o frio, torna-se ainda mais deprimente.

  3. Cleberson Silva
    30/11/2011 às 23:35

    Vai demorar algum tempo até os conservadores consertarem o estrago feito pelos trabalhistas na Inglaterra. Tem sido recorrente isso na Europa, a esquerda concede benefícios sociais em demasia e quando a conta chega e deixa o país insolvente, sobra para a direita dar um jeito na situação, limitando a gastança e botando as finanças do país em ordem.

    • 02/12/2011 às 13:43

      Tem dias em que eu só não concordo, mas tem outros em que eu me divirto com teus comentários, Cleberson.

      • Guilherme
        11/02/2012 às 15:43

        Não concorda porque? Essa crise é fruto da irresponsbilidade fiscal da esquerda! Antes da crise muitos diziam que a europa era um exemplo de social-democracia, e agora que está FALIDA dizem que a culpa é da direita. A austeridade não seria necessária se as dívidas não estivessem explodindo, concorda?

        Explique seus argumentos!

  4. Guilherme
    11/02/2012 às 15:40

    A irresponsabilidade fiscal dos governos socialistas europeus é a verdadeira causa dessa crise. GRÉCIA, PORTUGAL, ESPANHA são exemplos de paises arruinados pela esquerda e seus gastos absurdos. Por que voces acham que a direita está se fortalecendo tanto na europa? Porque os europeus já perceberam o ESTRAGO feito pelos governos socialistas, que concedem beneficios e gastam aos montes para ganhar votos. Quando o bicho pega, sobra para os conservadores (demonizados por tomarem medidas de austeridade que não seriam necessárias sem as irresponsabilidades de governos anteriores.

    É triste ver a europa, berço da civilização ocidental, da democracia, e de culturas tão ricas nessa situação.

  1. 30/11/2011 às 14:09
  2. 06/12/2011 às 9:12
  3. 09/12/2014 às 6:39

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