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O trabalhador ligado 24 horas

Para produzir mais em menos tempo, trabalhadores são obrigados a desenvolver diversas atividades diferentes, com um esforço maior do ponto de vista intelectual e emocional e um envolvimento contínuo com suas tarefas, inclusive fora de seu local de trabalho.  

Por Glauco Faria e Thalita Pires

“Tem serviços que dá pra dar uma adiantada, então, nesse espaço de tempo você corre, vai no banheiro, inclusive o nosso fica mais próximo ao setor, e faz ali o xixi rapidinho, porque se for pra fazer outra coisa não dá, e fica assim nesse sufoco. É tudo muito corrido, e muito estressante, por isso mesmo que as coisas básicas têm que fazer naquela correria, e a gente se adapta tanto a essa vida que não sabe fazer diferente, não sabe fazer com tranquilidade, só sabe fazer correndo.”

O depoimento acima é de uma operária, Luana, e faz parte da tese de Ana Claudia Moreira Cardoso, Tempos de trabalho, tempos de não trabalho: vivências cotidianas de trabalhadores, em que analisa a unidade de produção da Volkswagen do Brasil na região do ABC, em São Paulo. A análise se concentra no período compreendido entre 1995 e 2005. Na pesquisa, em que são estudadas as vivências nas diferentes linhas de produção da empresa, Luana e outros operários relatam como se modificou o cenário do trabalho na empresa após duas reduções na jornada dos funcionários, que passou de 44 para 42 horas, em 1985, e de 42 para 40 horas, em 1995. As entrevistas feitas pela socióloga mostram que poucos perceberam uma diferença real, já que, em contraposição à redução de horas efetivas, houve uma diminuição das pausas durante a jornada e um aumento no ritmo do trabalho.

Esse fenômeno constatado na indústria automobilística em 2005 não é isolado e, hoje, pode ser visto em praticamente todos os setores da economia brasileira e mundial. Trata-se do que muitos especialistas vêm classificando como “intensificação do trabalho”. Segundo Sadi Dal Rosso, no livro Mais Trabalho! – A intensificação do labor na sociedade contemporânea (Boitempo Editorial), tal expressão pode ser traduzida por “produzir mais em menos tempo”. Ainda não existem medidas exatas para se medir tal intensidade, mas, em linhas gerais, trata-se da construção de um novo perfil do trabalhador, em que se exige não apenas que ele produza mais em menos tempo, mas que desenvolva atividades diferentes e com um esforço maior do ponto de vista intelectual e emocional e um envolvimento contínuo com suas tarefas, inclusive fora de seu local de trabalho.

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