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Estudo mostra que no Brasil os ricos reclamam de boca cheia

Quem mais reclama dos impostos cobrados no Brasil paga pouco, na comparação com outros países. São, aliás, os mesmos que gostam de citar exemplos de nações de “primeiro mundo” para reclamar menos preservação ambiental, mais liberdade aos mercados etc. São representados pela imprensa tradicional e conservadora, que reproduz e realimenta o discurso único, sempre igual, sempre tão pouco plural. São também chamados de elite.

“O estudo [feito pela rede UHY] indicou que um profissional no Brasil que recebe até US$ 25 mil por ano – cerca de R$ 3.300 por mês – leva, após o pagamento de Imposto de Renda e Previdência, 84% do seu salário para casa. Já os profissionais que recebem US$ 200 mil por ano – cerca de R$ 26.600 por mês – recebem no final cerca de 74% de seu pagamento”, informa a Rede Brasil Atual, e acrescenta que essa diferença de 10 pontos percentuais é uma das menores do mundo, a ponto de a própria rede UHY considerar nossa carga tributária “esdrúxula”.

A Holanda é citada como exemplo positivo de incentivo a uma maior igualdade. No país europeu, a diferença entre o percentual de salário que sobra descontados os tributos dos profissionais de salário menos alto, dentro da faixa dos US$ 25 mil anuais, e dos mais ricos, é bem maior: de 84,3% para 45%.

O Brasil “ganha” de Dubai, Rússia, Estônia, Egito, Índia e México, entre os países analisados.

Enquanto isso, qualquer iniciativa para mudar a arrecadação tributária, aumentando a conta dos maiores salários, é criticada como uma espoliação ilegítima por parte do Estado. Vale lembrar que a arrecadação de impostos serve para garantir os serviços oferecidos pelo Estado, como saúde, educação, segurança, transporte etc. Ou seja, uma maior taxação sobre os salários mais altos poderia significar não apenas uma menor desigualdade numérica simples, mas reverter em mais qualidade de vida para os mais pobres (aqueles que sequer aparecem no estudo).

Gráfico da BBC Brasil

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  1. Cleberson Silva
    25/06/2011 às 5:21

    Após receber seu salário no final do mês, já descontado o IR e a contribuição previdenciária, o brasileiro o utiliza para comprar produtos sobre os quais incidem tributos que atingem perto de metade do valor do bem, entre ICMS, PIS, COFINS e IPI, além daqueles que incidem sobre a folha de pagamento da empresa vendedora (previdência, FGTS, salário-educação, incra, sistema S…) e sobre seu lucro (IRPJ e CSLL), então, na prática, o valor do seu salário, líquido de impostos sobre a renda, acaba podendo comprar pouco mais da metade de seu valor nominal, pois o resto fica para o governo, em suas várias instâncias.

    Mas não para por aí não, pois se você conseguir a façanha de, apesar de perder tanto de seus rendimentos sustentando o governo, comprar um automóvel, imóvel ou terreno, ainda que o dinheiro utilizado em sua compra já tenha sido suficientemente taxado, terá que, anualmente, recolher, IPVA, IPTU ou ITR, respectivamente.

    A abordagem incompleta desse artigo pouco acrescenta ao tema da tributação excessiva que o brasileiro (rico, remediado ou pobre) sofre. Pelo contrário, passa a imagem de que a carga tributária é suave e que ainda há espaço para aumentos, ainda que direcionados à parcela mais rica da sociedade.

    Logo se vê que quem tem esse pensamento nunca frequentou aulas de economia, pois não compreendem que quanto maior for a carga tributária da sociedade, menor será o crescimento da economia. Por exemplo, os países europeus possuem uma carga tributária altíssima, beirando os 50% do PIB, e com isso seu PIB cresce pouco anualmente, pois a economia está sufocada em tantos impostos. Mas isso pouco importa para eles, afinal de contas, são países riquíssimos, podem se dar ao luxo de crescer pouco.

    Contudo, a mesma situação não se aplica ao Brasil, cujo PIB per capita é ainda apenas uma sombra do europeu. Nós precisamos de algumas décadas com crescimento econômico vigoroso para atingir um padrão de vida compatível com o que os europeus possuem hoje. Basta ver o exemplo chinês, cujo PIB cresce a taxas superiores a 10% ao ano há muito tempo e continua um país com PIB per capita pífio.

    Insistimos em manter uma carga tributária europeia (quase 40% ao ano), mesmo precisando crescer em ritmo chinês. O resultado é evidente, já que crescimento acima de 5% ao ano aqui no Brasil virou exceção, e quando acontece é motivo de festa.

    Se quisermos que o país prospere de fato, o primeiro passo é reduzir a carga tributária, principalmente aquela que incide sobre o consumo. Infelizmente, não imagino que isso vá acontecer tão cedo, já que sempre que se cogita uma reforma tributária, nunca se pensa em reduzir a receita dos governos. O máximo que se aceita é fazer uma leve redistribuição entre os entes federativos e uma simplificação no número de impostos.

    Por exemplo, o novo governador do RS está tentando aumentar a receita do estado, mediante aumento da alíquota para quem ganha acima do teto do INSS. OK, é uma medida que atinge apenas quem ganha razoavelmente bem (ainda que ninguém seja rico por ganhar 4 ou 5 mil reais por mês), mas por que o governador não pensou em enxugar a despesa, em vez de drenar ainda mais recursos do gaúcho?

    Outro bom exemplo é a recente prorrogação da RGR pelo governo federal, via medida provisória, onerando o contribuinte em alguns bilhões por ano.

    Torço para estar errado e que, apesar da carga tributária extorsiva, o Brasil consiga tornar-se um país rico. Mas creio que para isso dependeremos muito da sorte. Não demos a sorte de ter o pré-sal? Pois então…

    • 25/06/2011 às 17:25

      Cleberson, sobre a tributação sobre produtos, ela só reforça a desigualdade, porque atinge mais os pobres.

      Não sei se leste o post inteiro, mas a crítica é pela forma desigual com que os impostos são cobrados no Brasil, onerando quem ganha menos. Portanto, tua interpretação de que está escrito que “a carga tributária é suave” é tua, não está no texto. A defesa é por uma reforma tributária que desonere quem ganha menos.

      Com relação ao exemplo do estado, de repente o governador poderia enxugar as despesas diminuindo o número de escolas e o salário dos professores, mantendo as de lata, arrochando o funcionalismo e diminuindo a oferta de serviços ao cidadão. De fato, interessante a iniciativa. Para quem pode pagar pelos serviços! Mais uma vez, sairiam perdendo os mais pobres.

      • Cleberson Silva
        25/06/2011 às 22:02

        “Arrochar” o funcionalismo é uma opção. Entre prejudicar a sociedade gaúcha como um todo ou apenas uma parcela dela, é evidente que é preferível prejudicar apenas uma parcela. De certa forma, o governador já fez essa opção, já que em seu pacote está prevista a elevação da alíquota da contribuição previdenciária dos servidores estaduais que ganham bem. Porém esse aumento da receita não virá acompanhado de uma redução do ICMS, ou outro tributo cobrado pelo estado, então só serve mesmo para encorpar o caixa do estado.

        Mas convenhamos que governar assim é fácil. Se não tem dinheiro, é só aumentar os impostos que o dinheiro jorra. Queria conseguir fazer assim no orçamento aqui de casa.

        Quanto aos “serviços ao cidadão”, a estrutura estatal é demasiadamente inchada. Sempre tem espaço pra cortar. Eliminar CCs desnecessários, demitir servidores em contrato emergencial e os não estáveis. Terceirizar serviços de apoio. Centralizar serviços na mesma estrutura física, para economizar nos cargos de direção, na segurança e manutenção. Fazer parcerias público-privadas quando for possível. Soluções existem aos montes. E dá pra fazer isso sem diminuir a oferta e a qualidade dos serviços prestados pelo estado. Mas precisa colocar gestores competentes no comando, em vez de lotear os cargos para a base aliada né.

        • Cleberson Silva
          25/06/2011 às 22:05

          Complementando: sou muito favorável à redução (ou mesmo eliminação) dos impostos sobre o consumo, em troca de uma elevação substancial do IR para aqueles que são realmente ricos.

  1. 25/06/2011 às 12:03

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