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Desilusão na votação do código

Inadmissível e inacreditável o que aconteceu ontem na Câmara dos Deputados.

Fiquei realmente triste com o resultado do jogo interesseiro que orienta nossas relações políticas.

Em tempos em que o mundo inteiro comenta – muitos de forma hipócrita, é verdade – a importância do meio ambiente e de mantermos uma relação saudável com a natureza, o Brasil recua na já desrespeitada legislação sobre o tema.

Quando as tragédias derrubam morros e matam pessoas, todos defendem o planejamento e a relação harmoniosa e respeitosa com o meio ambiente – e sempre falam assim, como se não fizéssemos parte dele. Mas na hora de votar, infelizmente, são os interesses específicos que ditam a regra, a forma de agir.

Podem ser interesses econômicos mais mesquinhos, como os financiamentos de campanha, ou as negociações políticas mais amplas, com vistas a ceder por um lado e ganhar por outro. A tal governabilidade.

No caso específico da votação do código florestal, ontem à noite, aprovado por ampla maioria, eu ainda tinha expectativa de que pudesse ser diferente. Eu via, algum tempo antes, deputados argumentando, dominando o tema, explicando por que era importante manter as matas ciliares, em função do assoreamento que acaba com os rios, dos venenos das plantações que correm pra água, os corredores ecológicos. Eu vi deputados que entendiam o tema e defendiam o meio ambiente e os pequenos agricultores votarem a favor do novo código florestal que só beneficia o agronegócio. Vi o jogo político se sobrepor a qualquer ideologia.

Não vi o governo perder. Vi o governo negociar mal e não conseguir manter a parte que ainda pretendia preservar. A emenda 164, que a presidenta não queria aprovar, passou na desobediência da base aliada. Mas o grave é o governo ceder no projeto como um todo, barganhando em troca de outras votações, outras questões do governo.

Isso já seria grave por si só, já que o código florestal envolve mudanças irreversíveis, que afetam a nossa geração e as futuras. Insisto, que nunca mais se recuperam.

Mas fica ainda pior porque o governo perdeu no pouco que defendeu. Entregou as calças para ficar com as cuecas e terminou pelado.

E peladas vão acabar as nossas matas.

Nunca pretendi ser simplista e acreditar que temos que preservar tudo e azar do resto. Sei que temos um problema alimentar, que vai se agravar nos próximos anos, e que temos pequenos agricultores que lutam e sofrem diariamente para se manter produzindo e que para eles cada pedaço de terra é precioso. Por isso que o principal de toda a discussão era diferenciar pequenos de grandes. Incentivaríamos os nossos agricultores familiares, que ganhariam mais condições de produção e teriam flexibilizadas as exigências ambientais, de acordo com as necessidades. Ao mesmo tempo, preservaríamos na área dos grandes, garantindo a conservação do meio ambiente. De forma simplificada era isso.

Eu faria ainda um paralelo com a cobrança de impostos. Aquilo que a gente defende há muito tempo, de cobrar mais de quem ganha mais. Neste caso, seria exigir mais preservação de quem tem mais terra. Uma questão simples de justiça.

Mas aí o deputado Aldo Rebelo incluiu lá um artigo que define agricultura familiar. Mas na hora de falar dos detalhes, na hora de definir reserva legal, recomposição, APP, mata ciliar etc., ele volta a tratar das terras de até quatro módulos, que favorecem também os grandes produtores. No fim, ninguém preserva nada e sai todo o mundo ileso. Legalmente ileso, mas as consequências da natureza ninguém sabe ao certo como virão.

Não posso deixar de mencionar minha decepção com a votação do deputado Elvino Bohn Gass (PT-RS), que criticava enfaticamente o relatório de Aldo Rebelo e tem como base de apoio a agricultura familiar e parte do movimento ambientalista e votou a favor.

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  1. 25/05/2011 às 18:14

    Eu vi que nem abaixo assinado sensibilizou a votação.

    Estamos longe de uma democracia real, por enquanto somos obrigados a nos contentar com a ineficiente democracia representativa.

    []’s
    Cacilhας, La Batalema

  2. Demilson Fortes
    25/05/2011 às 19:52

    Escreveste foi um desabafo Cris…

  3. 26/05/2011 às 10:29

    O mais grave foi a anistia aos desmatadores. Um absurdo.

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