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Argumentar é diferente de impor opinião

Sempre me incomodei muito com gente que não sabe discordar. Mas não sabia bem se devia escrever a respeito, e principalmente como fazê-lo. Sabe como é, o pessoal interpreta, pode achar que é recado pra alguém ou me achar um tanto arrogante. Talvez até seja – desculpa, gente, juro que tento mudar meus defeitos.

Na dúvida, em vez de não escrever, de deixar de lado um tema meio espinhoso, decidi simplesmente sentar e escrever. Bem assim, como me vier à cabeça. Não que isso seja exatamente uma novidade, mas enfim. Tá, chega de floreios e vamos ao que interessa.

O fato é que o Sakamoto escreveu antes de mim, e disse tudo bem parecido com o que eu penso. Mas, como o assunto pode ampliar, escrevo um pouco mais, sigo para outros caminhos dentro do mesmo tema.

Pro Sakamoto, pensar diferente não impede que se goste do convívio de alguém. Ok, acho que eu dificilmente vou casar com um cara de direita, mas esse convívio é mais extremo, mais intenso. Mas ir pra uma mesa de bar, maravilha. Posso discordar peremptoriamente. Mas não posso, de forma alguma, ultrapassar o limite do bom senso e partir para a agressão. E chegamos aonde eu queria, finalmente.

Pensar diferente não me dá o direito de achar que a razão está comigo. É evidente que eu acho que estou certa, afinal, é minha opinião (dã). Mas eu tenho sempre que considerar que posso, sim estar errada. Ou seja, tentar impor a minha verdade não só é desagradável como é muito feio.

E aí é fundamental diferenciar “impor a verdade” de “argumentar”. Posso construir uma argumentação lógica que mostre ao outro cidadão por que eu acredito que o que eu estou dizendo é mais correto. Ele pode concordar comigo ou não. Se ele não concordar, pode argumentar comigo ou não ser capaz de fazê-lo ou ainda nem querer fazê-lo. Mas, se ele optar pela argumentação, aí eu tenho que ouvir. Mostrar que tenho, sim, bom senso, e levar em consideração o que ele disser. Quem sabe até não mudo um pouco ou muito de opinião?

Ouvir o outro fulano me fornece inclusive subsídios para ratificar a minha defesa inicial, em alguns casos. Mostro que ouvi, considerei, mas aquilo não necessariamente faz sentido. Meu poder de convencimento aumenta.

Mas não é só por isso que devo ouvir. É principalmente porque é legal, sabe. Porque a gente constroi as ideias assim. A construção coletiva, com um pedacinho de cada um, costuma ser mais rica e mais completa. Porque, como disse o Sakamoto, não existem verdades absolutas. E, digo mais, não existem nem oposições absolutas. Quer dizer, a coisa não precisa ser isso ou aquilo, de forma rígida. Ela pode ser um pouco disso, um pouco daquilo, um tanto mais daquele outro, ou nada disso. E falando e ouvindo a gente aprende e cresce.

Mas aí tem que saber argumentar. Dosar a pílula. Quando a gente se exalta, perde a razão. Xingar – mesmo que às vezes o sujeito mereça – não é bom. Faz mal, é deselegante, mostra uma extrema falta de respeito e, ainda por cima, não é útil. De um modo geral, todo o argumento lógico se perde por conta de um escorregão assim.

Enfim, todo esse post meio inútil e sem sentido é pra dizer que a sociedade é plural. Que o conhecimento é múltiplo e que a construção é coletiva. Que a gente ganha muito mais trocando do que impondo. E pra dizer que é por tudo isso que eu sou de esquerda. Parece contradição, né, estou aqui defendendo que temos que ouvir todos os lados, que minha razão não é bem a razão e tal e coisa, mas o simples fato de um cidadão considerar que todos têm contribuições a dar faz dele um defensor da igualdade. Faz dele um cidadão de esquerda.

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  1. 08/02/2011 às 22:22

    Em geral, eu sempre comento em um blog quando o assunto é de meu interesse ou simplesmente mexe comigo.

    Cris, este definitivamente não é um post “meio inútil”. É uma declaração de como se pode ser um cidadão de esquerda. Não que os da direita não possam beber dessa água, mas respeitar os direitos dos outros e buscar igualdade não é muito lá o forte de todos eles. Além do mais, é um post interessante, pois deixa claro que é na diversidade que se encontra a vida.

    Eu estou pra imprimir e fazer umas 3 mil cópias para distribuir por aí!

    Valeu, garota!

  2. Nélio Schneider
    09/02/2011 às 9:12

    Querida Cristina. Definitivamente a reflexão sobre nossas posturas faz mais falta na atualidade do que se pensa. Argumentar respeitando o interlocutor é uma arte a ser aprendida e aperfeiçoada no decurso de toda a vida. É algo difícil, pois pressupõe preparo e solidez, ou seja, conhecimento de causa. Sempre foi mais fácil mandar o outro à pqp ou até partir para as vias de fato (isso quando nos julgamos os mais fortes). Mas é para isso que existimos como cidadãos de esquerda, para aceitar “pequenos” desafios, como buscar um mundo melhor e achar que é possível, estabelecer relações baseadas no respeito e na tolerância, etc. etc.

  3. 09/02/2011 às 14:32

    Oi Cristina, resolvi argumentar, hehehe. Concordo em tudo que vc disse, mas nem por isso sou de esquerda. Tb acredito que todos podem contribuir em uma formação plural da sociedade, independente de gênero, classe social, cor, escolaridade ou opção sexual. Mas não concordo com o radicalismo da esquerda, por isso sou de direita.
    Deu pra entender? :p

    • 09/02/2011 às 15:56

      «acredito que todos podem contribuir em uma formação plural da sociedade, independente de gênero, classe social, cor, escolaridade ou opção sexual» isso, aliado ao respeito ao ser humano enquanto membro da sociedade independente de seu poder financeiro é ser «de esquerda».

      Acho que você está confundindo Esquerda com radicalismo. Há esquerdistas radicalistas assim como direitistas radicalistas.

      Direita tem mais a ver com saúde financeira do que com contirbuição social.

      []’s
      Cacilhας, La Batalema

    • 09/02/2011 às 21:03

      Lica, como disse o Cacilhας, a tua frase “acredito que todos podem contribuir em uma formação plural da sociedade, independente de gênero, classe social, cor, escolaridade ou opção sexual” aliada ao respeito ao ser humano independente de seu poder financeiro, é… ESQUERDA! ;)

      E como ele bem disse, tu confudes “esquerda” com “radicalismo”, como se toda a esquerda fosse “radical”. Aliás, a maioria das pessoas costuma usar o termo “radicalismo” como se tivesse o mesmo sentido de “extremismo”, mas elas não são sinônimos.

      A palavra “extremismo” já diz tudo, e existem extremismos tanto de esquerda como de direita: embora ideologicamente diferentes, ambos têm em comum a intransigência. Já “radicalismo” vem de “radical”, que por sua vez tem como origem “raiz”. Logo, “radical” é quem ataca o problema por sua raiz, por sua origem: num exemplo, se eu tenho dor de cabeça muito seguido, posso tomar remédio toda vez que a cabeça doi, ou “radicalizar”, ou seja, procurar um médico e tentar descobrir a causa do problema (para, se possível, eliminá-lo).

      • 09/02/2011 às 21:39

        Bem, eu ia responder a mesma coisa que tu, Rodrigo.

        Claro que podemos discordar (especialmente nesse post =P). Mas o detalhe que mais chama a atenção, Lica, é justificares que sejas de direita porque não concordas com “o radicalismo da esquerda”. Como se só essas duas possibilidades fossem possíveis. Teu comentário dá a impressão, desculpa se eu estiver errada, de que ou se é um fanático de esquerda ou um ponderado de direita. E com isso não posso concordar.

        Mas o Rodrigo fala melhor do que eu…

  4. 09/02/2011 às 15:52

    É Cris, admiro muito seu autocontrole.

    Pra mim é muito difícil continuar argumentando em alguns casos. Sou muito passional.

    Por exemplo, certa vez um ateu fanático quis discutir comigo a infalibilidade do Ateísmo. Nada contra o Ateísmo, acho uma visão válida como muitas outras, mas, como você mesma citou o Sakamoto, não há verdades absolutas e fanatismo é sempre chato, não importa em defesa do quê.

    Mas o sujeito simplesmente ignorava meus argumentos e repetia a mesma ladainha, demonstrando não ter prestado a menor atenção ao que eu dizia.

    Dessa vez eu me aborreci e caí fora.

    Outra vez um sujeito disse no Twitter que eu estava errado quanto a um posicionamento político (defendo o Socialismo). Comecei a argumentar com ele e a pedir para ele apresentar contra-argumentos, mas ele simplesmente continuava dizendo que eu estava errado sem acrescentar nada a essa afirmação.

    Então eu reclamei que ele não havia apresentado um argumento sequer, que eu queria saber por que eu estaria errado e então ele respondeu que ele havia apresentado diversos argumentos – o que consistia em repetir sistematicamente que eu estava errado –, mas eu não fui capaz de perceber. Aí eu perdi a cabeça e xinguei mesmo.

    Por último, certa vez em uma conversa de bar, um colega meu – que se diz petista roxo – me disse que era a favor do regime militar. Eu perguntei por quê e ele me respondeu que era a favor porque no regime militar, independente de quem tenha se ferrado, o pai dele vivia muito bem e ganhou muito dinheiro. Ele ainda ensaiou alguma defesa do machismo.

    Lamento, mas minha raiva foi tanta que quase eu pulei na garganta dele. Como assim «independente de quem tenha se ferrado, meu pai se deu bem»?! Que droga de argumento é esse?!

    Assim, sou muito passional e invejo seu autocontrole ao argumentar.

    []’s
    Cacilhας, La Batalema

    • 09/02/2011 às 21:51

      hehehe

      Não sou sempre ponderada como parece pelo texto. Na verdade, acho que esse é um ideal, acho que deveríamos ser assim, mas somos humanos, somos falhos, temos vontades, paixões…

      Mas, no primeiro caso que citaste, foi o cara que não quis ouvir. Aí não adianta, né. Vale argumentar se o outro ouve, se isso faz alguma diferença.

      No segundo, tá, o ideal seria fazê-lo entender os prejuízos. Mas acho que eu teria feito o mesmo, já que seu “argumento” mostrava que ele não ouviria qualquer defesa de uma sociedade mais justa. Fica difícil discutir com quem não consegue pensar além de si. Geralmente, nesses casos, o raciocínio também é limitado, e não se terá êxito. Valeria levar adiante com quem, mesmo defendendo o regime, tivesse disposição de contra-argumentar, discutir pontos de vista, com base em uma lógica social.

      Abraço

      • 09/02/2011 às 22:00

        Cris,

        Uma coisa que amo de paixão é uma boa discussão (no bom sentido, argumenta-se daqui, contra-argumenta-se de lá). Sou osso duro, mas não me importo em dar o braço a torcer quando entendo que estou errado.

        Porém tem gente que tem uma ideia pré-formada e parece que só quer estar certo, não se importa em ouvir. Quando ouve, não compreende, apenas escuta o mínimo para poder *trollar*.

        Você não faz ideia do quanto isso me tira do sério. =(

        No mais, tenho acompanhado seu blog e seu twitter há algum tempo, vejo que você é bem ponderada e paciente nas argumentações. Minha inveja (no bom sentido) é justificada.

        []’s
        Cacilhας, La Batalema

  5. WAA
    09/02/2011 às 16:54

    Concordo em gênero, número e “degrau”. É isso aí!

  6. Luiz Monteiro de Barros
    10/02/2011 às 7:32

    A polaridade, se extremada, nos limites sabemos, sentimos e já vivenciamos não ser saudavel. Direita ou esquerda entretanto ajuda a argumentar.Simplifico que o ideal é a “ideologia do E/OU”.E do ideal aplicar. Esvrever sobre isso ajuda a nos tornar mais ponderados. Seremos o que escrevemos. Somosandando!!
    Da leitura “A aguia e a galinha” do Leonardo Boff enfatico está que somos galinha e as menos vezes aguia. Porem sempre E galinha e aguia e não OU. Avançando, se evoluimos do extremo polar, do unilateral para o bilateral ainda mais quando adotamos o 3. Por exemplo, liberdade, igualdade e fraternidade. Ainda mais, o quatro e mais ainda ponderados seremos o sete. Sete notas musicais, sete dias da semana, sete cores do arcoiris.
    Tá bom! Luiz precisa por em pratica essa teoria. Pratica e teoria!!! Aos poucos chegaremos lá

  1. 08/02/2011 às 20:03
  2. 11/02/2011 às 10:20
  3. 14/02/2012 às 22:01
  4. 19/05/2012 às 1:19

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