Início > Jornalismo, Sociedade > O bom-mocismo de Veja

O bom-mocismo de Veja

Uma revolução pode mudar a cara do mundo islâmico. O Norte da África convulsiona-se diante de suas ditaduras e, mesmo diante da dificuldade de enfrentar governos aliados dos Estados Unidos, o povo vai às ruas e caem os ditadores da Tunísia e do Egito.

Na capa da revista de maior vendagem no Brasil, sorriem abraçados Angélica e Luciano Huck, a família feliz. Feliz e alheia a tudo o que acontece no mundo. E a revista retrata e reforça o mundinho pequeno e tacanho de quem vive independente dos outros, porque no seu mundo de luxo e riqueza só entram alguns.

Então, vejamos, a geopolítica mundial está em jogo, e duas pessoas que não contribuem de forma alguma para melhorar a sociedade – aliás, sequer para piorá-la, simplesmente não contribuem – estão na capa da Veja.

Revolução cultural

Foram precisas décadas para que a cabeça fechada e quadrada de grande parte da sociedade se abrisse um tanto para o diferente. Para que o diferente não fosse marginal, para que aqueles que não se enquadram no perfil certinho do casal perfeito – geralmente perfeito apenas pra fora – pudessem ser respeitados dentro de suas características próprias.

Resumindo, foram muitos anos – séculos, talvez – para que o perfil ostentado pela Veja nesta semana como o ideal não fosse o único possível. Para que o casal perfeito fosse desmistificado. Para mostrar que o bom-mocismo exagerado geralmente é de uma enganação tremenda. Para quebrar a tradição conservadora de quando quem se tinha que ir à Igreja todos os domingos e sexo era só papai-e-mamãe (quando feito entre o papai e a mamãe, porque o papai fazia de jeitos diferentes com outras moças por aí), em uma hipocrisia danada.

Mas uma parcela da sociedade, aqueles que têm dinheiro e especialmente os novos-ricos – não a nova classe média, que é bem diferente -, ainda tem no casamento – na tradição, família e propriedade – seu ideal de vida. E, olha a coincidência, essa parcela é justamente os que consomem a Veja. Então, contrariando o princípio de jornalismo como um serviço público, o que a revista faz é se desdobrar para agradar os seus leitores – mesmo que a maioria deles não tenha essa utópica família feliz.

A Veja tenta a todo custo fortalecer o conservadorismo do brasileiro. Sem esquecer que dentro desse conservadorismo moram aqueles preconceitos exacerbados pela campanha Serra, contra todos aqueles que a elite cansa de classificar como de segunda classe, por sua cor, seu gênero, sua localização geográfica, sua orientação sexual ou o que for.

Para isso, negligencia o jornalismo. Qualquer manual da profissão mostraria claramente que a capa da semana é a revolta no Egito, sem sombra de dúvidas.

Consequência política

Mas, como a revista não dá ponto sem nó, a valorização desse casal vai além. É sabido pela comunidade do Twitter e de outras redes sociais que Luciano Huck defendeu a candidatura tucana à Presidência da República. Inflá-lo confere credibilidade a uma opinião que em qualquer sociedade minimamente respeitável não seria sequer ouvida. Afinal, o que um apresentador de TV sem conteúdo pode fornecer de útil em um debate eleitoral?

Mas assim, mostrando Huck e Angélica como seres humanos quase perfeitos, tudo muda. Sua credibilidade aumenta e se criam as condições para uma futura aceitação de suas opiniões.

Relevância

Fora que, por favor, é não ter o que falar…

————

Chega a dar uma tristeza de ver no que se transformou a revista que outrora, quando nas mãos de Mino Carta, enfrentou a nossa ditadura.

Advertisements
  1. José Américo de Carvalho Alcântara
    29/01/2011 às 21:10

    O lobo se apresenta no redil sempre travestido de cordeiro, assim como a nulidade social,escamoteia-se por detras do bom-mocismo, do politicamente correto. Tudo fachada, o continente não refelte o conteúdo.

    No mundo do “faz de conta”, não existe o Egito, muito menos revolta justa do povo egípcio.

    Invocar a excelência de Mino Carta, em comparação com essa editoria, é pura bondade sua.

    Abraços.

  2. 29/01/2011 às 22:08

    Tristeza é o jornalismo brasileiro como um todo. Falido, não existe! A grande mídia morreu! Mubarak discursando, TODAS as cadeias internacionais mostrando e traduzindo e a GloboNews? Entrevistando artista plástico em programa vagabundo. Falência completa.

    Hoje, protestos acontecendo, mudança de governo e GloboNews novamente entrevistando brasileira apavorada no Egito. É o sensacionalismo barato, o”personagem” como recurso estúpido…

  3. Marcelo
    30/01/2011 às 0:04

    Porca miséria.

  4. 30/01/2011 às 5:28

    Muito bom. Vale ainda citar que além do bom-mocismo, a capa da Veja relembra o retrato familiar do séc. XIX: O patriarca sentado e a mulher em pé, atrás dele. É muito tosco!

  5. 30/01/2011 às 5:59

    Cris
    me dá autorização para republicar em meu blog?
    abs

  6. 30/01/2011 às 13:39

    “Mas uma parcela da sociedade, aqueles que têm dinheiro e especialmente os novos-ricos – não a nova classe média, que é bem diferente -, ainda tem no casamento – na tradição, família e propriedade – seu ideal de vida.”

    Será que, no futuro, essa nova classe média não acabará se portando como a “velha”? É esperar pra ver…

    De resto, texto irretocável.

    • 30/01/2011 às 15:51

      Isso também me preocupa. A ver.

  7. Paulo Seabra
    30/01/2011 às 16:59

    Boas, Sou Tuga e vivo em Portugal e por isso não percebi o “Bom mocismo” Pela imagem julgava que tinha ido aos anos 60 faltando as máquinas de lavar loiça, roupa os liquificadores, o jardim, o pique-nic, a praia, ela e as amigas a fumar e a beberricar algum álcool em esplanadas porque têm TEMPO para tudo isto. Faltou a imagem à porta da escola o “Aero Willis” ultíssima geração. A roupa será ainda da fábrica “Santini?!”. Não sei se é falta de assunto, mas quanto mais evitamento da realidade, menor a probabilidade de haver depressões e chatíces. Pois que bom que seria o mundo a cor de rosa e a pastel. Esta família tipo ainda existe no Brasil, é predominante? não serão mais as famílias monoparentais?, multiparentais, multiétnicas. Não li o artigo, mas por outro lado tenho saudades do tempo em que tinha tempo e acreditava no Pai Natal. Uma chatice Crescí, esta imagem vale menos que um Lp dos Bee Gee ou o Hotel Califórnia a tocar na “vitrola”.

  8. Eugênio
    31/01/2011 às 5:28

    Onde tu desencavou essa foto do Papai sabe tudo??? QUÁ, QUÁ, QUÁ

    Eugênio

    • 31/01/2011 às 8:55

      Esqueci de creditar. Foi a @cynaramenezes que tuitou =)

  9. Ricardo
    31/01/2011 às 19:42

    Legal o blog, primeira vez que entro aqui, tava procurando alguma coisa mesmo no google sobre a capa absurda que vi hoje na banca, eu simplesmente não acreditei que eles fizeram isso. E eu já odiando sem nem saber q o Huck foi cabo eleitoral do Serra nem eu tinha feito o link com o Egito sendo negligenciado.

  10. 01/02/2011 às 9:20

    Sinceramente, não temos jornalismo neste país. Claro que me referindo aos veículos de grande circulação. Excelente artigo! Parabéns pelo espaço!

  11. 01/02/2011 às 23:01

    Concordo que a capa devia ser o Egito e tudo mais. Mas achei exagerada a análise do casal global. Meio que colcoar eles na capa não reforça nada. Só vende mais revistas. Isso é um país democrático (tá…pseudo-democtrático) e torço muito para que o Egito consiga a liberdade de estampar casais futeis em revistas semanais por lá tbem.

  12. Eduardo
    04/02/2011 às 13:26

    Ainda perdi tempo pra ler isso.

    • Maercio Viriato
      05/02/2011 às 15:47

      quero apenas postar uma comentario quando a Angelica dis que Ariquemes e o fim do mundo,para nos que moramos aqui em Ariquemes e amamos esta cidade ficamos muito chateados com este comertario,pois esta cidade esta com aproximadamente 70.000 mil habitantes nao e uma simples ciadezinha no fim do mundo e sim uma cidade que esta em pleno desenvolvimento,de pessoas hospitaleiras e educadas e trabalhadoras, que a recebeu com muito respeito quendo ela esteve em nossa cidade, gostamos muito da Agenlica e do Luciano,pelo menos um pedido de desculpas ficaria bom

  13. Marco Aurélio
    19/02/2011 às 15:26

    Eu concordo com o pensamento que se refere a familia, e a importância de cultivá-la. Acredito sim que possa existir amor entre eles, são duas pessoas vencedoras em suas profissões, e aparentemente bem resolvidas, e estão sendo sábios em cultivar uma familia sólida, isto só vai trazer mais felicidade para o casal, e mesmo que seja ao contrário creio ser importante toda matéria que coloque a familia de uma maneira positiva. Como todo mundo eles devem sim ter seus problemas, são seres humanos como todos nós, o fato de terem dinheiro não muda em nada o que é a responsabilidade de um casamento.
    Minha opinião é que, quem não acredita na familia tem muito o que aprender, os anos passam, os filhos vêem e eles precisam de pai e mãe, é importante para eles, assim como nós também queremos vê-los crescer, estar todos dia com eles, isto pertence a ambos, homem e mulher. A velhice também chega, são anos que quando são compartilhados com alguém tornasse mais fácil.
    Parabéns a veja pela excelente matéria, espero que outros casais de destaque possam ter este tipo de desejo, de valorizar a familia, assim como os meios de comunicação possam focar o que é de fato fundamental na sociedade que são os valores.

  14. Ricardo
    28/08/2011 às 0:32

    Adorei a publicação da Matéria Veja,Angélica e Luciano são um casal perfeito e a união deles transborda felicidades adoro eles,enquanto Ariquemes por favor me poupe desse absurdo de querer criticar Angélica por um simples comentário,estão querendo transformar em uma bola de neve,nauquela época as coisas eram muito dificeis,hoje é a mil maravilhas nem se compara Angélica parabéns era o fim do mundo mesmo,vcs deviam abordar temas pra criticar sim os politicos corruptos que cada vez mais roubam nosso país e ninguém faz nada e aparece nas capas das revistas e jornais mais e mais escandálos procurem o que fazer!

  1. 29/01/2011 às 21:10
  2. 30/01/2011 às 12:15
  3. 03/02/2011 às 20:54
  4. 19/05/2012 às 1:27

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: