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Copa 2014 justifica qualquer transformação em Porto Alegre

Ando muito focada nas questões do estado, mas Porto Alegre está pedindo socorro. Tem muita gente gritando a ameaça que nossa cidade vem sofrendo nos últimos anos e continuará sofrendo nos próximos. Muita gente gritando, mas nossa imprensa se porta tal qual aqueles três macaquinhos: não ouve, não fala, não vê.

Mudanças grandes na capital já estão sendo aprovadas, boa parte às escondidas, de modo que ninguém fique sabendo. Terrenos públicos transformam-se em terrenos privados sem o aval de seus donos, os porto-alegrenses. Foi o que aconteceu com o espaço em que será construída a nova arena do Grêmio, por exemplo. Arena, estacionamento, hoteis, shopping. Todos os novos projetos vêm acompanhados de shoppings, como se já não consumíssemos mais que o suficiente.

Tudo agora passa pela desculpa da Copa do Mundo de 2014. Tudo se justifica, até o que não tem nada a ver com futebol.

A Copa traz uma injeção de recursos enorme a Porto Alegre. Engraçado, né, vão acontecer uns dois ou três jogos, provavelmente não entre os países de mais tradição no futebol, e toda a cidade muda para se adaptar a esses dois ou três dias, que rapidamente passam e se esquecem.

Times de futebol ou empresas? Que interesses movem uma Copa do Mundo? Amor pelo esporte ou negócios? It’s just business, suponho.

Quem vibra, pula, comemora, brinda, se esbalda são as construtoras. A especulação imobiliária corre solta.

Em vez de aproveitarmos os recursos da Copa para investirmos em saneamento básico, em planejamento urbano de verdade – que inclua os moradores da periferia, não os jogue para mais longe -, usamos esses recursos para alargar avenidas sem avaliação das consequências para a cidade, para alterar índices construtivos sem discussão, para ceder a todos os interesses das grandes empresas, em suma.

A Vila Dique será removida para a ampliação do aeroporto. Perfeito, necessário. Mas alguém sabe para onde ela vai? Lá atrás do Porto Seco, ainda mais longe, é possível que tenham condições melhores de saneamento e de habitação, mas como se deslocarão para o trabalho? Onde encontrarão trabalho?

Não podemos usar as péssimas condições atuais dos moradores dessas áreas periféricas para justificar esse tipo de mudança. É como aquela história de que tínhamos que construir prédios no Pontal do Estaleiro porque o terreno estava abandonado. Quer dizer, o poder público deixa de cumprir com sua obrigação – no caso em questão agora, fornecer condições dignas para as pessoas – e usa sua inação como desculpa para aprovar projetos controversos.

Repito: é preciso incluir, não excluir ainda mais.

Várias remoções vão sendo feitas. Todas jogam as pessoas para mais longe. E aí eu pergunto: por que eu tenho direito de morar no Menino Deus, do lado do Centro, e o cara da Vila Dique tem que ir parar na putaqueopariu? O que me diferencia desse ser humano, tão ser humano quanto eu? Provavelmente nossa única diferença é que eu tive a sorte de nascer por aqui e ele não. Predestinação? Não, injustiça.

Mas nossa mídia louva as transformações que tornam os desiguais ainda mais desiguais. Principalmente quando ela tem interesse direto na especulação imobiliária. No Rio Grande do Sul, por exemplo, dificilmente uma RBS, a cujos donos pertence também a construtora Maiojama, vai criticar que a Câmara dos Vereadores e a Prefeitura liberem mais espaço para construção e com maiores índices construtivos.

É engraçado, contudo, que os mesmos que criticam as iniciativas de criação de um Conselho de Comunicação – que impediria, inclusive, essas distorções na informação baseadas em interesses privados, como os da RBS – são os que defendem incondicionalmente tudo o que diz respeito à “modernização” da Copa do Mundo. Todas as alternativas excepcionais que envolvem os jogos são aplaudidas. Inclusive a inconstitucional restrição à liberdade de expressão exigida pela Fifa, que proíbe intervenções de protesto contra os jogos enquanto eles acontecem. Não poderemos sequer vestir uma camiseta que contrarie a idolatria ao futebol, ao “progresso”, à CBF, à Fifa. Caso fizermos algo do gênero, rola prisão sem direito a fiança até o fim da competição. Quem censura, afinal?

Muita coisa envolve a Copa do Mundo de 2014, direta ou indiretamente. Temos um caminho longo até lá, mas as mudanças já estão acontecendo. É preciso estarmos atentos agora. Se deixarmos para nos preocupar às vésperas, as leis estarão mudadas e já não reconheceremos mais nossa cidade. O tema voltará por aqui, certamente.

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Charge de Eugênio Neves.

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  1. Cleberson Silva
    21/01/2011 às 23:56

    Realmente, a Copa é um péssimo negócio para o país. Tradicionalmente, o país que sedia uma copa do mundo gasta muito mais em obras e infra-estrutura do que a arrecadação com o turismo decorrente da Copa.
    Tem o caso, não de Copa do Mundo mas de Olimpíada, da cidade canadense que faliu depois de sediar os jogos (não me recordo qual é, se Toronto ou Montreal), de tanto dinheiro que torrou para fazer frente às despesas.

    Por outro lado, para quem é um dos felizardos moradores das cidades que sediarão os jogos, o Governo Federal injetará uma grana preta para melhoria da infra-estrutura dessas sedes, fazendo com que esses moradores recebam benefícios custeados pelo resto do país. Não é algo justo, mas já que vai acontecer, fico feliz por morar em uma cidade-sede, já que ao menos assim Porto Alegre e o Rio Grande do Sul receberão algum dinheiro federal, para compensar o prejuízo que tomamos no Fundo de Participação dos Estados e na Lei Kandir.

    Mas sinceramente, não consigo entender as reclamações quanto aos aumentos dos índices de construção.
    Qual o problema de ter prédios maiores e, consequentemente, apartamentos mais baratos?
    Qual o problema de ter avenidas mais largas, se a frota de carros de Porto Alegre aumenta a cada dia?
    Qual o problema de ter mais shoppings, se os atuais já estão superlotados, e considerando que um aumento na concorrência é sempre salutar?

    • 22/01/2011 às 10:13

      Basicamente, Cleberson, o problema é fazer tudo isso sem um planejamento urbano decente. É aumentar os índices construtivos de um local para atender determinados interesses sem avaliar os impactos no resto da cidade. O problema, insisto, é que os índices são aumentados para que se construam prédios mais altos e em uma área maior do terreno, para crescerem hoteis e prédios de apartamento de luxo, não para construirem apartamentos mais baratos para abrigar mais gente. Acontece que se mexe em toda a estrutura da cidade, aprovando, por exemplo, prédios muito altos na Orla do Guaíba – o que muda o regime de ventos, reduz nosso cartão postal, ajuda a esquentar mais a cidade, traz problemas de trânsito etc. – apenas para alguns poucos usufruirem, não para melhorar a vida da grande maioria dos portoalegrenses.

      Outro problema grave é que isso é feito sem discussão com a comunidade. Os projetos do Grêmio e do Inter foram aprovados em um final de dezembro na Câmara de Vereadores para que não trouxessem incômodo.

      Não é problema alargar avenidas, se houver planejamento para redução de impacto e atender os pontos mais necessitados. O problema é que, com a Copa, alargam-se avenidas que levam até o estádio, não as que já estão esgotadas e que teriam mais utilidade para os jogadores.

      Enfim, o problema é que provavelmente essas injeções de recursos não vão melhorar a vida de quem mora na cidade, simples assim. Toda a injeção de recursos é feita em obras que vão melhorar a Copa, só. O que for preciso para que aquelas duas semanas tenham sucesso. Não para melhorar a cidade, o que é muito diferente.

  2. Jaime Rodrigues
    22/01/2011 às 17:21

    O “Mercado Imobiliário” aproveita o fenomeno do Brasil precisar construir por questão economica. Ocorre que as soluções só beneficiam as grandes empresas que, diga-se de passagem, não são mais brasileiras, mas multinacionais. O mesmo fenomeno ocorre com as Tragédias urbanas. Acredito que a ecomomia, a construção civil, “nossas empresas”, a cidade, os cidadãos enfim seriamos beneficiados se a Prefeitura (o Estado) atuasse diferente e definisse condições democráticas e não aceitasse a manipulação. Realmente não é necessário usar esta solução carregada de práticas e ideologia de dominação de nossa história

  3. Cleberson Silva
    22/01/2011 às 21:24

    Mas Cris, hoje os índices, tanto de altura quanto de aproveitamento do terreno (não sei se são os termos corretos, sou leigo no assunto) são demasiadamente baixos, impedindo construções novas com mais que uns 18 andares. E para poder construir esses 18 andares é preciso utilizar um terreno gigantesco (naturalmente caro, e que se torna mais caro ainda por sua raridade), que dê conta de todos os recuos necessários para enquadrar o prédio nos restritivos critérios do plano diretor de Porto Alegre. A consequência natural é um apartamento novo com área de 100m² custar mais de 500 mil reais e um de 50m² (minúsculo mesmo para uma família pequena) novo beirar os 200 mil reais, uma extorsão.
    Caso fosse possível construir com uma altura razoavelmente superior sem ter que comprar um terreno do tamanho de uma quadra, o preço dos imóveis baixaria substancialmente, sem afetar a margem de lucro das construtoras (construir um prédio de 32 andares custa significativamente mais barato que dois de 16, por exemplo). E isso para todas as classes sociais, e não apenas para quem pode comprar apartamentos de alto luxo. Basta comparar o preço dos imóveis de Porto Alegre com os de outras capitais de porte semelhante.

  4. 05/03/2012 às 17:43

    Acho que não se pode confundir as coisas. O problema não é a Copa. Acho excelente que a Copa seja no Brasil, pq demontsra o bom momento econômico do país. O problema é o que se tem feito em nome da Copa. Em função da Copa do Mundo, o governo Fortunati tem permitido o mercado imobiliário se espraiar na cidade enquanto remove a população pobre para áreas sem infraestrutura. A Copa tem que ser aproveitada para as pessoas de Porto Alegre, tem que oferecer oportunidades de desenvolvimento social e não o contrário. Dia 26 é aniversário de Porto Alegre. Acho que a cidade merece de presente, por exemplo, a reforma da rede de drenagem do Parque da Redenção e a reinauguração do Araújo Vianna, a diminuição da tarifa de ônibus, a liberação da música ao vivo na Cidade Baixa, ações efetivas de combate a violência e promoção da cidadania na Bom Jesus, Restinga, Rubem Berta, Santa Teresa e outros bairros. A Copa tem que agendar essas necessidades. Para isso e outras demandas dever servir os recursos. Se não for para essas agendas, realmente não serve.

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