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A nova classe média como ela é, por Eliane Brum

Não tem melhor presente para um repórter do que uma história. Foi assim que a reportagem “Uma família no governo Lula” aconteceu para Eliane Brum: como um presente do tempo, da vida.

Não que tenha sido por acaso. Ela acompanha Hustene Costa Pereira há quase dez anos. Em 2002, ele era o case de uma matéria sobre o desemprego. Como boa repórter, Eliane frequentou a casa da família algumas vezes para escrever o texto com propriedade. Criou um vínculo. E, do vínculo, nasceu sem querer a reportagem da edição especial de 3 de janeiro de Época.

Ela conta como tudo aconteceu neste texto de “bastidores”. Explica que, ao contrário do que muitos dizem por aí, é possível se envolver com a fonte, sim. É até necessário. Mantendo limites, é saudável, é humano.

Eliane envolveu-se com Hustene a ponto de manter o vínculo por nove anos. Nunca deu dinheiro, nunca interferiu na história do homem que parece ter como sina alimentar as estatísticas dos governos. Durante os anos FHC, viu-se desempregado na crise de emprego que o Brasil enfrentava e virou “O homem-estatística” de Eliane. Agora, é o integrante da tão falada nova classe média de Lula. Comprou TV de tela plana e videogame, tem emprego fixo e come bem. E lê o país em que vive. Não é só atingido pelos governos que passam, mas está atento ao que ocorre.

O bonito da história é a perspicácia da repórter. Foi quando ela se deu conta que o homem que ela acompanhava não era uma pessoa qualquer, era um símbolo da história recente do Brasil. Uma ilustração viva, real. Claro, de nada adiantaria ser perspicaz se Eliane Brum não fosse profundamente sensível, humana, se ela não tivesse mantido o vínculo criado tantos anos atrás.

O resultado dessa história toda é um texto bonito e útil ao mesmo tempo. Com passagens de um texto requintado, Eliane Brum transforma em real aquilo que costumamos ver como números. Estatísticas não tocam as pessoas, não as fazem pensar. Pessoas, sim.

Retratar a história da família Costa Pereira é tornar palpável para o leitor o que ele não percebe quando lê que 30 milhões de pessoas entrou na classe média. Isso com linhas que dizem que “eles não encarnavam as páginas de Graciliano Ramos, como seus antepassados que fugiram da seca, mas uma literatura que ainda estava por ser escrita, a dos filhos do desemprego urbano e industrial”. É um texto que não humilha o leitor que não conhece Graciliano Ramos, pois essa informação não faz falta para a compreensão do significado da frase, mas que torna requintado o dado concreto que apresenta.

E tudo dentro do contexto, explicando como e por que as coisas aconteceram. Se chama jornalismo.

Jornalismo de gente. Pessoas nas letras. O que mais importa, afinal?

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