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Discussão sobre feminismo: a esquerda e suas divergências

A blogosfera – ou parte dela – está em crise. Discutindo o relacionamento. Não, não é o fim, é só um tempo, talvez. Fim de ano, bom momento para balanço.

O que deflagrou a crise foi um episódio em si pequeno, mas que trouxe à tona ressentimentos e dúvidas antigos, junto com alguns esclarecimentos. Confesso que não me envolvi na história porque não tive muito tempo nem vontade de ler todo o vai e vem, mas chegou a um ponto em que me obriguei a correr atrás.

Resumindo para quem ainda não está a par (quem já cansou de ler a respeito, pula esse parágrafo): o blog do Nassif publicou como post um comentário de um cidadão machista, que usava o termo “feminazi” para se referir às feministas, com o pretexto de que servia ao debate. Não acho que servia, acho que Nassif errou, mas prossigamos. Ele sofreu diversas críticas de feministas e de outras pessoas, algumas bastante legítimas, outras que pegaram carona na história. Nassif não se desculpou e ainda debochou de muitas daquelas pessoas. Errou mais uma vez.

O feminismo e o termo “feminazi” não são temas pequenos, antes que alguém possa me questionar a respeito, mas o episódio em si não justifica tal repercussão. A blogosfera (e a tuitera?) se dividiu, passou a se atacar, inclusive com ataques pessoais além das críticas gerais ou específicas, mas que fossem críticas, não ataques.

O sentido do feminismo

As mulheres, assim como os negros, os homossexuais e outros, têm um histórico de preconceito sobre elas. E o feminismo faz sentido ainda hoje, em contraposição ao machismo opressor, assim como é libertador utilizar uma camiseta escrito “100% negro” e uma com a inscrição “100% branco” pareceria preconceituoso. É o histórico de opressão que justifica essas diferenças. Por que se afirmar como homem ou como branco se o homem branco sempre teve espaço garantido?

O feminismo deve, pois, ser respeitado, mas as feministas também devem compreender as diferenças de pensamento, desde que respeitando determinados limites, é claro. Nassif ultrapassou alguns limites ao publicar um post tão preconceituoso, mas a blogosfera inteira não precisa ir para a fogueira e ele não deve se tornar o inimigo a ser eliminado por um erro crasso, mas pontual.

Alguns posts personalizaram a discussão, que não envolveu só a figura x ou a figura y, que está se caracterizando por uma ampla discussão do papel dos blogs. Alguns problemas surgiram. O episódio, tão específico, serviu de pretexto para se criticar o Encontro de Blogueiros Progressistas, acontecido em agosto. As críticas tiveram duas frentes: as que questionavam o termo “progressista” e as que questionavam o motivo do encontro. A crítica, então, ultrapassou a blogosfera e atingiu a esquerda.

Do feminismo à esquerda

A briga já está em um ponto em que um diz que a esquerda tem que se unir e outro diz que tem que manter a capacidade de crítica, sem aceitar qualquer coisa de olhos fechados.

Bem bem… Passamos do ponto. E sim, esse é um problema da esquerda, mas é um problema originado por uma causa bem específica, que o justifica. A esquerda se divide porque sua movimentação é motivada por ideias, não por interesses pessoais, que fazem com que a união seja uma estratégia pensada visando um retorno no médio prazo. E ideias divergem.

Então, o que fazer? Passar por cima das divergências e se unir de forma acrítica? Ou assumir as críticas e brigar e brigar, esquecer o entendimento e renunciar às lutas por falta de força, já que cada um lutando sozinho não chega muito longe?

Conversar, não discutir

Nem oito nem 80. Falta um tantinho de tolerância e de vontade de entendimento. Seria simples. A gente discute ideias, sem partir para o pessoal, concorda às vezes, diverge, mas se respeita e se une pelos pontos em que há identificação. Entende que às vezes a gente erra, mesmo que tentando acertar. Que a pessoa do outro lado é tão falível e tão humana quanto a deste lado e que às vezes diz uma besteira monstro. Percebe que há momentos em que o outro fulano pensa diferente mesmo, e isso faz parte. Afinal, quem pode dizer quem está certo?

Como em qualquer relacionamento, na política – e a blogosfera é política, e o feminismo é um movimento social e também político – a gente tem que ceder, tem que tolerar, tem que passar por cima de algumas coisas. Senão ninguém se entende.

Prova disso é encontrada ao reunir os diferentes posts produzidos sobre o assunto. Com cada um, tenho concordâncias e divergências. Algumas partes eu assinaria embaixo e outras eu jogaria no lixo. Ou seja, todos acertamos e erramos. E provavelmente o leitor também discordará de boa parte do que escrevi aqui, e outro leitor discordará de parte diferente. Ou seja, somos diferentes.

Mas temos um ponto de união. Queremos um mundo melhor, queremos melhorar o Brasil, queremos uma visão mais abrangente de sociedade, que não exclua pessoas por conta de sua renda ou do lugar onde mora. Prendamo-nos, pois, aos nossos pontos comuns. Façamos críticas, com o devido respeito e sem a arrogância de se achar dono da razão. Ouçamos as críticas. Aprendamos com elas. Mas não nos desarticulemos. Isso se chama diálogo.

——————–

A seguir, alguns links que ajudam a compreender melhor a dimensão que a coisa tomou. Com alguns concordo mais, com outros menos. Não há nenhum tipo de ordenamento nesse sentido. A cada link, a ordem é o nome do post, nome do blog e autor do texto.

Nassif e a esquerda que a direita adora – Rodrigo Vianna

Elas mataram Orfeu – Gonzum – Miguel do Rosário

A busca incansável por um feminismo dócil, ou, não é de você que devemos falar – O Biscoito Fino e a Massa – Idelber Avelar

A nova blogosfera e o episódio com as feministas – Luis Nassif

“Socorro! Não sou machista, mas as feminazis mal-comidas estão me patrulhando” – Liberal Libertário Libertino – Alex Castro

Algumas reflexões sobre a “blogosfera progressista” – O Descurvo – Hugo Albuquerque

Sobre o debate Nassif, feminazis, Idelber e blogs progressistas – Conexão Brasília-Maranhão – Rogério Tomaz Jr.

Nassif pede desculpas às feministas de bom nível – Escreva Lola Escreva – Lola Aronovich

Feminismo não é partido! – O inferno de Dandi – Danilo R. Marques

Blogosfera progressista, feminismo e polêmicas – Conceição Oliveira – Vi o mundo

Como falar bobagens e ser publicado num blog famoso – Escreva Lola Escreva – Lola Aronovich

Feminazi: ignorância a serviço do conservadorismo – Cynthia Semíramis

A agressividade como ferramenta de auto-afirmação – Escreva Lola Escreva – Lola Aronovich

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  1. 20/12/2010 às 20:31

    Li quase todos os textos que citaste e peguei uma vicinal nem mais divertida. Fazer o quê?

    http://miltonribeiro.opsblog.org/2010/12/20/o-feminismo-do-grande-imenso-um-teto-todo-seu-de-virginia-woolf/

    Excelente levantamento e análise tuas e… passamos do ponto mesmo!

    Bj.

  2. 20/12/2010 às 21:38

    Meu texto no blog da Cris! o/

    Espero que esta discussão traga bons frutos, pois já temos uma mulher na presidência. Não entender este machismo chega até a ser um paradoxo.

    A intenção não é dividir a blogosfera, mas unir a causa dos gêneros em prol da igualdade.

    Abraços

  3. Thiago Beleza
    20/12/2010 às 21:56

    Pessoalmente, como homem, não feminista, mas me esforçando pra ser cada vez menos machista, foi o texto mais sensato e ponderado que eu li sobre o assunto. Defendo este ponto de vista há tempos, mas com pouca coragem de me posicionar por aquele problema de sempre: o membro vem antes das idéias.. qualquer discordância de textos feministas seria visto como uma interferência no movimento, uma opnião masculina é dispensável (sempre que discorda, qdo concorda, é linda)..

    mas esse texto expressou bem o que eu sentia desde o início do rolo: ataques pessoais não levariam o debate a lugar nenhum e no fim, ninguém aprende e a luta não avança. Como homem, criado em uma sociedade machista, algumas cisas nem sempre são tão claras. costumo questionar e entender as posições feministas, afinal, isso tem sido importante nesses esforços de ser menos machista. por isso gostei do seu texto.. parabéns

  4. 20/12/2010 às 22:01

    Mais uma vez, mandaste muito bem! :D

  5. 21/12/2010 às 1:03

    Que bacana,
    além de jornalista você tem um tino para área da psicologia e diplomacia, áreas das quais, se analisasse antes de expor suas idéias, professor ou jornalista para se comunicar:
    – este pensamento ou comportamento me trará quais consequências;
    – a quem estarei transmitindo tal idéia etc.

    O seu texto foi o melhor de todos, equilibrou os dois lados, homens e mulheres.
    A esquerda na sua essência deveria ter este tipo de pensamento e comportamento, o importante é que esperemos a maturidade individual, respeito, um pelo outro.
    O ego infelizmente está bem aflorado em boa parte dos corações.
    Parabéns, muito sucesso em sua carreira.
    Abraços.

  6. 21/12/2010 às 1:09

    é o velho problema de dificuldade de discussão da esquerda. É um debate que está na origem da esquerda, que – de forma generalizante e minimaalista – é composta por gente que não aceita as regras vigentes, discorda das condições que são impostas a todo mundo. Esse espírito contestador e insatisfeito nos da forças pra lutar também nos cega para chegar a consensos.
    Isso deve esplicar infinitas dissidências na esquerda, e até certo autoritarsmo em quase todos os setores que estão deste lado do espectro.
    A escolha entre aceitar alguns pontos discordantes para conseguir força política ou manter-se fiel á um programa, mesmo que nunca vá chegar ao poder é um dilema velho, mas que nunca foi tratado por nós com a devida atenção

  7. Paula
    21/12/2010 às 9:41

    Cris, pois eu ia justo te mandar um e-mail sobre isso!
    Acho que a coisa merece sim a dimensão que tomou. Vivemos numa sociedade machista e a tendência é minimizar esses acontecimentos. Como o privilégio em vigor é o branco, hétero e afins, as pessoas costumam olhar com naturalidade e pensar, “ah, mas tudo isso por isso?”. Concordo ctg que entre debater ideias e atacar alguém pessoalmente existe uma grande diferença, mas me senti pessoalmente ofendida por diversos comentários de vários blogueiros, principalmente no twitter, que colocam o feminismo como um movimento de mulheres barraqueiras e mal comidas.
    O encontro de blogueiros foi algo super legal, a entrevista com o Lula idem, mas que faltaram mulheres, faltaram. E dizer que chamaram quatro gurias pra entrevista e elas não toparam não diminui isso.
    Metade da população não pode ser considerada nem tratada como uma minoria! Nesses momentos conseguimos perceber o quanto ainda falta caminhar pra um mundo igualitário e como dói mexer em certos pontos. E fazendo uma analogia babaca com o meu dentista (acabei de tirar os 4 sisos, estou sensível a isso): é qd dói e sangra que a gte tem que escovar mais. Esse assunto só deu tanto pano pra manga pq é importante.
    Com isso não prego o fim dos encontros de blogueiros nem dessa união tão bacana que vem surgindo, só que a gte olhe com mais respeito pra causa q tire ela do mundo das coisas normais que a nossa sociedade patriarcal fez questão de colocar na nossa cabeça.

  8. 21/12/2010 às 15:10

    Excelente! Logo no início (“O que deflagrou a crise foi um episódio em si pequeno, mas que trouxe à tona ressentimentos e dúvidas antigos, junto com alguns esclarecimentos”) tive a intuição de que concordaria contigo. E percebi que estava certo.

    Só acho que, nesse episódio, há “umbigos” tomando o lugar das pessoas, das ideias e das lutas. Há raivas demais e, ao final, a questão do “feminismo” ficou em segundo plano. Abs.

  9. 22/12/2010 às 11:37

    Então de quem estamos falando?

    Tentei, mas foi difícil ignorar essa polêmica envolvendo Luis Nassif, os tais “blogueiros progressistas” e seus desafetos ocasionais. O caso parece ter começado com a publicação de um texto no blog dele que usava o termo “feminazi”, mas aos poucos descambou para confusões de outra natureza.
    Os erros de Nassif ultrapassaram as limitações de sua autocrítica, como já ficou bem esclarecido. E a idiotice da palavra utilizada pelo tal “André” dispensa comentários. O que dá preguiça na polêmica é notar que um necessário debate sobre o machismo (ou sobre diversos elementos da pauta feminista), ainda mais importante após a ascensão de Dilma Rousseff à Presidência, seja contaminado por argumentos muito fraquinhos. E hipócritas, também.
    Nassif não é o único blogueiro “de esquerda” que permite excrescências em suas caixas de comentários, ou que limita a participação de certos desafetos, ou que ignora discordâncias. Um pouco de autocrítica nesse quesito não faria mal a ninguém.
    Defender a igualdade de direitos passa também pela superação das barreiras de falsas “competências”, sejam intelectuais, de gênero ou quaisquer outras. Sexismo não é matéria exclusivamente acadêmica, destinada a uma confraria de sábios iluminados. Ou sábias. E tampouco é restrito a(o)s feministas, nem mesmo às mulheres.
    Grupinhos existem em toda parte. Há as confrarias de escritores, as dos artistas plásticos, as dos arquitetos, as de petistas, as das próprias feministas. Há também as dos blogueiros, oras bolas. Muita gente boa, além da blogosfera feminista, costuma não aparecer nos eventos organizados pelos “progressistas”. Estes fariam jus às próprias plataformas se discutissem mecanismos para ampliar a participação da imensa gama de articuladores que atua na internet. Apenas culpar o caráter desagregador dos críticos é insuficiente.
    E a todos os envolvidos cabe notar que qualquer argumento pode se tornar despótico e ilegítimo, quando usado para desacreditar os adversários. Mas disso os bons libertários já sabem, não é mesmo?

    http://guilhermescalzilli.blogspot.com/

  1. 21/12/2010 às 11:05
  2. 21/12/2010 às 15:36
  3. 22/12/2010 às 9:30
  4. 22/12/2010 às 17:34
  5. 22/12/2010 às 23:09
  6. 25/12/2010 às 18:10
  7. 07/01/2011 às 20:08
  8. 19/05/2012 às 12:10

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