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Campanha de Serra deixa o conservadorismo como herança

A esquerda venceu as eleições e a direita sai derrotada, sem força até para comandar uma oposição muito contundente. Mas o baixo nível com que orientou a campanha, principalmente no segundo turno, deixa suas marcas na sociedade brasileira.

Esta semana está em discussão na Califórnia a legalização da maconha. Mesmo que não seja aprovada, para os padrões brasileiros esse é um avanço considerável. Não consigo vislumbrar um estado no nosso país capaz de uma discussão desse nível sem despertar rancores agressivos por grande parte de sua população, incluindo aí a imprensa, que diz que apenas retrata o que vê nas ruas, mas vai mais fundo e incentiva esse tipo de sentimento.

A discussão sobre aborto, sobre religião, que envolveu até o papa Bento XVI (que confirmou a tese de que só abre a boca pra falar besteira), ajuda a manter e a se intensificar um conservadorismo medieval no Brasil. Apesar dele, avançamos elegendo Dilma presidente, seguimos no caminho do progresso.

Mas a discussão mostrou que a sociedade ainda é conservadora e que uma parte dela não votou pela consciência política de estar mantendo no poder um partido que luta por valores de igualdade e fraternidade, mas pelo simples reflexo que as políticas sociais de Lula tiveram no seu dia a dia. E o problema vai além, porque a campanha baixa comandada especialmente por Serra, mas incentivada pela mídia, não apenas exibe essa faceta conservadora como a incentiva.

Ela ganha forças que pareciam vir perdendo influência. Já parecia absurdo discutir a possibilidade de se tolerar homofobia, mas o que se viu foi a volta dessa raiva contra homossexuais, que nada mais é do que preconceito.

Assim como esse, outros temas em que já conquistávamos avanços, em uma luta difícil e cotidiana, retrocederam. Já não parece mais possível discutir a legalização do aborto, porque ele agora passou a ser visto como um crime muito mais cruel e lhe foi atribuido um aspecto moral. Defender a descriminalização do aborto hoje é afrontar contra deus, a família, a vida, é defender o assassinato, é ser moralmente condenável. Como se o tema fosse assim simples.

Serra não fez mal ao país apenas por quase se eleger presidente e por nos fazer tolerar por mais um mês uma campanha suja que já ninguém mais aguentava. Serra fez mal ao perpetuar na sociedade um sentimento conservador retrógrado, que dificulta o processo de conscientização e o progresso de medidas mais humanas, cuja adoção vai sendo adiada.

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