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Que seja, então, no segundo turno

O segundo turno dá a oportunidade de termos um mês a mais de debate político democrático e discussão de ideias. Seria democrático, considerando que temos oficialmente um tempo reduzido de campanha eleitoral oficial e uma legislação cheia de restrições que muitas vezes impedem esse diálogo.

Seria, então, útil para o eleitor aprofundar as propostas dos dois candidatos mais votados, para que sejam melhor conhecidas, dissecadas uma a uma. Seria bom travarmos um debate sério e qualificado. Seria. Tudo isso teria lugar em uma democracia ideal. Infelizmente, não é o nosso caso, por um fator bem específico.

Temos visto nos últimos três meses que tem lugar privilegiado na cobertura da imprensa a curiosidade e o denuncismo, com muito pouco lugar para a discussão de ideias. Agora, com a polarização advinda da escolha entre dois nomes – dois projetos políticos – em um segundo turno, a coisa tende a piorar. Pela pouca repercussão que vi ontem à noite e pelo que observei nos últimos tempos, espero agora pelo pior em termos jornalísticos.

Se eu queria que a Dilma ganhasse no primeiro turno, era sobretudo para não ter que enfrentar a baixaria que vem nos próximos dias. Outubro vai ser um mês pesado, bastante desgastante, ao que tudo indica. Se o eleitor comum já se cansa, quem trabalha de forma mais direta com política fica ainda mais vulnerável.

Por um lado, é até bom que Dilma não tenha sido eleita. Evita o salto alto que às vezes prejudica um time que tem tudo para sair vencedor e fazer o melhor. Mas por outro traz um prejuízo considerável. A vitória no primeiro turno daria à nova presidente e ao PT uma força política muito grande, ainda mais com o aumento da base aliada na Câmara dos Deputados e no Senado. Uma força que seria útil para conquistar reformas importantes para melhorar a vida dos brasileiros e para aprimorar o nosso sistema político. Seria também uma boa barganha na hora de negociar cargos no novo governo, e talvez Dilma tivesse que ceder menos.

De qualquer forma, estamos a quatro semanas de confirmar Dilma presidente. De um jeito ou de outro, é um projeto político vitorioso porque atinge diretamente o dia a dia do povo brasileiro, melhora a vida de cada cidadão. Faz o Brasil se desenvolver, crescer economicamente, mas com reflexo direto na sua população. Então, rumo à vitória no segundo turno. Que seja.

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  1. 04/10/2010 às 14:10

    Uma das razões que faz o PT ter problemas em ouvir o silêncio – ou seja, entender as tendências que não dependem da campanha, como a migração ostensiva de votos de Dilma para Marina – é essa redução do debate. Os adversários são baixos, nós somos altivos. Não é bem por aí: o candidato que aproveitou o ‘denuncismo’ foi José Serra, que cresceu menos que a candidata que renegou o denuncismo, Marina Silva.

    Isso é uma clara demonstração de que aqueles que influenciam a eleição por mudar de voto em cima da hora não querem saber desse discurso sectário, seja de qual lado for. Para ganhar, Dilma só precisa de 20% dos votos de Marina Silva, um pouco mais do que 5% dos eleitores que votaram na última eleição.

    Não é o “denuncismo” e o “golpismo” que podem derrubar o PT. É a arrogância de não conseguir entender que não há apenas dois lados. Lula e Dilma já entenderam isso e precisam ser mais claros à sua militância mais ativa.

    • 04/10/2010 às 16:42

      Luís Felipe,

      Tua resposta não condiz com as colocações que fiz. Não sei onde leste que atribuí o “denuncismo” à Marina, para o estares refutando.

      Na verdade, atribuo o tal do denuncismo à campanha de Serra e à imprensa, mas esse texto nem era tão amplo, tratava ainda de forma mais específica do papel da mídia.

      Fora isso, em nenhum momento disse que o denuncismo ou o golpismo podem derrubar o PT, até porque não acho que possam. E o que reclamo ainda de forma mais enfática é pelo fato de esse mês ser pesado, ser desgastante por conta desse denuncismo.

      Por fim, as colocações que fiz com relação à força política não têm nem ligação direta com as causas de haver um segundo turno, mas com o fato em si, com a própria existência do segundo turno. Independente do porquê, o fato de a decisão não ter sido decidida ainda gera aqueles prós e contras que citei, na minha opinião.

    • 05/10/2010 às 0:56

      Vou bancar o chato aqui, mas tem umas coisinhas que eu gostaria de colocar:

      1) o denuncismo existe, mas precisa ser visto de maneira menos apaixonada pelos esquerdistas do que tem sido a norma. O Caso Erenice, por ex, é mesmo seríssimo, e tanto faz se a denúncia saltou das páginas pustulentas da Veja. Muitas matérias de Folha e Estadão que foram achincalhadas por aí eram, verdade seja dita, bastante boas e com forte suporte documental. E, como eu já disse antes, a capa da Carta Capital detonando a filha do Serra era tão oportunista e requentada quanto inúmeras da Veja e da Época nos últimos tempos – igualmente inútil, portanto. Como pessoas, podemos e devemos ter um posicionamento político – como jornalistas, o que nos cabe é a fidelidade canina à verdade factual, como diria o Ungaretti. Não podemos ficar brabos ou achar que não pode denunciar.

      2) Transferência de votos é um mistério. Não dá para prever o que acontecerá, embora eu ache que Dilma deva acabar com uns 54% dos votos, por aí. Mas o PT fará muito bem a si mesmo se não achar que essa transferência será meio que automática, como eu já vi gente comentando por aí.

      3) Sei que o sentido no teu texto é outro, Cris, mas aproveito para dizer que essa coisa de “agora discutiremos propostas” não pode nublar uma leitura do que as urnas disseram. E o que elas disseram é: tem algo na Dilma que não me convence o suficiente, então vou votar na Marina, e não no Serra. Isso não é insegurança com propostas, é algo muito mais subjetivo, de postura mesmo. Se Dilma for para o segundo turno achando que basta reforçar o discurso que daí a coisa vai, periga ter uma segunda surpresa, bem mais desagradável.

      Pronto, parei =P

      • 05/10/2010 às 11:33

        Igor,

        Concordo com boa parte da tua análise. Acabei não comentando na época, por conta da correria, não sei, mas também achei a capa da Carta requentada. São denúncias sérias e tal, mas vai na mesma linha de questionar a filha do Serra e não o próprio.

        A minha maior crítica com relação à Veja foi com relação à falta de fontes e à linguagem emocionada dos textos. Digamos, pouco jornalística. E ao fato de se denunciar apenas os “erros”, “crimes” – qual a melhor palavra? – do PT, como se o governo Serra não tivesse tido os seus em São Paulo. Claro que tem que se denunciar o que está errado, o problema é como essas denúncias são feitas. E não dá pra negar que há uma tendência bem grande a se puxar para certos lados…

        E a ideia de discutir propostas seria em um cenário ideal, né. Em que se escolhessem candidatos de fato com base em propostas – e mais, em projeto -, de forma racional. Não serve mesmo como base para a análise das urnas.

        E só pra lembrar que o autor da “fidelidade canina” é o Mino Carta ;)

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