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Estadão abre apoio a José Serra

Seria uma atitude digna. Talvez a primeira ao longo da campanha presidencial de 2010. Hoje, o Estadão se posicionou, muito atrasado, a favor de José Serra. O editorial do Estadão, intitulado “O mal a evitar” baseia-se em argumentos falsos, em distorções de falas do presidente Lula. Como convém, a imprensa vem batendo na questão da comunicação, como se Lula tivesse fechado os principais órgãos de imprensa e feito a revolução. Infelizmente não fez, apenas exerceu seu direito democrático de criticar quem o critica.

Vou aprofundar no tema mais adiante. O que importa agora é que o Estadão finge não entender o contexto e o significado da fala do presidente e em vez de fazer um mea culpa, diz que “toma partido” na disputa eleitoral, mas não vê isso como antiético, considerando que só o admitiu a uma semana do pleito. Sem contar que não admite o contraponto. Estadão e Folha gostariam de falar sozinhos. Ou seja, a não-democracia, o contrário da democracia que eles tanto pregam, já que de uma só voz.

O Estadão perdeu a oportunidade de usar o espaço para enumerar qualidades de Serra – talvez por não as tê-las em quantidade suficiente para completar a coluna. Optou por uma atitude mais mesquinha e burra de agredir Lula, que tem 4% de rejeição – mas concordo que entre os leitores do Estadão esse percentual deve chegar a uns 80% – usando expressões que não convêm a um jornal desse porte.

Manipula claramente as informações. Diz que qualquer um dos candidatos é capaz de continuar o crescimento com distribuição social. Não explica, porém, por que o PSDB não o fez quando pôde. Prefere, no lugar, dizer que Lula partidariza o governo com o único fim de “manter-se no poder”, utilizando, para isso, os “piores meios”. Recomendo leitura de entrevista do presidente ao portal Terra, sobre a qual comentarei mais tarde.

Folha insiste no discurso da imparcialidade

A Folha segue linha semelhante, mas não se rebaixa tanto. Interessante notar como os argumentos são parecidos e como não são montados para tal – o editorialista da Folha não ligou para o do Estadão para combinarem o que dizer -, mas refletem um pensamento igual na “grande imprensa” brasileira, a “mesmice jornalística” que o jornalista Bernardo Kucinski aponta em seus livros.

A Folha não abre voto. Apenas usa o espaço para criticar o governo Lula, sem exercer a mesma crítica ao governo Fernando Henrique, os dois projetos que se opõem nesta eleição. Dessa forma, fica claro seu apoio, mas seria muito mais honrado dizê-lo. A honestidade permite que se ouse mais, com dignidade, a Folha deveria sabê-lo.

Prefere, no entanto, criticar as críticas à imprensa, de forma mais aprofundada que o Estadão, mas mais séria. Ainda assim, é extremamente parcial na sua análise. No editorial, o jornal pode e deve opinar, mas deve ser ético na utilização dos fatos que baseiam sua opinião. Teria sido inclusive útil para o jornal se, na hora de elencar os casos de corrupção apurados pela imprensa, tivesse incluído alguns concernentes ao PSDB, à oposição. Assim, atingiria um pouco melhor seu objetivo de mostrar que a imprensa é sempre crítica. Optou por apontar apenas casos do governo do PT, como se outros não houvesse, reforçando e comprovando a tese de quem acusa os grande veículos de parcialidade.

A Folha continua dizendo que é imparcial. Fica feio, quando salta aos olhos que não é verdade. Além de imparcial, torna-se mentirosa. Seria mais inteligente se assumisse um lado. Não correria o risco de cair da linha tão fraca que a mantém como o jornal de maior credibilidade entre a classe média brasileira.

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O editorial do Estadão:

O mal a evitar

A acusação do presidente da República de que a Imprensa “se comporta como um partido político” é obviamente extensiva a este jornal. Lula, que tem o mau hábito de perder a compostura quando é contrariado, tem também todo o direito de não estar gostando da cobertura que o Estado, como quase todos os órgãos de imprensa, tem dado à escandalosa deterioração moral do governo que preside. E muito menos lhe serão agradáveis as opiniões sobre esse assunto diariamente manifestadas nesta página editorial. Mas ele está enganado. Há uma enorme diferença entre “se comportar como um partido político” e tomar partido numa disputa eleitoral em que estão em jogo valores essenciais ao aprimoramento se não à própria sobrevivência da democracia neste país.

Com todo o peso da responsabilidade à qual nunca se subtraiu em 135 anos de lutas, o Estado apoia a candidatura de José Serra à Presidência da República, e não apenas pelos méritos do candidato, por seu currículo exemplar de homem público e pelo que ele pode representar para a recondução do País ao desenvolvimento econômico e social pautado por valores éticos. O apoio deve-se também à convicção de que o candidato Serra é o que tem melhor possibilidade de evitar um grande mal para o País.

Efetivamente, não bastasse o embuste do “nunca antes”, agora o dono do PT passou a investir pesado na empulhação de que a Imprensa denuncia a corrupção que degrada seu governo por motivos partidários. O presidente Lula tem, como se vê, outro mau hábito: julgar os outros por si. Quem age em função de interesse partidário é quem se transformou de presidente de todos os brasileiros em chefe de uma facção que tanto mais sectária se torna quanto mais se apaixona pelo poder. É quem é o responsável pela invenção de uma candidata para representá-lo no pleito presidencial e, se eleita, segurar o lugar do chefão e garantir o bem-estar da companheirada. É sobre essa perspectiva tão grave e ameaçadora que os eleitores precisam refletir. O que estará em jogo, no dia 3 de outubro, não é apenas a continuidade de um projeto de crescimento econômico com a distribuição de dividendos sociais. Isso todos os candidatos prometem e têm condições de fazer. O que o eleitor decidirá de mais importante é se deixará a máquina do Estado nas mãos de quem trata o governo e o seu partido como se fossem uma coisa só, submetendo o interesse coletivo aos interesses de sua facção.

Não precisava ser assim. Luiz Inácio Lula da Silva está chegando ao final de seus dois mandatos com níveis de popularidade sem precedentes, alavancados por realizações das quais ele e todos os brasileiros podem se orgulhar, tanto no prosseguimento e aceleração da ingente tarefa – iniciada nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique – de promover o desenvolvimento econômico quanto na ampliação dos programas que têm permitido a incorporação de milhões de brasileiros a condições materiais de vida minimamente compatíveis com as exigências da dignidade humana. Sob esses aspectos o Brasil evoluiu e é hoje, sem sombra de dúvida, um país melhor. Mas essa é uma obra incompleta. Pior, uma construção que se desenvolveu paralelamente a tentativas quase sempre bem-sucedidas de desconstrução de um edifício institucional democrático historicamente frágil no Brasil, mas indispensável para a consolidação, em qualquer parte, de qualquer processo de desenvolvimento de que o homem seja sujeito e não mero objeto.

Se a política é a arte de aliar meios a fins, Lula e seu entorno primam pela escolha dos piores meios para atingir seu fim precípuo: manter-se no poder. Para isso vale tudo: alianças espúrias, corrupção dos agentes políticos, tráfico de influência, mistificação e, inclusive, o solapamento das instituições sobre as quais repousa a democracia – a começar pelo Congresso. E o que dizer da postura nada edificante de um chefe de Estado que despreza a liturgia que sua investidura exige e se entrega descontroladamente ao desmando e à autoglorificação? Este é o “cara”. Esta é a mentalidade que hipnotiza os brasileiros. Este é o grande mau exemplo que permite a qualquer um se perguntar: “Se ele pode ignorar as instituições e atropelar as leis, por que não eu?” Este é o mal a evitar.

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O editorial da Folha:

Todo poder tem limite

Os altos índices de aprovação popular do presidente Lula não são fortuitos. Refletem o ambiente internacional favorável aos países em desenvolvimento, apesar da crise que atinge o mundo desenvolvido. Refletem,em especial, os acertos do atual chefe do Estado.

Lula teve o discernimento de manter a política econômica sensata de seu antecessor. Seu governo conduziu à retomada do crescimento e ampliou uma antes incipiente política de transferências de renda aos estratos sociais mais carentes. A desigualdade social, ainda imensa, começa a se reduzir. Ninguém lhe contesta seriamente esses méritos.

Nem por isso seu governo pode julgar-se acima de críticas.O direito de inquirir,duvidar e divergir da autoridade pública é o cerne da democracia, que não se resume apenas à preponderância da vontade da maioria.

Vai longe, aliás, o tempo em que não se respeitavam maiorias no Brasil. As eleições são livres e diretas, as apurações, confiáveis -e ninguém questiona que o vencedor toma posse e governa.

Se existe risco à vista, é de enfraquecimento do sistema de freios e contrapesos que protege as liberdades públicas e o direito ao dissenso quando se formam ondas eleitorais avassaladoras, ainda que passageiras. Nesses períodos, é a imprensa independente quem emite o primeiro alarme, não sendo outro o motivo do nervosismo presidencial em relação a jornais e revistas nesta altura da campanha eleitoral.

Pois foi a imprensa quem revelou ao país que uma agência da Receita Federal plantada no berço político do PT, no ABC paulista, fora convertida em órgão de espionagem clandestina contra adversários.

Foi a imprensa quem mostrou que o principal gabinete do governo, a assessoria imediata de Lula e de sua candidata Dilma Rousseff, estava minado por espantosa infiltração de interesses particulares. É de calcular o grau de desleixo para com o dinheiro e os direitos do contribuinte ao longo da vasta extensão do Estado federal.

Esta Folha procura manter uma orientação de independência, pluralidade e apartidarismo editoriais, o que redunda em questionamentos incisivos durante períodos de polarização eleitoral.

Quem acompanha a trajetória do jornal sabe o quanto essa mesma orientação foi incômoda ao governo tucano. Basta lembrar que Fernando Henrique Cardoso,na entrevista em que se despediu da Presidência, acusou a Folha de haver tentado insuflar seu impeachment.

Lula e a candidata oficial têm-se limitado até aqui a vituperar a imprensa, exercendo seu próprio direito à livre expressão, embora em termos incompatíveis com a serenidade requerida no exercício do cargo que pretendem intercambiar.

Fiquem ambos advertidos, porém, de que tais bravatas somente redobram a confiança na utilidade pública do jornalismo livre. Fiquem advertidos de que tentativas de controle da imprensa serão repudiadas -e qualquer governo terá de violar cláusulas pétreas da Constituição na aventura temerária de implantá-lo.

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