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Os comícios acompanham as mudanças do PT

Nos comícios do PT em Porto Alegre alguns anos atrás eu ia com mãe e pai, que, apesar de separados, sempre se deram bem e continuaram petistas tantos anos depois de terem fundado o partido em Caxias do Sul. Eram no Largo da Epatur, hoje Largo Zumbi dos Palmares, na esquina da Perimetral com a República. Ficávamos na ruazinha do outro lado do largo, junto aos prédios, do lado esquerdo do palco (para quem está nele olhando para o público). Ali sempre encontrávamos gente. Muita gente. Alguns, em todos os comícios, figura carimbada. Mesmo antes de todos andarmos por aí com celulares, sempre nos encontrávamos, sem precisar marcar. E isso que os comícios sempre encheram de gente.

Depois passaram para o Largo Glênio Peres. O ponto de encontro, não determinado, mas que sempre acontecia por acaso, era perto da entrada do Mercado Público, do mesmo lado do palco que ficávamos na Epatur. Nunca combinamos isso, acontecia.

Multidão

Ontem não consegui chegar até lá. A quantidade de gente era tanta que no outro lado do palco, teoricamente mais livre, eu fui esmagada. O resultado foi que, pela primeira vez, assisti ao comício por um telão.

Assim como o PT, os comícios do PT mudaram com o tempo. Isso não é ruim. Veja bem, um partido que não tem a capacidade de se adaptar às transformações que a sociedade sofre é um partido estagnado. Mesmo com ideias revolucionárias, torna-se conservador.

As mudanças no comício decorrem também de uma mudança na sociedade. Uma mudança boa.

O perfil da militância

Anos 90

Não é só a quantidade de gente que foi multiplicada, mas mudou também o seu perfil. Nos anos 90 (não me atrevo a falar dos 80 porque meu primeiro comício foi em 89), via-se nos comícios um pessoal de esquerda por ideologia, esclarecido. Não era gente com grana, era classe média que entendia a importância de um partido dos trabalhadores. Não simplesmente PARA os trabalhadores, mas composto por eles.

2006

Na última eleição presidencial, quando o Lula já era presidente e tentava a reeleição, o comício já foi outro. Naquele ano podia haver showmício, e um show de uma dupla sertaneja (acho que Zezé de Camargo e Luciano) estava programado para depois das falas. O resultado foi que lotou, como sempre, mas o público era diferente. A oportunidade de assistir um show gratuito levou ao Glênio Peres muita gente que não queria saber de PT, mal sabia do que se tratava a conversa, não queria saber de comício. Era um pessoal que queria que o Lula parasse logo de falar para começar a cantoria. Notou-se claramente a divisão dos públicos quando o show começou e a parte que sempre foi aos comícios deixou o local.

Nesse ano, já se sentia diferença também pela ausência de algumas pessoas. Depois de crises no governo e a criação do PSOL, muitos antigos companheiros já não eram mais petistas.

2010

Mas a transformação mesmo veio agora. Os showmícios são proibidos, e o Largo Glênio Peres nunca encheu tanto de gente. Uma gente mais pobre, sim, uma gente que não ia a comícios antes. Mas que estava lá PARA ver o Lula, e não apesar dele. Encontrei pouca gente, mas isso porque a multidão era grande demais. Além dos petistas históricos, daqueles que apoiam algum candidato a proporcional, que fazem campanha, havia povo, simplesmente (não quero dizer que petista não é povo ou que povo não pode ser politizado, uso esses termos na falta de outros mais adequados, só para ilustrar melhor).

Eram pessoas que ingressaram na classe média, que saíram da pobreza. Que ganharam luz em sua casa, conseguiram emprego, financiaram a casa nova. Que colocaram o filho na universidade. Que melhoraram de vida e que enxergam no PT, mas principalmente em Lula as razões para essas mudanças terem acontecido.

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  1. luizmullerpt
    25/09/2010 às 12:59

    Muito bom o texto. Me senti nele. Embora eu seja desta gerações anteriores e andei tbm lá, muito antes da década de 80. Em todo caso, tomei a liberdade de reproduzir o texto no meu Blog. Na falta de criatividade pra escrever, e pra não deixar os que lêem meu Blog esperando, de vez em quando eu copio, não sem dar os créditos a quem escreveu, é claro.
    Abraço

    • 26/09/2010 às 15:04

      Vai fundo, Luiz. Estão sempre à disposição =)
      Abraço

  2. 26/09/2010 às 0:00

    Fiz a cobertura do evento para o Sul21. Me surpreendi com a quantidade absurda de pessoas – muita gente mesmo, mais do que eu esperava, tanto que chegar na área de imprensa foi um grande desafio. O Lula em si transformou-se numa estrela, uma figura carismática como há muito tempo não se via – provavelmente, desde os tempos de Getúlio Vargas. Por um lado, como alguém que aprecia os sucessos do governo, fico feliz; por outro, sou uma pessoa que sempre vê com cautela esse tipo de fenômeno. Impressionante, de qualquer modo, o brilho nos olhos dos presentes, como se estivessem vendo uma entidade, e não um homem de carne e osso. Ou talvez justamente isso: pessoas admiradas de ver, no meio da política sempre tão excludente, alguém que parece de carne e osso, como qualquer um deles, como qualquer um de nós. Quem sabe?

    • 26/09/2010 às 15:04

      Espero que seja essa última opção. É sempre bom ver que uma pessoa como qualquer outra, especialmente tendo vindo tão de baixo, é capaz de chegar lá. Aumenta a auto-estima do povo. Espero que seja assim =)

  1. 25/09/2010 às 12:54

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