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A “reportagem” de uma fonte só

Por que o que a Veja faz não pode ser chamado de jornalismo

Sei que chovo no molhado, mas acho importante dissecar aquilo que chamam de reportagem e que foi publicado naquilo que chamam de revista. A Veja publicou mais de 13 mil caracteres com o único e nítido objetivo de levar José Serra para o segundo turno. Como a campanha do tucano não emplaca pelo bem, que seja então na falcatrua. Já chegamos no vale tudo.

Para quem quiser acompanhar com o texto original, infelizmente, o único lugar que sei que publicou a íntegra é o Blog do Noblat. Pensei em postar aqui, mas vai contra meus princípios copiar a Veja.

A ideia é nos fazer crer que Israel, o filho de Erenice Guerra, que substituiu Dilma na Casa Civil, é um lobista do governo. Descoberto isso, parte-se para a conclusão evidente de que Dilma não presta.

De onde veio a certeza da informação?

O principal de tudo é de onde saiu a informação. Nunca se diz o que exatamente foi contado. Não é mostrado de onde os dados saíram, quais são os documentos mencionados, nada. Mais de uma vez, Escosteguy fala que entrevistou várias pessoas. Apenas um nome é explicitado. Os outros são só “clientes, lobistas, advogados, empresários”. A primeira citação, dessa única fonte, aparece quando já haviam sido digitados quase 9 mil caracteres. É do empresário que teria negociado com o filho de Erenice. Ainda assim, diz apenas que Erenice “deixou evidente” que tudo acontecia com seu aval e “senti que não estavam blefando”. Ou seja, o repórter Diego Escosteguy ouve relatos de uma fonte que não se sabe qual a credibilidade e que apenas entendeu que Erenice estava por dentro, supôs. Na Veja, isso vira certeza absoluta, afirmação contundente. O detalhe interessante da coisa é que essa fonte, o empresário Fabio Baracat, já desmentiu a história.

Vamos por partes

Comecemos pelo título: “O Polvo no poder”. Pelo menos, é de um baita mal gosto.

Apesar de o centro da história contada ser Israel, o filho, a foto no Blog do Noblat é de Erenice, a mãe. E no site da Veja é de Erenice com Lula. Ou seja, “olha aí, ele também faz parte, não esqueçam”. São as duas imagens que ilustram esse post. Peço perdão aos leitores, mas não comprei a edição impressa. Me recuso.

Linha de apoio: o tom é de certeza. O fato de o filho de Erenice Guerra ser lobista não é colocado como suposição nem a informação é atribuída a alguém. Ele simplesmente é, porque a revista diz, e ponto.

A primeira linha remete a uma reportagem de outra edição: quem falou que o que a Veja publica são reportagens? Já explico por que esse texto não pode ser chamado de jornalístico. O objetivo dessa retomada é mostrar como o PT tem amplo histórico de atos ilícitos, marcar isso na cabeça do leitor.

No segundo parágrafo aparece pela primeira vez a localização física do gabinete de onde atuava Israel, completamente insignificante, mas repetida incessantemente, por sacanagem, para ligar o ato ilegal ao presidente Lula, marcar bem a ligação. Afinal, se não tem nada concreto que ligue Lula e Dilma a falcatruas, liga-se do jeito que der. Inventa-se. Meu chefe trabalha na sala ao lado da minha e não sabe tudo o que eu faço. O que a matéria tenta sugerir é que Lula sabia porque estava logo ali embaixo.

Terceiro parágrafo: começa a forçar a ligação de Dilma com a questão. Apesar de ela não ser acusada de nada na matéria, Erenice a sucedeu na Casa Civil, então não votem em Dilma. O trecho “Lula inventou Dilma, que inventou Erenice, que é mãe de Israel” é só maldade. Pura. Para transferir a suposta culpa a todos os nomes relevantes na sucessão presidencial e que a Veja quer queimar.

“Num eventual governo Dilma, portanto, ela é presença certa”: isso é terrorismo. Quem disse? A afirmação é de Diego Escosteguy, que assina a matéria. Quem é ele para fazer uma afirmação dessas?

A citação do tal dossiê de 2008 que teria investigado Ruth Cardoso e FHC é uma tentativa de ligar a imagem do PT a dossiês, como sendo prática comum do partido. Vem sendo adotada pela imprensa de um modo geral.

“O empresário sabe que sem o empurrão de algum poderoso, por melhor que seja sua proposta em termos de custo e eficiência, ela não será nem analisada”: mais uma vez, quem disse? A ideia é mostrar que o governo só age por interesse. Tenta quebrar a imagem de competência, a que mais sustenta Dilma.

Mais uma vez, e já estamos no nono parágrafo, é descrito o andar do Planalto em que atuam, reforçando a proximidade com Lula.

Diego diz que esse tipo de ato é frequente nesse governo e em anteriores, mas que esse é diferente, por causa do destino do dinheiro que sobra para o filho de Erenice, os ditos 6% de “taxa de sucesso”. Ele iria para “saldar compromissos políticos”. Quando quero saber como era aplicado o “lucro” antes de Lula, para entender a diferença, fico no ar, isso não é explicado. Os erros descritos são apenas os do governo atual.

Em seguida, apela para o que mais incomoda a classe média típica: dinheiro. E dinheiro para impostos, que ela vê como se estivesse jogando no lixo. No caso, no bolso do PT. O texto tenta mostrar que o dinheiro de cada brasileiro saiu do seu bolso direto para o de Israel, o filho de Erenice, a assessora de Dilma, a inventada de Lula. Tenta aproximar do leitor comum, mostrar como ele é afetado diretamente, para ele criar mais raiva.

Um dos momentos divertidos é quando cita João Paulo Cunha, apresentado como “o deputado mensaleiro”, em um explícito juízo de valor. Ou quando descreve os carros de Israel. O fato de ter dois “carrões” no nome de Erenice torna óbvio, para Veja, que ele é corrupto. Claro.

Ou seja…

E é por tudo isso que esse texto não é uma matéria e muito menos pode levar o nobre nome de reportagem. Um texto desse tamanho, de tal importância política, com apenas uma fonte (que já desmentiu), recheado de juízos de valor e sem indicar a origem das informações não pode ser considerado jornalismo. É boato.

————–

Leituras relacionadas:

A Veja não é jornalismo, é panfleto sujo, do Tijolaço do Brizola Neto.

A Veja nossa de cada dia, d’O biscoito fino e a massa, blog de Idelber Avelar.

Dilma defende Erenice Guerra de denúncia da revista Veja, e Vaccarezza diz que quem usá-la vai cavar a própria cova, d’O Globo.

Em nota, ‘Veja’ diz ter gravações e documentos, do G1. Aham!

Sei que chovo no molhado e o que vou dizer já é consenso. Mas me sinto no dever de dissecar aquilo quechamam de reportagem e que foi publicado naquilo que chamam de revista. A Veja publicou mais de 13 mil

caracteres com o único e nítido objetivo de levar José Serra para o segundo turno. Como a campanha do

tucano não emplaca pelo bem, que seja então na falcatrua. Já chegamos no vale tudo. Fica mais fácil

acompanhar o ponto a ponto com o texto em mãos. Infelizmente, o único lugar que sei que publicou a íntegra

é o Blog do Noblat, então é preciso dar audiência para ele. Ainda assim, é menos ruim que comprar a edição

impressa. Pensei em postar aqui, mas vai contra meus princípios copiar a Veja.

Comecemos pelo título: “O Polvo no poder”. Mal gosto é pouco para descrevê-lo.

Linha de apoio: o tom é de certeza. O fato de o filho de Erenice Guerra ser lobista não é colocado como

suposição nem a informação é atribuída a alguém. Ele simplesmente é, porque a revista diz, e ponto.

Primeira linha: quem falou que o que a Veja publica são reportagens? Já explico por que esse texto não pode

ser chamado de jornalístico.

Segundo parágrafo: a localização física é insignificante. A tentativa é de ligar o ato ilegal ao presidente

Lula.

Terceiro parágrafo: começa a forçar a ligação de Dilma com a questão. Apesar de ela não ser acusada de nada

na matéria, Erenice a sucedeu na Casa Civil, então não votem em Dilma. “Lula inventou Dilma” é só maldade.

Pura.

Repete a localização física, por sacanagem, para marcar bem a ligação. Afinal, se não tem nada concreto que

ligue Lula e Dilma a falcatruas, liga-se do jeito que der. Inventa-se. Meu chefe trabalha na sala ao lado

da minha e não sabe tudo o que eu faço. O que a matéria tenta sugerir é que Lula sabia porque estava logo

ali embaixo.

“Num eventual governo Dilma, portanto, ela é presença certa”: isso é terrorismo. Quem disse? A afirmação é

de Diego Escosteguy, que assina a matéria. Quem é ele para fazer uma afirmação dessas?

A citação do tal dossiê que teria investigado Ruth Cardoso e FHC é uma tentativa de ligar a imagem do PT a

dossiês, como prática comum do partido. Vem sendo adotada pela imprensa de um modo geral.

“O empresário sabe que sem o empurrão de algum poderoso, por melhor que seja sua proposta em termos de

custo e eficiência, ela não será nem analisada”: mais uma vez, quem disse? A ideia é mostrar que o governo

só age por interesse. Tenta quebrar a imagem de competência, a que mais sustenta Dilma.

A repetição das ideias “lobista”, “assessora de Dilma”, “futura ministra” e outros do tipo são para

reforçar a ligação do governo e da candidata governista com atos ilícitos. Mais uma vez, e já estamos no

nono parágrafo, é descrito o andar do Planalto em que atuam, reforçando a proximidade com Lula.

Diego diz que esse tipo de coisa é frequente nesse governo e em anteriores, mas que esse é diferente, por

causa do destino do dinheiro que sobra para o filho de Erenice, os ditos 6% de “taxa de sucesso”. Ele iria

para “saldar compromissos políticos”. Quando quero saber como era aplicado o “lucro” antes de Lula, para

entender a diferença, fico no ar, isso não é explicado. Os erros descritos são apenas os do governo atual.

Em seguida, apela para o que mais incomoda a classe média típica: dinheiro. E dinheiro para impostos, que

ela vê como se estivesse jogando no lixo. No caso, no bolso do PT. O texto tenta mostrar que o dinheiro de

cada brasileiro saiu do seu bolso para o de Israel, o filho de Erenice, a assessora de Dilma, a inventada

de Lula.

Um dos momentos divertidos é quando cita João Paulo Cunha, apresentado como “o deputado mensaleiro”. Ou

quando descreve os carros de Israel. O fato de ter dois “carrões” no nome de Erenice torna óbvio, para

Veja, que ele é corrupto. Claro.

O principal de tudo é de onde saiu a informação. Nunca se diz o que exatamente foi contado. Não é mostrado

de onde os dados saíram, quais são os documentos mencionados, nada. Mais de uma vez, fala que entrevistou

várias pessoas. Apenas um nome é falado. Os outros são só “clientes, lobistas, advogados, empresários”. A

primeira citação aparece quando já haviam sido digitados quase 9 mil caracteres. É do empresário que teria

negociado com o filho de Erenice. Ainda assim, diz apenas que Erenice “deixou evidente” que tudo acontecia

com seu aval e “senti que não estavam blefando”. Ou seja, Diego Escosteguy ouve relatos de uma fonte que

não se sabe qual a credibilidade e que apenas entendeu que Erenice estava por dentro, supôs. Na Veja, isso

vira certeza absoluta, afirmação contundente.

E é por isso que esse texto não é uma matéria e muito menos pode levar o nobre nome de reportagem. Um texto

desse tamanho, de tal importância política, com apenas uma fonte (que já desmentiu) e sem indicar a origem

das informações não pode ser considerado jornalismo. É boato.

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  1. luizmullerpt
    12/09/2010 às 21:13

    A Grande mídia cada vez mais “porca”. Não difere da RBS e Zero Hora, que apesar do escândalo do BANRISUL, que atinge gente graúda do PSDB e do PMDB no estado, se faz de cega, surda e muda. Mas não deixa de citar a infâme matéria da Veja, que falas. É urgente construirmos meios de comunicação alternativos, cuja pauta se anteceda aos ataques e a má fé da grande mídia.

  2. 13/09/2010 às 19:42

    Cris tenho estado por aqui. O próximo grande passo é aglutinar forças para a democratização da midia. Os textos do Comparato e do José Pablo Feinmann – nos estimulam.
    http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/09/08/comparato-por-que-ir-ao-supremo-e-exigir-o-direito-de-se-comunicar/

    http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16923 “Uma analise do poder mediático na Argentina”

  1. 12/09/2010 às 21:26
  2. 13/09/2010 às 14:03

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