Para que servem as utopias?

Em tempos em que conceitos como direita e esquerda são questionados constantemente e muitos dizem que há uma crise das ideologias, vale a pergunta: e as utopias, ainda existem?

Daniel Cohn-Bendit é do partido ecologista alemão, deputado do Parlamento Europeu e um dos líderes do movimento de 1968, e falou ontem à noite em Porto Alegre sobre utopias, as antigas e as novas. Elas existem, mas não são as mesmas.

“Esqueçam 1968!”, disse, porque não podemos nos deixar dominar por uma nostalgia, uma ideologização do passado, por mais bonito e importante que ele tenha sido. Mas isso não significa que as utopias deixaram de existir. “Não quero perder os sonhos.” Para ele, as utopias têm a função de nos mostrar que outro mundo é possível, que as coisas não vão ser sempre como elas são hoje.

Tendência totalitária versus democracia

As utopias são fortes, mas é preciso ver a força da realidade que está por trás delas. Como geralmente essa realidade não é enxergada, a tendência, na opinião de Cohn-Bendit é de que as utopias conduzam a regimes totalitários, até porque normalmente se quer uma sociedade radicalmente melhor, e logo. “Querer conquistar a liberdade a qualquer custo, na marra, é a grande armadilha das utopias.”

Por isso, ele defende até que saibamos lidar com a derrota. Sabe que o movimento ambientalista é resultado de uma das utopias dos tempos atuais, mas que, para que essa utopia seja implementada, são necessárias grandes mudanças na vida das pessoas. Muitas vezes elas não querem, e isso faz parte da democracia. Se há algo que possamos dizer que Cohn-Bendit defende de forma ferrenha é a democracia, com suas instituições, com sua estrutura, seus movimentos sociais. Acima de tudo, o voto. Conta que foi anarquista por muito tempo, até que entendeu que os movimentos sociais são necessários, que as pessoas precisam definir coisas concretamente e por isso precisam das instituições.

Utopias de hoje: Europa e meio ambiente

Sobre as utopias de hoje, destaca duas que valem a pena defender: a Europa, em seu modelo de integração entre as nações que faz com que seja impossível acontecer guerras lá dentro; a transformação ecológica, que depende de transformações na vida das pessoas, no seu cotidiano e no nosso modo de produção. Mas essas mudanças não podem ser implementadas contra a vontade das pessoas, e aí é que está a grande questão: “temos que desafiar a sociedade de forma democrática”.

“Precisamos esquecer as utopias antigas, mas utopias são necessárias, ancoradas na realidade, para dar força para as transformações políticas. O que move as utopias é o prazer pela vida.”

Por isso que Woodstock deu certo. Porque, movido pelo prazer pela vida e calcado em uma grande diversidade, o movimento conseguiu ganhar força para lutar contra a Guerra do Vietnã.

“Se vamos conseguir realizar tudo, não sei. Mas sei que vale a pena lutar para conseguir.”

América Latina

Por fim, Conh-Bendit foi perguntado sobre a América Latina, se a Europa seria um modelo de integração para o nosso continente. Sua resposta foi curta e rápida: “Sim, sim, sim!”. Mas com uma ressalva: isso não se impõe a partir de fora, é preciso ter forças internas para construir a integração.

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  1. Ismael
    24/08/2010 às 22:40

    Belo texto.

    Na informática se vive muito disso.

    Cada vez que alguém começa algum projeto de Software Livre, tem um pelotão para desestimular. Tem os que fazem isso porque se a utopia der certo, afeta seu mercado.

    Esses, embora ache uma atitude covarde, eu ainda entendo, tem a motivação de $empre.

    O triste mesmo são os detratores que o fazem de graça. Há algum tempo eu levo a sério que realmente existe muita gente que não gosta que ninguém se destaque para poder ficar na sua mediocridade.

    Mas voltando as utopias, ou nem tão utópicas… As vezes por mais distante que um sonho seja, vale a pena tentar, tendo os pés no chão e iniciativa.

    Pessoal do Firefox, do WordPress e tantos outros também começaram pequenos e devem ter ouvido muita chiadeira. Ou de repente não ouviram nada e por isso mesmo se deram bem, concentraram no que importava :) .

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