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Rosane de Oliveira defende FHC, mas engana o leitor

Pelo menos ela é honesta. Não condeno Rosane de Oliveira por defender Fernando Henrique Cardoso na Página 10 de Zero Hora. Rosane não disse com todas as letras que é eleitora de Serra, mas para bom entendedor…

Ela lamenta que Serra esteja se desvinculando da imagem de FHC. E aí vejo dois motivos: primeiro, ela fica triste pelo próprio FH, escanteado; segundo, teme uma possível derrota de Serra. Critica a campanha tucana, mas quase como elogiasse, tipo mãe quando briga porque o filho fez arte. Fora que não é um argumento lá muito inteligente, dada a baixa popularidade do ex-presidente. Quando terminou seus oito anos, os brasileiros queriam mudança, não continuidade.

Tudo bem, Fernando Henrique foi o responsável pela estabilização econômica que Rosane evoca. Estabilização forçada, que afundou o Brasil três vezes, acompanhada de uma política econômica neoliberal que vendeu estatais e diminuiu a influência do Estado na vida da sociedade. O que significa sucateamento dos serviços públicos, saúde caótica, educação fraca…

Privatizações

Mas Rosane defende a privatização. Enfaticamente, aliás. Afinal, “antes do governo FH, um telefone fixo chegava a custar US$ 3 mil no mercado paralelo e um celular que hoje se compra em supermercado era artigo de luxo pelo qual se tinha de esperar quatro ou cinco anos”. Ela só esquece que esse resultado é fruto de uma gestão privada eficiente, interessada no lucro, que sucedeu uma gestão pública ineficiente. Mas que poderia ter sido boa, bastava querer. E FHC não quis, preferiu vender.

Popularidade: Rosane mente!

Mas o problema mais grave da coluna de Rosane é que ela mente. Diz que “nos últimos anos, o PT fez um minucioso trabalho de desconstrução da imagem de FH”, como se ele tivesse terminado seu governo em alta e sua imagem tivesse sido detonada por uma campanha petista. Acontece que Fernando Henrique deixou a Presidência em 2002 com 26% de aprovação, medida em dezembro daquele ano pelo Datafolha. De acordo com os cientistas políticos Rubens Figueiredo e Ciro Coutinho, “a popularidade de seu governo foi corroída no segundo mandato, quando ocorreram, em 1999, a crise cambial, com a conseqüente desvalorização do Real e, em 2001, o racionamento de energia”. Ou seja, o PT não fez com FHC o mesmo que a RBS fez com o PT no Rio Grande do Sul, aquela campanha traiçoeira que gerou um antipetismo tão arraigado nos gaúchos.

popularidade fhc

Apenas a título de informação: pesquisa CNI/Ibope de 23 de junho diz que Lula tem 85% de popularidade. Então não me venha Rosane de Oliveira insinuar que os dois presidentes deixam o cargo da mesma forma.

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  1. Cleberson Silva
    19/07/2010 às 21:48

    “Ela só esquece que esse resultado é fruto de uma gestão privada eficiente, interessada no lucro, que sucedeu uma gestão pública ineficiente. Mas que poderia ter sido boa, bastava querer. E FHC não quis, preferiu vender.”

    O problema é que a máquina pública é naturalmente ineficiente, em virtude da vasta gama de mecanismos de controle e de normas que ela precisa seguir, como licitações, admissão de pessoal via concurso público, impossibilidade de demissão de maus funcionários, salvo em casos extremos, desvio de finalidade para atender interesses corporativistas, ingerência política, aparelhamento partidário, e isso sem falar na corrupção que, infelizmente e invariavelmente, sempre acaba acontecendo (e o modelo político brasileiro ainda colabora, já que o partido vencedor da eleição para o Executivo – PT ou PSDB, tanto faz – não consegue governar sozinho: sempre precisa chamar o PMDB para a base aliada, e ele cobra seu preço).

    Lógico que tem áreas em que a presença estatal, ainda que pouco eficiente, se faz necessária em qualquer hipótese, como segurança pública e educação, por exemplo.

    Mas em outras áreas, como telecomunicações, mineração, exploração de petróleo e geração de energia, que são atividades econômicas e não serviços públicos, a presença estatal é dispensável mesmo. Vale mais a pena deixar a atividade por conta da iniciativa privada (com forte regulação, claro), proporcionando uma prestação de serviço de melhor qualidade para a população e empregando o dinheiro obtido com tributos naquilo que for papel do Estado.

    Sobre a imagem do FHC que ficou na memória do brasileiro médio, ela é reflexo direto do fraco desempenho econômico pelo qual passou a economia brasileira durante seu segundo mandato, que ocorreu também no primeiro mandato do Lula. Foi o custo do brutal aperto monetário feito nos anos 90 para estabilizar a economia, com a taxa básica de juros nas alturas, chegando a mais de 20% ao ano. Custou a popularidade de um presidente, mas pelo resultado colhido hoje, se vê que valeu à pena.

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