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O discurso conservador de Marina Silva

Quatro anos atrás, Heloísa Helena serviu direitinho aos interesses da direita. Saiu como oposição ao governo do qual fizera parte, mas do qual saíra brigada, por não concordar com a política posta em prática. Saiu com propostas mais à esquerda, que serviram à direita por dividir, polemizar, tirar votos de Lula. Talvez o metalúrgico tivesse ganhado ainda no primeiro turno, vai saber… Mas tudo bem, faz parte da política, e não contesto a posição do PSOL. Acho que foi honesta, apesar de não ter se mostrado muito inteligente (vide o encolhimento do partido que se seguiu a isso e não parou desde então).

Marina Silva, hoje, serve igualmente à direita. Mas com duas diferenças fundamentais. Primeiro, porque saiu do governo “de bem” com Lula, e virou verde – e oposição – por interesses eleitorais, coisas que eu não imaginava que ela faria. O PV, no Brasil, apesar de ancorado na nobre causa do ambientalismo, é um partido oportunista, estilo PTB.

A segunda diferença de Marina para Heloísa é que Marina serve à direita também no discurso. É contra o aborto, não se posiciona muito com relação aos homossexuais, esses dias justificou as privatizações de FHC, e a cada dia aparece uma peripécia nova. Exemplos do Painel RBS realizado essa semana deixam isso bem claro.

Da Zero Hora de ontem (19), páginas 4 a 6:

Gostaria de saber se isso inclui o neoliberalismo, não só adotado pelo país, mas imposto ao resto do mundo como forma de consolidar sua hegemonia; a política de bem estar social, que beneficia a classe média enquanto aumenta a pobreza; o racismo; a exploração de imigrantes; a política armamentista; a expansão a qualquer custo e a qualquer pretexto; a caça aos que pensam diferente (macartismo, guerra com URSS, perseguição a guerrilheiros, invasão a Cuba); a promoção da quebradeira de outras nações, a começar por Cuba, através de um bloqueio direto e a culminar com a Argentina, através de sanções econômicas; o desenvolvimento de armas nucleares; a busca incessante pelo acúmulo desenfreado e sem objetivo, traduzido na especulação etc. etc. etc.

Opa, peralá, defende alianças até com PSDB, mas critica PT por coligar com setores do PMDB. Como escolher os “melhores de cada legenda”. Marina, política de alianças é negociação, e o partido atua como um todo. Com divergências internas, mas normalmente se tira uma posição geral. Não tá vendo isso agora na coligação que vai lançar Dilma com Temer? No RS, é parecido, o PMDB está todo dividido no apoio ao candidato a presidente, mas deve tomar uma única posição antes das eleições. Visivelmente, Marina está querendo agradar a direita sem perder o discurso (falso) de moralidade que a sustenta.

Essa é só pra constar o que a maioria já sabe e que eu acho um desaforo. Crenças à parte, Assembleia de Deus é sacanagem.

Então quer dizer que no principal arrimo do projeto de Marina ela tropeça? Até na parte ambiental já está fazendo concessões para agradar todos os setores. No discurso dos transgênicos, o que orienta são os interesses de mercado: vale produzir um pouco de orgânico e um pouco de transgênico porque se pode vender tanto para quem prefere um quanto para quem gosta de outro. E o meio ambiente? E a saúde?

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  1. Mathias Rodrigues
    20/05/2010 às 13:12

    Tanto diminuiu o PSOL que elegerá mais deputados nesse ano que em 2006…

  2. Natália Pianegonda
    20/05/2010 às 22:03

    E ainda tem gente que quer votar nela por ser uma alternativa, sem pensar em cinco por cento dessas coisas. Me diz: por que o Temmer como vice da Dilma, meu Deus?

  3. alves rodrigues
    20/05/2010 às 23:38

    Será que é mesmo verdade que o PSOL está diminuindo? Não tenho tanta certeza.
    A aprovação do fim do Fator Previdenciário é uma espécie de xeque-mate da oposição ao governo. Oposicionistas sonham em ver o Lula vetar o projeto. Sabem do custo eleitoral de tal veto.
    Eu, lá em 2001, votei em Lula inteiramente convencido de que esse famigerado fator teria vida curta em seu governo. Lula já teve uma chance de acabar com ele, não o fez, se desta vez não o fizer de novo não terá como se justificar. E o governo que não venha com números, cifras, percentagens e estudos de deficits, isso é argumento de economista néo-liberal.
    Vai haver uma grande migração de votos de petistas decepcionados, e eu não vejo outro partido mais provável para receber estes votos migrantes do que o PSOL.
    Talvez isso não apareça já nesta próxima eleição, tá muito perto, mas no futuro, quem sabe?

  4. 21/05/2010 às 9:10

    Nati, se tu descobrir me avisa, tá?

    Alves, olha, acho que os que podiam deixar o PT em função de decepção já tiveram oporunidade suficiente pra isso. Quem queria sair já saiu. Concordo que o veto ao fim do fator previdenciário vai ser difícil de engolir – e vai me deixar triste, de fato -, mas não mais difícil do que outras coisas que já aconteceram. Quando digo que o PSOL diminuiu, vejo pela representatividade do partido em período eleitoral, principalmente. Quatro anos atrás, Heloísa Helena era um nome importante, a terceira posição na disputa, com um bom número nas pesquisas. Hoje, quem assume esse papel é a Marina, e a votação do Plínio promete ser bem minguada. Mas mais que números, o PSOL incomodava na última eleição. Questionava, apontava os problemas. Agora, não vejo muito espaço para o que dizem os integrantes do partido. Sinceramente – e não estou defendendendo que seja assim, estou só observando – acredito que é uma meia dúzia que ouve o que diz o PSOL hoje.

  5. 22/05/2010 às 11:20

    Penso que marina Silva apenas mostrou sua verdadeira face. Quando saiu do geovrno diz que o fez porque Lula estava cedendo ao poder financeiro e ela estava amarrada na luta contra a destruiçao do meio ambiente.
    Passo seguinte, se alia exatamente aqueles que dizia serem seus adversarios.
    Esta falta de coerencia, e este discurso defendendo o PSDB é o final de sua carreira.

  6. 23/05/2010 às 21:59

    Marina Silva é figura exemplar: íntegra, sensível não só às questões ambientais como às sociais.

    Mas no seu pragmatismo político está errando feio: em vez de se colocar como alternativa à horrorosa, pobre polarização fomentada pela mídia e pelos dois lados entre PT e PSDB, está se colocando como síntese das duas partes.

    Ah, quanto à opção religiosa dela, acho que criticar isso é repetir aquilo que a gente condena nos outros em outras questões: beira o preconceito. Por que “Assembleia de Deus é sacanagem”?

    • 24/05/2010 às 9:43

      Sobre a Assembleia de Deus, é sacanagem por causa disso:

      http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4428407-EI7896,00-Pastor+evangelico+compara+uniao+gay+a+zoofilia+e+necrofilia.html

      http://www.adonainews.com.br/2010/04/06/clube-de-um-milhao-de-almas/

      http://congressoemfoco.uol.com.br/noticia.asp?cod_canal=1&cod_publicacao=32777

      Mas achei muito interessante essa ideia de a Marina se colocar como síntese em vez de alternativa. Bem pensado. Só que acho que integridade e sensibilidade não garantem um bom projeto político. Tem muita gente de direita e íntegra. Acho que tem que combinar tudo: integridade, sensibilidade e um projeto político progressista, voltado para o social, que não vejo em Marina.

      • 25/05/2010 às 0:14

        Cris, elaborei mal a pergunta.

        Na verdade eu quis perguntar, “por que Marina Silva ser da Assembleia de Deus é sacanagem?”.

        Porque, as mesmas mazelas que a Assembleia de Deus tem, e a Igreja Católica, por exemplo, tem; as que não, são substituídas por outras. A Igreja Católica condena a união gay, condena o uso de camisinha, hesita em apurar pedofilia, sustentou a escravidão por séculos.

        Agora, nota como há uma “religiãofobia” quando a gente se refere aos evangélicos. Marina ser da Assembleia de Deus é “sacanagem’, Kaká ser da Renascer “é sacanagem”. Mas ninguém diz, putz, o Lula, nosso presidente, popularíssimo, mas é da Igreja Católica, sacanagem. A Dilma, é da Igreja Católica, sacanagem. Porque a gente condena com tanta facilidade, naturalidade e veemência só os evangélicos por seguirem uma religião com desacertos? Não que eu defenda, para compensar essa tendência, a gente condenar a opção nem de evangélicos, nem de católicos, nem espíritas, umbandistas ou ateus, até porque todos esses caminhos têm seus acertos e erros; o que acho fobia é a tendência que o senso comum tem de discriminar, por terem optado por essa religião, de antemão, os evangélicos.

        Bom, era isso…

  7. Riste Negro
    29/07/2010 às 1:29

    Oi, acho que o que marina se refere na primeira citação não é o que você apontou, e sim estar na vanguarda da agenda mundial.

    Digo, os EUA foram a imagem do século XX com seus méritos e desméritos.

    Acredita-se que a nova agenda trate de maneira séria o que ainda chamamos, com conotação negativa, de verde e de sustentável. Isso ainda não houve em nenhum lugar a peso de influência global.

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