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Entre a esperança e a frustração da utopia e da barbárie

Utopia, barbárie. Esperança, frustração.

Os sentimentos se alternam durante todo o tempo do ambicioso filme de Silvio Tendler. Ambicioso porque quer dar conta de muito, e tem muito material de excelente qualidade, mas é impossível resumir um século em 120 minutos. Especialmente um século como o XX.

Hobsbawm chamou-o de breve. Teria começado em 1914, terminado em 1989, talvez. Ainda que breve, intenso, complexo, cheio, completamente entupido de transformações. Apenas nas ideologias, já vamos longe. Estruturalismo, existencialismo, marxismo, marxismo-leninismo, materialismo, humanismo, feminismo, pós-modernismo. Em economia, apenas capitalismo e socialismo são suficientes para preencher milênios. Ou horas de filme.

Tendler foca em Brasil, é verdade. Trata bastante do período da ditadura, fala bastante em América Latina, mas ainda tenta abarcar demais o resto do mundo. Não sei como eu faria, não diminuo a importância, a relevância do filme. De uma força que me deixou completamente atordoada.

Eu sabia do que se tratava, que renderia comentários. Fui ao cinema planejando um post depois. Mas saí de lá sem a menor ideia de por onde começar. Parecia que cada frase suscitava uma reflexão inteira, um post só seu. Minha vontade seria de assistir de novo, uns 10 minutos por dia, e divagar em cima daquele pouco tempo de imagens e sons. A cada 10 minutos, um texto novo, uma nova viagem pela história, pela política, pela filosofia, pela vida.

Alguns momentos foram bem marcantes. A frase de Dilma sobre quando saiu da cadeia, por exemplo. Em vez de felicidade, sentiu solidão. Não estava livre, ainda vivia em uma ditadura. E sabia que todas as pessoas que conhecia – foi bem isso que ela disse, todas – ou estavam na cadeia ou fora do Brasil ou mortas. Forte.

Em certos momentos, senti que tínhamos um futuro lindo pela frente. Porque ainda existia utopia, porque tinha gente que lutava, porque pessoas sonhavam. Sonharam em 1968, sonham hoje e vão sonhar amanhã, sempre. Mas em outros…

Momentos de grande esperança contrastaram com outros de profunda frustração. O Estado de Israel, almejado por um povo sempre perseguido, humilhado. Kibutz, uma ideia socialista. A filosofia kibutziana prevê divisão do trabalho, divisão da terra, divisão de tudo. Sem salário, sem desigualdade. Funcionou algum tempo. Pouco.

Hoje, os kibutzim cresceram, viraram empresas. Grandes empresas prósperas e capitalistas, com muito mais trabalhadores, todos assalariados. E de repente alguém diz lá pelo meio do filme que a utopia de Israel deixou de existir quando se tornou real. Então, as utopias são só isso mesmo, utopias? Um sonho não vira realidade? Não encontrei exemplos para comprovar o contrário.

Difícil expressar o tanto de sentimentos que ficaram depois do filme. Não sei se nesse texto está o que eu queria dizer. Nem sei o que eu queria dizer. Pela cabeça, já passaram várias abordagens, várias formas de lidar com tanta informação. No fim, sentei e escrevi. O que vinha na hora, o que eu sentia no momento. Ideias soltas jogadas ao léu. Talvez confusas.

Utopia ou barbárie. Esperança ou frustração. Difícil saber pra qual lado pendeu mais a balança. Cabe a nós decidirmos agora que reflexão será feita no fim do XXI.

  1. Cristóvão Feil
    10/05/2010 às 12:09

    Cris, acho que foi o Galeano que disse, no filme. A História é uma senhora lenta. Nós temos a veleidade de querer acelerar os seus passos lerdos. (Uma pretensão leninista.)
    Mas é tudo inútil.

    Abç.

    CF

  2. 15/05/2010 às 20:58

    Para falar com exatidão, Hobsbawm diz que o século XX terminou em 1991, com o fim da URSS. Mas acho 1989 um marco mais adequado mesmo (olha o “sacrilégio”, estamos contestando Hobsbawm, hehe!).

    Pretendo assistir ao filme na segunda, aí depois escrevo sobre ele…

  1. 14/05/2010 às 11:09
  2. 25/05/2010 às 16:10

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