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Uma outra cidade é possível – parte II

Continuando a discussão, para se planejar as cidades – e para falar disso parto de Porto Alegre, mas amplio o debate para as grandes cidades do mundo – há que se considerar a imensa quantidade de gente vivendo na pobreza. Cerca de um bilhão de pessoas, segundo o arquiteto urbanista do Instituto Pólis Kazuo Nakano, na Le Monde Diplomatique Brasil do mês passado.

Betânia Alfonsin coloca em dois lados opostos os interesses do capital imobiliário e os interesses da cidadania. Parece óbvio, já estamos acostumados a pensar o mercado como um mecanismo autônomo, que deve correr livre e solto. Não parece fazer sentido impedir quem tem dinheiro de comprar, de construir, de fazer acontecer. Até porque, em alguns casos, essas iniciativas trazem dinheiro para a cidade, para o estado. Mas é um dinheiro que não é bom, que não compensa. Porque em troca vem a elitização do espaço urbano, que valoriza apenas os interesses de uma minoria endinheirada. O papel do governo é impedir isso, regular, criar normas.

A extrema pobreza de que Nakano falava vem acompanhada de uma bagunça urbana, com moradias precárias e toda a situação que acompanhamos muito bem na recente tragédia no Rio de Janeiro, por exemplo. As residências são segregadas, há uma divisão social muito nítida na configuração do espaço urbano. Esses “padrões desiguais, precários e predatórios de urbanização” são causados justamente pela desregulação do mercado de que fala Betânia. “É necessário regular as forças do mercado para evitar ataques especulativos e ampliar o acesso adequado ao solo nas cidades, em especial nas partes centrais”, diz Nakano. Para satisfazer os interesses da cidadania, aqueles da Betânia.

Isso não vem acontecendo nas cidades brasileiras. Aqui o melhor exemplo é São Paulo, que mostra muito claramente a divisão entre Centro e periferia, mas também Porto Alegre, Salvador, qualquer das grandes. A ideia é afastar o feio de quem tem dinheiro. Ou seja, tirar dos olhos da classe média as favelas, os pobres. Uma matéria de Rodrigo Martins na Carta Capital sobre o descaso no Rio de Janeiro é explícita: esse modelo, que começou com Carlos Lacerda, no Rio, mostra “o quanto o País é governado por uma minoria e para uma minoria”. No Rio de Janeiro, a favela é do lado do bairro nobre. Solução: murar as favelas para não atrapalharem a vista. Em São Paulo, empurrar para longe. Longe do trabalho, que fica no Centro, longe de condições de vida decentes.

Continua…

  1. Ainda sem comentários.
  1. 15/04/2010 às 21:21

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