Conversa de bar

Hoje fez uns 35ºC. O chope gelado no calor de Porto Alegre. Um bando de jornalistas, que, por definição, não entendem de nada, mas sabem de tudo. Filosofia de boteco na certa.

Mas até que hoje o assunto estava bem dentro da área. Tecnologia, ferramentas de internet, relações sociais na rede, utilização de todas essa novidades no exercício do jornalismo. Quais são os limites? Como lidar com tudo isso?

Por exemplo, onde termina o trabalho de jornalista e entra a parte que qualquer pessoa pode fazer? A participação já toma conta da rotina de trabalho. Não é mais a exceção receber pautas de um leitor. E isso não fica só nos bastidores nem em sites específicos, está cada vez tomando mais conta do dia a dia do repórter. O leitor é o repórter.

Mas pior. A tecnologia não nos leva apenas a inflexões sobre o caráter da profissão. Ao mesmo tempo em que a internet democratiza, amplia a quantidade de vozes e a possibilidade de elas serem escutadas, lidas, vistas, qualquer coisa, ela também angustia. Angustia muito. Não só a internet, mas o excesso de informações, a sociedade pós-moderna, a quantidade infindável de letrinhas pululando por todos os lados.

Para me manter bem informada, tenho que ler jornais diários – pelo menos uns três, já que sou jornalista -, revistas semanais – o ideal seria saber das quatro principais -, veículos mensais – só deus sabe quantos -, livros. E isso sem contar os blogs. Ah, esses são pra matar. Tem muitos, e muita porcaria misturada no meio de muita, muita coisa boa.

Por ora, ando desempregada, e ainda assim não dou conta disso tudo. Fico imaginando quando eu estiver trabalhando. Já não consigo ter uma noção de como vai ser, embora não seja meu primeiro trabalho. Mas acontece que, desde meus estágios até agora, as coisas já evoluíram, milhões de ferramentas surgiram, as letrinhas essas se multiplicaram.

E não são só os textos, mas também as ferramentas mais recentes – e já antigas, pelo conceito pós-moderno de tempo. Orkut – ultrapassadíssimo, e mais entretenimento do que atualidade -, Facebook, MySpace, Twitter, LinkedIn, Buzz. Essas são as que eu sei o nome, mas já não domino tantas outras. E o Brasil é o sétimo país no mundo em que as pessoas gastam mais tempo em redes sociais.

Importantes. Sem dúvida, fundamentais. O Twitter foi subestimado por mim no começo, mas hoje valorizo cada minuto “desperdiçado” nele, vejo um incrível potencial na transmissão de informações fora das fontes oficiais e do circuito comercial. É jornalismo alternativo. Saca o Pasquim? Hoje é o Twitter, só que a gente não domina mais o que acontece. Não tem como editar o Twitter. Mas é ali que as vozes dissonantes têm vez.

Só que não conseguir ler tudo isso e ainda postar no blog todos os dias e ainda trabalhar, e ainda comer, e ainda sair, e ainda viver, angustia demais. Parece que eu nunca vou dar conta de tudo que eu tenho pra fazer. De repente se inventarem um remedinho novo que me faça não precisar dormir…

—–

Mas disse Clarice Esperança, no Jornalismo B: “Sempre me lembro de um trecho do Hobsbawm sobre a Rev. Francesa: ‘Não foi uma fase cômoda para se viver, pois a maioria dos homens sentia fome e muitos tinham medo; mas foi um fenômeno tão terrível e irreversível quanto a primeira explosão nuclear, e toda a história vem sendo, permanentemente, transformada por ele.’

Mal comparando, a idéia do texto foi pensar um pouco que estes tempos complicados que vivemos, como profissionais de jornalismo, são tb tempos riquíssimos em termos de transformações e, por conseguinte, possibilidades. E, sim, claro, não é fácil. Mas pode ser legal.”

Então, fica o consolo de que o momento é histórico, sim. De que nunca uma revolução tão grande aconteceu na comunicação. E de que, diabos, eu resolvi trabalhar com comunicação na época em que o principal assunto do mundo são formas de se comunicar. Se vamos enlouquecer no fim das contas? É, talvez.

  1. 20/02/2010 às 21:15

    Cris, dá pra usar alguns servicos de tecnologia pra ajudar ainda. Encontre as boas ferramentas pra concentrar e filtrar todos os “feeds”, existem diversos eu uso my.opera.com.

  2. 21/02/2010 às 12:26

    Para o meu gosto, o momento é mágico. A gente tem que achar o caminho no meio dessa confusão toda, sim, mas só o fato de estarmos no meio disso já é um estímulo e um desafio. E bem, eu sou contrário à ideia do “jornalista tem que saber de tudo”: acho que jornalista tem que QUERER saber de tudo. A curiosidade é tanto (ou possivelmente mais) importante do que o conhecimento, no nosso caso…

  3. 21/02/2010 às 20:35

    Sim, concordo plenamente. Só q eu tenho trocentos livros, assino revistas, quero ler tudo, mas não dá tempo. E sempre tem mais e mais. O problema não é q seja por obrigação, mas dá vontade de ler e saber mto mais do q a gente dá conta. Tudo bem q isso não é ruim, mas dá uma angústia…

  4. 21/02/2010 às 22:15

    Cris, muito legal ver um depoimento tão honesto sobre esse assunto, num momento em que muita gente ainda vê como algo “glamouroso” consumir tudo e produzir nada. Senti algo semelhante há uns anos atrás, e hoje me parece se tratar de algo que se dá em determinada fase da juventude.

    Tem até um evento que me marcou bastante. Estavam numa mesa debatendo questões de política contemporânea, isso em outubro de 2006, Marilena Chauí e Plínio de Arruda Sampaio, entre outros. O Plínio fez uma crítica ao MEC e, ao concluir, Marilena pediu a palavra e saiu em defesa do governo federal, apresentando fortes argumentos. Despido de qualquer vaidade, o Plínio admitiu não ter conhecimento do que ela tava dizendo e que iria rever sua posicão em face daqueles fatos novos.

    Eu achei aquilo um momento muito bonito até porque, nossa elite política além de um enorme ego, é também capaz de processar um enorme volume de informacão com rara agilidade.

    De uma perspectiva mais filosófica, acho que isso tem a ver com a nossa ansiedade e pouca maturidade pra lidar com a perda. Comecei a diagnosticar melhor isso depois do contato com Confúcio e os Anacletos. Me parece que nossa principal dificuldade tá em aceitar que algo se perderá e que isso faz parte da dinâmica da vida, da mesma forma que era há milênios atrás quando ele percebeu isso.

    Temos um enorme apego pelo que temos contato, e uma igualmente grande preocupacão de não ser injustos desdenhando um tema, ou ainda de “incompletude” uma vez que, motivados por um instinto renascentista, enxergamos complementaridade em quase tudo.

  1. 23/02/2010 às 21:09

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