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A crise da esquerda europeia

Conversando com minha cunhada austríaca, tive uma noção de esquerda a partir dos olhos de um europeu. Existem muitos olhos europeus, é claro, ainda mais sobre a esquerda, mas qualquer um deles enxerga de forma diferente de qualquer um dos olhos latino-americanos, por razões óbvias.

Ela me falou de uma crise de identidade da esquerda, que identificamos por aqui, mas que por lá se manifesta de outro jeito. Os problemas lá são outros, e a crise vai justamente na forma de enfrentá-los. Explico melhor. Se por aqui, no Sul do mundo, a esquerda chega ao poder e parece difícil lidar com essa situação, em países ainda muito desiguais, na Europa a esquerda vem sendo substituída por uma direita em alguns casos mais moderada, mas em outros assustadoramente radical. Cito de cabeça o exemplo da Itália – que, aliás, vive uma das piores crises dentre os países europeus.

Lá, os problemas maiores de desigualdade entre os de origem europeia já foram sanados. Não é a sociedade ideal, mas os obstáculos são outros. Aparece com muita força, já há algum tempo, a questão da imigração, extremamente controversa. E dentro da esquerda não há consenso, muito pelo contrário.

Enquanto isso, na América Latina, as pessoas ainda querem sair de seus países, achando que do lado de lá do oceano as coisas são mais fáceis. Mas lá, nós nos transformamos no problema, somos os imigrantes. Os latino-americanos, os africanos, os chineses, principalmente os muçulmanos, são vistos na Europa como o grande problema a ser resolvido.

Encontrar formas de lidar com isso foge do discurso socialista simplista. Não adianta falar em regime comunista, isso já soa ultrapassado. Como falar, então? Quais são as soluções para o problema? Porque em teoria é simples. Os imigrantes são gente que está fugindo de alguma coisa. Da repressão, da miséria, da falta de emprego, da religião. Então, parece lógico fazer um esforço no sentido de integrá-los à sociedade. Mas é também uma gente que chega assustada, que muitas vezes não é bem recebida – e mesmo quando é, ainda é o diferente, o estranho. Chegar em uma terra que não é a sua, com uma cultura e costumes diferentes não é fácil. Uma forma de proteção é se fechar em espécies de guetos em que a cultura original é preservada.

De certa forma, isso é bom. Por outro lado, dificulta a integração. Como receber um muçulmano sem fazer sua mulher tirar o véu, mas de forma a que sua família participe da sociedade europeia como uma igual? E ainda conciliar todas as culturas diferentes em uma convivência comum. Difícil, né?

Pois bem, não venho propor soluções. Desculpem-me, mas não as tenho. Minha intenção é só avaliar por cima como anda mais difícil estabelecer um discurso de esquerda a partir do ponto de vista europeu. Só sei que a esquerda anda em crise de identidade, e com isso vai perdendo espaço. É preciso tomar cuidado antes que essa crise se prolongue demais e a situação comece a ficar mais preocupante.

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