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Recapitulações em Palomas

Reunião num canto da Câmara de Vereadores de Palomas. João da Garupa cochicha com seus coleguinhas:

– Agora vai. Palomas precisa de espigões. Vamos autorizar a construção de um conjunto residencial de luxo na Ponta do Denílson. Coisa de país desenvolvido. Mas primeiro temos de expulsar o pobrerio dali das proximidades.
– Bueno, com qual argumento? – inquieta-se Tinão.
– Ora, com a lei: a beira do rio não é para moradia.
– Entendi, muito boa essa, depois a gente muda a lei.
– Calma, Tinão. Só depois que a área for vendida.
– Genial, João – entusiasma-se Carvãozinho. – Assim quem comprar poderá pagar mais barato e depois ganhar muito. O progresso exige investimentos arriscados e visionários.
– Hummm… Aquela área não foi doada pelo poder público? Tendo perdido a função, não deveria voltar a ser pública?
– Bobagem, Aniceto, um dos nossos interventores, gente boa da redentora, eliminou essa exigência, alegando questão de segurança nacional. Não tem pra ninguém.
– E se tiver muita pressão da opinião pública, João?
– A gente recua e pede ao prefeito para vetar.
– Nossa, tu pensas em tudo, João.
– Mas se o prefeito veta, não acaba tudo?
– A gente sugere que ele recomende um referendo.
– E se ele topa?
– A gente derruba o veto.
– E se, de novo, a opinião pública pressionar?
– A gente confirma o veto, aprova antes outros projetos de clubes de futebol, mistura tudo, confunde um pouco e transforma o referendo em consulta popular.
– Qual a diferença, João? Já não me lembro.
– O voto na consulta popular não é obrigatório.
– Mas que argumento usar para cancelar o referendo?
– O preço. Vamos dizer que sai muito caro.
– Nossa, João, tu pensas em tudo mesmo.
– Eu me inspiro em Carlos Lacerda. Uma vez, quando Getúlio se candidatou à Presidência, em 1950, Lacerda saiu-se com esta: ‘Vargas não deve ser candidato. Se for candidato, não deve ser eleito. Se for eleito, não pode tomar posse. Se tomar posse, não pode governar. Se governar, deve ser pressionado até ser deposto.
– É… Mas ele foi eleito, tomou posse e governou…
– Deu no que deu, não é, Aniceto?
– Que cultura! Que preparação!
– É que eu me preocupo com o futuro de Palomas.
– E o resto da orla, vai continuar igual?
– Não sejas bobo, Aniceto. Onde passa um boi, passa uma boiada. Depois de passar uma cabecinha, vai o resto.
– Hummm… Os ecologistas vão berrar até o fim.
– Deixa que berrem, Carvãozinho, teremos a mídia a nosso favor. A Rede Baita Sol vai fechar com a gente, não é?
– Essa é quente mesmo. Sempre do lado do progresso.
– E se mesmo assim o berreiro for grande demais?
– Ora, Aniceto, nossos visionários vão pressionar o restante da mídia. Todo empresário já foi patrocinador ou será patrocinador um dia. É gente com poder de fogo.
– É, não tem erro, João, é tiro certo.
– Certeiro, Aniceto. Rumo ao futuro grandioso.
– Mas pode demorar. Sabe como é, tudo é lento.
– A gente aprova regime de urgência.
– Agora vai! Precisa mesmo essa consulta popular?
– Vamos ver…

Por Juremir Machado da Silva, no Correio do Povo de hoje

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