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O novo comando de Zero Hora

14/02/2012 8 comentários

Zero Hora entrou a semana sob nova direção. Depois de menos de quatro anos como diretor de Redação, Ricardo Stefanelli passa o posto para Marta Gleich, uma das diversas mudanças de chefia que o grupo está fazendo. Nesse período, dizem os dados do jornal, a Zero Hora ampliou sua circulação, mas convenhamos que, em termos de qualidade, não avançou muito.

Foi no período de Stefanelli que Zero Hora inaugurou seu novo parque gráfico e investiu em melhorar o jornal impresso, quando diversos veículos no mundo todo já começavam a abandonar o papel para assumir com exclusividade as plataformas digitais. Era o jornal gaúcho priorizando o impresso. Pelo menos era o que parecia, mas depois o grupo lançou seu novo portal. A Zerohora.com foi provavelmente a iniciativa mais acertada deste período, principalmente para um grupo que se propõe grande mas contava apenas com um portal tão pouco funcional como o ClicRBS.

Marta Gleich estava à frente deste projeto, como diretora de Internet do Grupo RBS. Mestre em jornalismo digital, deduz-se competente, aparentemente, e dedicada. Afinal, sempre trabalhou na Zero Hora, desde antes de formada em jornalismo pela UFRGS. Tenho minhas enfáticas restrições com quem se dedica quase 30 anos a uma empresa tipo RBS. Por lidar com informação, sua orientação ideológica influencia fortemente o trabalho de seus funcionários, que precisam estar alinhados para aguentar tanto tempo e ir galgando posições lá dentro, até chegar a diretora de Redação.

Zero Hora passa a ser dirigida por uma funcionária antiga, que tende a aprofundar ainda mais esse viés ideológico com o qual certamente se identifica. Um viés à direita, que criminaliza movimentos sociais, vê manifestações políticas como meros problemas de trânsito, esforça-se há décadas por despolitizar ao máximo seus leitores e compra briga com qualquer governo mais à esquerda que assuma qualquer nível da administração pública no país. Em perfil da nova diretora de Redação feito pelo site Coletiva.net, Marta é chamada de “uma Führer otimista”, apelido concedido pelo colega (já que no Brasil, como sempre pontua Mino Carta, jornalista chama patrão de colega) David Coimbra por seu caráter, digamos, um tanto autoritário. E, bom, vale dizer que ela sentiu-se “lisonjeada” com o apelido.

Stefanelli despediu-se, na edição de domingo, entregando o cargo para ir para Santa Catarina. Parece evidente, com a mudança, que Marta entra para investir no digital, tentar transformar o jornal em referência na área. Isso tudo sem mudar a linha de Zero Hora. Linha que, aliás, começou a ser definida com a grande transformação implementada por Augusto Nunes – aquele mesmo que fica dizendo asneira atrás de asneira nas páginas da revista Veja – na primeira metade dos anos 1990. Foi a grande modernização do jornal e, contraditoriamente, ao mesmo tempo, sua virada à direita.

Desde então, Zero Hora nunca retrocedeu nesses propósitos. A qualidade técnica até pode aumentar. As plataformas de distribuição da notícia, de divulgação, modernizam-se, ampliam-se. Mas, jornalisticamente, o conteúdo perde a cada dia. O bairrismo ufanista só faz aumentar, expondo o ridículo de quem compõe aquelas matérias deturpadas para enfatizar a participação, mesmo que minúscula, de algum gaúcho em qualquer coisa que aconteça em qualquer lugar do mundo. O preconceito, especialmente o de classe, assusta, principalmente porque vai de encontro às transformações por que passa o país, reduzindo a pobreza, incluindo tanta gente num futuro que antes não tinham. A manipulação e o “dois pesos, duas medidas” se tornaram parte da rotina, prática diária. Enfim, o futuro de Zero Hora não parece muito promissor para quem considera qualidade da informação e pluralidade mais importantes do que as plataformas em que elas circulam.

Zero Hora continua cobertura golpista

A Zero Hora se esmera mais uma vez. Hoje, várias matérias mereceriam comentários, mas vou focar apenas em Honduras e, mais especificamente, nas Cartas do Editor, Ricardo Stefanelli.

zelaya rodrigo lopesAntes, uma rápida observação sobre a matéria do Rodrigo Lopes falando da embaixada brasileira. Matéria golpista, de novo. Críticas a Zelaya e ao governo brasileiro dão o tom. Não importa que o mundo inteiro aprove a atuação do Brasil em Honduras, que só a mídia nativa se ponha contrária. Ela insiste. Os destaques de Rodrigo Lopes são a bagunça da embaixada e o fato de Manuel Zelaya, segundo o repórter, se achar o “dono” do lugar, esquecer que é só um “hóspede”. “O modo como Zelaya utiliza a embaixada como palanque irrita a oposição e constrange o Itamaraty”, cujos diplomatas estariam desesperados, na visão reacionária do jornalista. Para ele, as picuinhas do dia-a-dia são muito mais importantes do que o contexto político global. Através delas, pode-se criticar. Já a situação política não se presta a críticas, não mostra por onde. Afinal, o ministro de Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, foi apontado essa semana como o melhor chanceler do mundo por David Rothkopf, no blog da revista Foreign Policy. O Financial Times diz que o povo brasileiro é sortudo por ter um líder reconhecido no mundo todo. Menos na imprensa local, evidentemente.

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caricatura gilmar fragaMas então vamos às Cartas do Editor da Zero de hoje, dia 11. Em primeiro lugar, a gafe óbvia de colocar no mesmo nível uma reportagem sobre a Lagoa Mirim e a cobertura da crise em Honduras. Acreditem, ele compara, na maior cara dura. Aliás, é o mote do texto, ele vai de uma pra outra, como se fossem da mesma importância.

Agora, me apego às partes do texto que falam de Honduras:

1. “Rodrigo tinha de tentar traduzir a polêmica diplomacia brasileira de dar guarida às estripulias do deposto Manuel Zelaya” – Em primeiro lugar, é “polêmica” só no Brasil, como já enfatizado na primeira parte do post. Em segundo lugar, “estripulias” é uma palavra no mínimo inapropriada para descrever as ações de um presidente deposto por um golpe de Estado e que está lutando para recuperar o seu posto e a legalidade. Uma forma do jornal de desmerecer Zelaya, de descaracterizar sua política e até de ridicularizá-lo.

2. “Como ainda não existe um Turismo do Golpe, por exemplo, que permitiria a viajantes abonados se instalar na bagunçada embaixada de Tegucigalpa” – Dá a ideia – e tenho certeza que é proposital – que o golpe em Honduras não passa de uma brincadeira, que deveria atrais olhares turísticos, como qualquer ponto que desperte interesse e curiosidade. É bem isso, deve despertar curiosidade, segundo o jornal, não revolta ou protestos por uma situação POLÍTICA descabida. Fora isso, a reiterada afirmação da ZH de que a embaixada é uma bagunça, para desmerecer a atitude do governo brasileiro em Honduras. Como se a “bagunça” que eles dizem existir anulasse a excelente política diplomática do melhor chanceler do mundo.

3. “sete barreiras, todas com policiais descontentes com o que consideravam intromissão verde-amarela em seu território” – Mais uma crítica sem sentido ao governo brasileiro, por estar se metendo onde não foi chamado.

4. “teve de mandar seu primeiro texto do país conflagrado por telefone, ditado para a base em Porto Alegre” – Parece que Rodrigo Lopes está enfrentando grandes dificuldades e é o repórter mais esforçado do mundo. Balela.

5. “Em Honduras, Rodrigo enfrentava as mesmas dificuldades de conexão com o Brasil devido a bloqueadores instalados pelo Exército para isolar a embaixada e impedir a comunicação internacional” – Isso o jornal não critica.

6. “Na América Central, no mesmo dia, Rodrigo contava com a boa vontade de funcionários da embaixada ao ser presenteado com um naco de papelão suficiente para estender seu corpo por algumas horas nas madrugadas – a mochila era o travesseiro.” – Olha como ele sofre! E certamente a culpa é do governo brasileiro, que dá todo conforto para o hondurenho Manuel Zelaya e maltrata o pobre do jornalista porto-alegrense, cidadão brasileiro. Ah, me poupe!

charge_bier7. “Poderíamos, sim, nos contentar com textos das agências internacionais para noticiar um dos principais fatos do ano envolvendo o Brasil. (…) Poderíamos ter nos conformado, como fazem outros jornais, a resumos sem cheiro nem cor de fatos do dia – ou, pior, de fatos do dia anterior. Mas aí não seria Zero Hora.” – Esse é o encerramento do texto. É pra mostrar como a Zero Hora é dedicada e realmente faz matérias boas. Pelamordedeus, mandar um reporterzinho chinfrim pra Honduras pra fazer uma cobertura golpista e fraca de um golpe de Estado é bom jornalismo? Não, é Zero Hora.

* A caricatura é do Gilmar Fraga e a charge é do Bier, ambas tiradas do Tinta China, o blog da Grafar.

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