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Eleições 2012 e os rumos do PT gaúcho

08/10/2012 13 comentários

A tal festa da democracia acabou ontem em Porto Alegre, no primeiro turno e com um resultado acachapante. O processo eleitoral de 2012 não resultou em uma situação confortável para a esquerda na capital e para o PT gaúcho.

Não se pode falar em derrota do partido em nível nacional e sequer estadual porque disputa com boas chances de vitória a importantíssima São Paulo, garantiu Márcio Pochmann, que começou com 1%, no segundo turno em Campinas e aumentou o número de prefeituras, no RS e no Brasil. E, afinal de contas, é o partido da presidenta da República e do governador do estado. Mas teve derrotas importantes, como o terceiro lugar de Humberto Costa no Recife e a vitória de Marcio Lacerda em Belo Horizonte, deixando um dos melhores quadros do partido, Patrus Ananias, fora até de um segundo turno.

O resultado na capital gaúcha não é surpresa, o que não quer dizer que seja bom. Os petistas do estado nem sentiram muito o terceiro lugar que não atingiu os dois dígitos no percentual de votos, porque já contavam com um desempenho pífio e a vitória do trabalhista, ex-PT e hoje aliado com a direita, José Fortunati. Isso em uma cidade acostumada a ver o PT partir de 30%, onde o projeto político que já completa dez anos de Presidência da República ganhou corpo, fez bonito e chamou a atenção. Agora termina a eleição com o candidato a prefeito em terceiro lugar, com míseros 9,64% das intenções de voto e com a representação na Câmara menor (ainda que tenha visto uma positiva renovação nos nomes, elegendo candidatos qualificados). A cidade que criou o Orçamento Participativo, revolucionando o conceito de democracia ao mostrar que ela é muito mais do que o voto na urna e a representação, e que deu vida ao Fórum Social Mundial viu três candidatos disputarem a eleição com um discurso muito parecido. Um discurso asséptico, desideologizado. A ponto de o eleitor não conseguir enxergar diferenças significativas entre eles.

Cabe à esquerda e principalmente ao PT fazer com que o resultado das urnas não seja de todo mau, se aproveitar o momento para fazer uma ampla e profunda reflexão.

Nos partidos que se reconhecem à esquerda no espectro político, faltou conteúdo ideológico na condução das campanhas, ainda que tanto Manuela D’Ávila quanto Adão Villaverde tenham apresentado programas de governo mais identificados com os princípios da esquerda. A exceção fica com o PSTU, que, nos debates entre candidatos que foi oportunizada a participação de Erico Correa, provocou o debate mais politizado de forma competente. Mas é sintomático que esse debate tenha sido proposto apenas por um partido que disputa eleições apenas para fazer o confronto, sem pretensão de se eleger.

O PSOL optou por focar a campanha na crítica a situações específicas, deixando o debate político macro de lado e adotando o discurso fácil e despolitizante que tenta há décadas convencer o cidadão de que políticos são todos iguais. Ironicamente, fez coro com a grande mídia. A postura não fomenta o debate de fundo, que passa pela estrutura política, e favorece a direita, que é quem se privilegia da despolitização. O partido sofreu ainda com a injustiça (ainda que legal) contra Luciana Genro, impedida de concorrer a vereadora. Mesmo com a majoritária pequena, poderia ter ampliado a representação na Câmara. Manteve os combativos Pedro Ruas e Fernanda Melchionna.

O PCdoB apostou alto e começou o jogo acreditando na vitória. As contradições colocadas nas alianças contribuíram para a queda livre que terminou com as chances de Manuela. O discurso igualmente desprovido de conteúdo político encerrou o sepultamento da candidatura majoritária, que saiu de um primeiro lugar em pesquisas pouco depois de iniciada a campanha para tímidos 17,76% nas urnas. Ainda assim, o partido saiu melhor do que entrou, criando uma representação legislativa com duas vagas na Câmara.

Quem sai enfraquecido mesmo é o PT. Não acho que deveria ter coligado com Manuela, mas que deveria ter ido para a disputa para fazer um debate político de verdade. Uma candidatura que começou pequena, sem muito a perder, não deveria ter medo de promover uma discussão profunda sobre cidade, sobre o espaço público e sobre a própria política, valorizando a cidadania e defendendo a ampliação radical da democracia. Se tivesse se proposto um discurso de esquerda de verdade, teria certamente arregimentado mais votos nas urnas que ontem computaram a vontade do eleitor gaúcho. Em vez disso, manteve-se no raso, não fez o enfrentamento ao projeto político que aí está e deixou de evidenciar os profundos problemas que a cidade enfrenta. O candidato, ainda que extremamente esforçado e um deputado muito competente, era fraco. Sofria da falta de carisma e da dificuldade de articular um discurso de esquerda que empolgasse. A candidatura sofreu ainda com a ausência da presidenta Dilma Rousseff na campanha, o que acho extremamente lamentável, reflexo de um projeto que muitas vezes é mais pragmático que ideológico.

Mas essa é uma questão pontual, de uma eleição específica. O problema do partido em Porto Alegre e em algumas outras grandes cidades do estado é mais amplo e não é novo. O PT sofre da falta de lideranças novas. Permanece como referência quase absoluta Olívio Dutra, que é um grande lutador, mas que foi eleito prefeito há já distantes 23 anos e governador há 14. Além dele, ainda destacam-se o governador Tarso Genro e o deputado estadual e ex-prefeito  Raul Pont. Os mesmos de 20 anos atrás. A única novidade (que não é tão nova, mas mais recente) é o prefeito de Canoas, Jairo Jorge, que se reelegeu com esmagadores 71,27% dos votos e se apresenta como provável substituto de Tarso na tarefa de concorrer ao Piratini. Mas vale refletir se sua estratégia política, mais ao centro e aglutinando em sua coligação 17 partidos em que o mais de esquerda é o próprio PT e que inclui PCdoB, PMDB, PTB e o direitista partido da vice, o PP.

Urge a necessidade de se reinventar, de criar quadros novos para tempos novos, mas sem perder a identidade e a motivação que levou à criação do partido. A defesa dos direitos dos trabalhadores, da garantia da cidadania e da ampliação da democracia devem continuar presentes e norteando a atuação do PT, mas dialogando com as profundas transformações por que passa o mundo, que vão das novas possibilidades – inclusive de fortalecimento democrático – trazidas pelo avanço da tecnologia à crise sistêmica que enfrentamos e que precisa ser discutida, com a proposição de alternativas.

Se o governo do estado se coloca o desafio de incorporar essa tecnologia na construção de seu projeto e de discutir as revoltas mundo afora e a descrença nos partidos políticos, também absorve práticas contraditórias e muitas vezes condenáveis, na ânsia de garantir a aprovação dos meios de comunicação e de parte conservadora do eleitorado. A postura que assumiu diante dos abusos da Brigada Militar ao reprimir uma manifestação no Centro de Porto Alegre não tem justificativa que se enquadre com um projeto de esquerda e não seria imaginável em um PT como o que governou o estado com Olívio Dutra em 1998. Imediatamente após a denúncia de abusos da Brigada Militar, o posicionamento do governo veio à tona defendendo a atuação do órgão e criticando os manifestantes. Ficou para depois das eleições a nota em que o governador determina a apuração do ocorrido. Ainda difere de um governo de direita, como o de Yeda Crusius, que responde sem remorso pela morte do sem-terra Elton Brum, mas decepciona quem defende uma política voltada para a cidadania.

O partido precisa, sobretudo, fortalecer o debate interno, a construção de ideias e teorias. Precisa produzir conteúdo sobre as condições em que se encontra e sobre as transformações sociais que acontecem no Brasil e no mundo. O PT e os outros partidos que igualmente se dizem de esquerda precisam interpretar a sociedade e a si mesmos de forma contínua e, a partir disso, formular um projeto político que se discuta permanentemente, diante dos acontecimentos. Isso não significa adaptar-se aos fatos e aceitá-los passivamente, mas propor alternativas coerentes diante da realidade e da constante transformação social.

Fotos: Ramiro Furquim/Sul21 e Michel Cortez/Sul21

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Por que não temos grandes manifestações no Dia do Trabalhador

01/05/2012 2 comentários

Por que o Dia do Trabalhador (por favor, não Dia do Trabalho, ok?) é marcado por protestos ao redor do mundo e por festa no Brasil? Para mim, são três fatores principais:

1. Crise. Desemprego no mundo todo, o povo protesta porque está sentindo diretamente as consequências de uma política conservadora e neoliberal. A situação vai mal, e eles sabem, sentem no dia a dia. O poder de compra diminuiu, os empregos sumiram, os salários diminuíram. Se o Brasil não está perfeito, pelo menos os trabalhadores convivem com uma situação de ascensão. Na Europa, nos Estados Unidos e em todo o mundo “desenvolvido”, é recessão, o que leva a um pessimismo grande e a uma raiva natural.

2. O brasileiro é um banana. Será? Um pouco, pode ser, mas esse não pode ser considerado um fator principal. Ainda que não haja tradição de grandes manifestações no 1º de maio no Brasil, houve, sim, manifestações em outros momentos.

3. O PT no poder. Esse fator tem relação direta com o fator 1, na medida em que foi o PT no governo que proporcionou uma política econômica diferente da do resto do mundo e nos deixou fora do grosso da crise, com índices cada vez menores, e não maiores, de desemprego. Mas também tem o outro lado disso. O PT no governo deixa de ser o PT na oposição. Por mais óbvio que isso seja, é fundamental para entender o que está acontecendo. Afinal, o PT tem raízes no sindicalismo e foi, em grande medida, responsável pelas grandes manifestações que houve no Brasil. E os sindicatos, por seu lado, continuam ligados aos partidos que antes eram oposição e agora são governo. CUT, CTB, Força Sindical, todos eles têm vinculação com a base aliada do governo Dilma e tinham com a do governo Lula. Isso não explica o fato de não haver manifestações, que poderiam ser realizadas de forma independente das centrais sindicais, como o são em outros lugares do mundo (exemplo: movimentos de Occupy e Indignados nos Estados Unidos e na Europa, organizados de forma mais horizontal, em rede), mas justifica um pouco, já que a história do movimento trabalhista no Brasil é extremamente ligada aos sindicatos.

Uma cachoeira de disparates

17/04/2012 1 comentário

Eu sei que comentar essa história da Veja é só se dar trabalho. A coisa é tão explicitamente esdrúxula que nem valeria o tempo de me botar a digitar essas letras. Mas não adianta, não estou conseguindo segurar. Mas vou tentar ser breve.

Pois então, o panfleto mais vendido do Brasil (como pode, meu deus?) veio com uma capa digna de… Bom, digna de nada, na verdade bem sem dignidade. O argumento (sic) é que a história de corrupção que envolve o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o senador Demóstenes Torres e mais uma penca de gente, inclusive da imprensa, é coisa do PT para encobrir o escândalo do mensalão.

Escândalo. Palavra interessante para entender o momento. O objetivo, segundo a Veja, é esconder um escândalo. Mas ele existe? O mensalão virou “escândalo” em 2005, na tentativa de impedir o então presidente Lula de se reeleger. Naquela época, o PT se encolheu e respondeu muito mal às denúncias. Não sabia o que dizer e acabou não dizendo nada por um bom tempo. Ainda assim, e sem nenhuma outra grande história para encobrir o que a mídia já tinha definido como o maior escândalo de corrupção da história (a memória curta a faz esquecer do tão recente Fernando Collor, isso sem falar em outros Fernandos por aí), não deu certo. Lula se reelegeu.

Por que, então, o partido teria tanto medo do tal mensalão agora que ele já não é mais explosivo? Convenhamos que a história de que está próximo do julgamento não é exatamente crível, né?

E bom, impossível não notar a contradição da publicação, adepta antiga da prática conhecida por dois pesos e duas medidas. Ou seja, avaliar o caso conforme o interesse. Quando o governo é alvo de denúncias, é preciso investigar até a sobrinha da prima do vizinho da faxineira do ministro. Quando tem repórter da revista metido na história da corrupção, pra que investigar?

É engraçado que até o partido Democratas já desistiu de defender o senador envolvido nas tramóias com Cachoeira, mas Veja continua agarrada na defesa. Por quê? O leitor não estranha que a revista não tenha interesse em investigar a fundo qualquer denúncia de corrupção? Não estranha que a capa da publicação seja um assunto requentado enquanto outro ferve na arena pública de debates?

E é engraçado também como, para esse tipo de publicação, jornalista deveria ter imunidade, mais que deputados, senadores ou gestores públicos. Mais que deus, acho. Se um jornalista matar alguém, ele não deve ser investigado? E se ele for corrupto? Investigar ilegalidades cometidas por profissionais de imprensa é tentativa de censura? Defender tal tese é desvalorizar a profissão, não o contrário. Ora, poupem os meus botões.

Mas olha, não vou me alongar mais. Uma olhadinha rápida nas páginas da revista, recheadas de adjetivos exagerados, ofensivos e, o mais evidente de tudo, ridículos basta para que toda a história criada por Veja venha abaixo. Impossível levar a sério tamanho disparate.

Deixo-vos com a leitura da nota divulgada hoje pelo presidente da Cãmara dos Deputados, Marco Maia:

Tendo em vista a publicação, na edição desta semana, de mais uma matéria opinativa por parte da revista Veja do Grupo Abril, desferindo um novo ataque desrespeitoso e grosseiro contra minha pessoa, sinto-me no dever de prestar os esclarecimentos a seguir em respeito aos cidadãos brasileiros, em especial aos leitores da referida revista e aos meus eleitores:

- a decisão de instalação de uma CPMI, reunindo Senado e Câmara Federal, resultou do entendimento quase unânime por parte do conjunto de partidos políticos com representação no Congresso Nacional sobre a necessidade de investigar as denúncias que se tornaram públicas, envolvendo as relações entre o contraventor conhecido como Carlinhos Cachoeira com integrantes dos setores público e privado, entre eles a imprensa;

- não é verdadeira, portanto, a tese que a referida matéria tenta construir (de forma arrogante e totalitária) de que esta CPMI seja um ato que vise tão somente confundir a opinião pública no momento em que o judiciário prepara-se para julgar as responsabilidades de diversos políticos citados no processo conhecido como “Mensalão”;

- também não é verdadeira a tese, que a revista Veja tenta construir (também de forma totalitária), de que esta CPMI tem como um dos objetivos realizar uma caça a jornalistas que tenham realizado denúncias contra este ou aquele partido ou pessoa. Mas posso assegurar que haverá, sim, investigações sobre as graves denúncias de que o contraventor Carlinhos Cachoeira abastecia jornalistas e veículos de imprensa com informações obtidas a partir de um esquema clandestino de arapongagem;

- vale lembrar que, há pouco tempo, um importante jornal inglês foi obrigado a fechar as portas por denúncias menos graves do que estas. Isto sem falar na defesa que a matéria da Veja faz da cartilha fascista de que os fins justificam os meios ao defender o uso de meios espúrios para alcançar seus objetivos;

- afinal, por que a revista Veja é tão crítica em relação à instalação desta CPMI? Por que a Veja ataca esta CPMI? Por que a Veja, há duas semanas, não publicou uma linha sequer sobre as denúncias que envolviam até então somente o senador Demóstenes Torres, quando todos (destaco “todos”) os demais veículos da imprensa buscavam desvendar as denúncias? Por que não investigar possíveis desvios de conduta da imprensa? Vai mal a Veja!;

- o que mais surpreende é o fato de que, em nenhum momento nas minhas declarações durante a última semana, falei especificamente sobre a revista, apontei envolvidos, ou mesmo emiti juízo de valor sobre o que é certo ou errado no comportamento da imprensa ou de qualquer envolvido no esquema. Ao contrário, apenas afirmei a necessidade de investigar tudo o que diz respeito às relações criminosas apontadas pelas Operações Monte Carlo e Vegas;

- não é a primeira vez que a revista Veja realiza matérias, aparentemente jornalísticas, mas com cunho opinativo, exagerando nos adjetivos a mim, sem sequer, como manda qualquer manual de jornalismo, ouvir as partes, o que não aconteceu em relação à minha pessoa (confesso que não entendo o porquê), demonstrando o emprego de métodos pouco jornalísticos, o que não colabora com a consolidação da democracia que tanto depende do uso responsável da liberdade de imprensa.

“Precisamos de um discurso de esquerda alternativo”

Por Saul Leblon, na Carta Maior

Carta Maior conversou com o filósofo Vladimir Safatle, professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais instigantes analistas da cena política atual. Dotado de uma radicalidade não imobilista, o pensamento de Safatle joga luz nova sobre temas difíceis em torno dos quais a polaridade do campo da esquerda brasileira (PT versus não-PT) em geral patina, anda em círculos e não avança. Nesta entrevista à Carta Maior, o filósofo fala sobre as explosões populares (no mundo árabe e na Europa), a partir das quais alguns inferem a suposta agonia dos partidos políticos e discute os limites e trunfos conquistados pela chegada do PT ao poder no Brasil.

O filósofo rejeita a idéia de mudar o mundo sem conquistar o poder e cobra espaço institucional para que a mídia possa de fato refletir a sociedade, por exemplo, com jornais, rádios e tevês para universidades e sindicatos. Intelectual comprometido em provar que as idéias pertencem ao mundo através da ação, Safatle vê limites na ascensão da classe C sem mudanças radicais na repartição da riqueza e convoca seus pares: “Precisamos de um discurso de esquerda alternativo que esteja em circulação no momento em que as possibilidades de ascensão social (da chamada classe C) baterem no teto”. Por fim aconselha Lula a transformar seu instituto numa ‘internacional Lulista’ –um instrumento que ajude a esquerda latinoamericana a chegar ao poder. Leia a seguir a entrevista concedida por email:

Carta Maior – O longo descrédito com os políticos e suas siglas parece ter inspirado uma sentença cada vez mais freqüente no debate: a de que a forma partido está esgotada . Ao mesmo tempo, esse diagnóstico parece embutir um desejo conservador – que não é novo – de desqualificar a representação do conflito social. O que existe de esgotamento e o que existe de vontade de antecipar o funeral de um adversário incômodo?

Vladimir Safatle – Diria que temos um desafio de novo tipo. Primeiro, é certo que uma geracao de partidos de esquerda se esgotou exatamente por não dar conta da representacão do conflito social. Há uma camada de conflitos sociais que é simplesmente sub-representada ou invisível no interior da “forma partido”. No exterior, o exemplo maior disto é a expoliacão econômica de imigrantes: pessoas sem voz no interior da dinâmica partidária. No Brasil, temos um embate em torno da dita nova classe média ao mesmo tempo que encontramos uma sub-representacão de conflitos próprias à “velha classe pobre”. As revoltas dos trabalhadores em Jirau é um bom exemplo. Nenhum partido vocaliza tais revoltas.

CM – Há uma variante desse diagnóstico, à esquerda. Ela se apóia em evidências, como as recentes manifestações de rua no mundo árabe e na Europa, supostamente convocadas e coordenadas via facebook. Aqui parece haver um ludismo com sinal trocado na medida em que se dá à tecnologia tratos de um fetiche. Tudo se passa como se “a tecnologia partidos” tivesse se esgotado. E uma nova ferramenta, agora em versão mais potente, viesse a sucedê-los com vantagens. Entre elas a ausência de intermediários e de corrupção. Mistificação ou novo espaço público?

VS – É verdade, há muito de mistificacão nesta maneira de anunciar a internet como a esperanca redentora da política. O que ela fez foi, em larga medida, permitir o desenvolvimento de uma militância virtual e intermitente. É mais fácil fazer militância hoje, já que você pode operar da sua casa através de redes de contra-informacão.

No entanto, insistiria que há uma tendência de mobilizacão social que tem pêgo os partidos a contra-pelo. Falta uma nova geracão de partidos capaz de dar forca institucional a tais mobilizacões. Este partidos talvez não funcionarão de maneira “tradicional”, mas como uma frente, uma federacão de pequenos grupos que se organizam para certas disputas eleitorais e depois se dissolvem. É difícil ainda saber o que virá. Certo é apenas o fato de que os movimentos políticos mais importantes (revoltas na Grécia, Espanha, Portugal) parecem ser feitos atualmente à despeito dos partidos. O que limita seus resultados. Não creio que podemos “mudar o mundo sem conquistar o poder”. Quem gosta de ouvir isto são aqueles que continuam no poder. Para conquistar o poder, temos que vencer embates eleitorais.

CM – O debate sobre a irrelevância dos partidos convive com a realidade de um torniquete menos debatido: a captura da vida democrática pela supremacia das finanças. Ao normatizar o que pode e o que não pode ser objeto de conflito e de escrutínio, a hegemonia das finanças não teria engessado a própria democracia representativa? E assim contaminado todos os seus protagonistas com a sombra da irrelevância?

VS – Certamente. Este é um dos limites da democracia parlamentar. Não há como escaparmos disto no interior da democracia parlamentar. Só se contrapõe ao domínio do mundo financeiro através de um aprofundamento da democracia plebicitária, como a Islândia demonstrou ao colocar em plebiscito o auxílio estatal a um banco falido. Devemos simplesmente deslocar questões econômicas desta natureza para fora da democracia parlamentar. Um Estado não pode emprestar bilhões para massa financeira falida sem uma manifestação direta daqueles que pagarão a conta. O problema é que vivemos em uma fase do capitalismo de espoliação.

CM – A mídia é muitas vezes apontada como a caixa de ressonância dessa subordinação do conflito aos limites da finança. Nesse sentido a sua regulação não seria tão ou mais importante que o financiamento público de campanha?

VS – Acho que a sociedade ocidental (e não apenas a brasileira) precisa, de fato, encarar a defasagem das leis a respeito da regulação econômica da mídia. Trata-se de um dos mercados mais oligopolizados e concentrados do planeta, o que está longe de ser algo bom para a democracia. Seria importante que houvesse um sistema que facilitasse a entrada de novos atores no campo midiático. Não consigo admitir, por exemplo, que universidades públicas, sindicatos e associacões tenham tão pouca presença em rádios, televisões e jornais.

CM – O PT no Brasil condensa todos esses impasses ao personificar, na opinião de alguns, uma trágica verdade: o preço do poder é a necrose da identidade mudancista. Isso é fatal? Ou dito de outro modo:um partido depois de passar pelo poder ainda pode suprir o anseio de mudança da sociedade?

VS – Ele pode suprir tais anseios, mas desde que esteja realmente disposto a avancar nos processos de modernização política e criatividade institucional, o que não creio ter sido o caso do PT. Há um profundo déficit de participacão popular nos governos do PT. Claro que se olharmos para a direita brasileira (PSDB e seus aliados) a situacão é infinitamente pior. Mas o PT, neste ponto, tem nos obrigado a votar fazendo o cálculo do mal menor. Ele tirou da sua pauta o aprofundamento de mecanismos de participação popular. O resultado será um embotamento político que pode se voltar contra a própria esquerda.

CM – Algumas avaliações dizem que o governo Lula foi em parte a causa desse entorpecimento petista. Outros sugerem que o próprio Lula foi refém de uma energia política insuficiente para promover um projeto de mudança mais profundo na sociedade. Que ponto da régua estaria mais próximo da realidade em sua opinião?

VS – Creio que Lula foi bem sucedido em ser uma espécie de Mata Hari do capitalismo global. Ele soube jogar em dois tabuleiros, um pouco como Getúlio Vargas. Sua política foi bipolar. Por exemplo, enquanto recebia George Bush falando que era seu maior aliado, seu partido fazia manifestacões contra a vinda do próprio George Bush. O resultado final deste processo foi criar um sistema muito parecido àquele deixado por Vargas. O PT é, hoje, herdeiro direto do PTB. O PMDB parece uma espécie de PSD sem uma figura carismática como Juscelino e a oposicão esmera-se no seu figurino UDN. Bem, é triste perceber que, quando o Brasil comeca a andar, ele sempre volta ao mesmo ponto de estabilidade política. Parece que nunca conseguimos ultrapassar este mecanismo bipolar.

CM – O Governo Dilma será a culminância dessa acomodação histórica? Ou a crise mundial pode destravar o processo e inaugurar um novo ciclo, na medida em que impõe escolhas duras entre desenvolvimentismo versus financeirização?

VS – Creio que o governo Dilma será um governo que usará a margem de manobra fornecida pelo crescimento econômico em uma era onde as economias dos países europeus (assim como os EUA) continuarão em crise. Neste sentido, nossa única esperanca concreta de mudanca virá quando a dita nova classe média perceber que ele só continuará seu ciclo de ascensão se não precisar gastar fortunas com educacão e saúde privadas. No entanto, a consolidação de um verdadeiro sistema público de educacão e saúde não será feito sem uma pesada taxação sobre a classe rica e um aumento considerável na tributacão da renda. Isto, em um país como o Brasil, tem o peso de uma revolucão armada. Vejam que engracado, vivemos em um país onde a implantação de um modelo tributário das sociais-democracias européias dos anos 50 equivaleria a uma ação política da mais profunda radicalidade. Não creio que o PT fará algo neste sentido. Mesmo a discussão a respeito de um imposto sobre grandes fortunas foi abandonada. Precisamos de um discurso de esquerda alternativo que esteja em circulacão no momento em que as possibilidades de ascensão social baterem no teto.

CM – O que seria uma agenda relevante para Lula e o seu Instituto numa conjuntura como essa de flacidez partidária e atritos duros entre desenvolvimento, igualdade e acomodação à crise?

VS – O melhor que seu Instituto poderia fazer é organizar uma espécie de Internacional lulista que ajude a esquerda a vencer em países da América Latina.

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Parabéns, Olívio

11/06/2011 1 comentário

Muito orgulho de comemorar os 70 anos de uma figura que já entrou pra história e honrou cada dia de cada década vivida.

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Olívio é presidente de honra do PT-RS

04/06/2011 4 comentários

Em grande parte dos casos em que um grupo grande de pessoas em um sistema democrático escolhe uma liderança, ela vem através de uma disputa e se legitima pelo voto. É escolhida para tomar as rédeas e definir a política e os rumos do grupo. Em muito poucas situações, a unanimidade reconhece na trajetória de alguém a necessidade de afirmá-la pelo tanto que já realizou e pela sua representatividade.

Hoje o diretório estadual do PT definiu Olívio Dutra como presidente de honra do PT gaúcho. Às vésperas de completar 70 anos, Olívio é daquelas figuras inquestionáveis, que ninguém duvida da representatividade. Que pode não presidir na prática o partido, mas que merece o posto de honra pelo tanto que já fez e pelo que significa. E, também, pelo muito que ainda faz, pelo que constroi, interna e externamente, e pela importância da sua opinião na definição dos rumos do PT no estado, pelo que ainda constroi constantemente a partir do PT, mirando o povo gaúcho.

Assim como Lula no plano nacional, ninguém duvida que o presidente de honra do PT aqui deve ser Olívio. Pode-se concordar ou não com ele, não tem problema. A divergência enriquece o debate. Mas o fato de ser tão óbvio que só ele pode ocupar este posto é que o legitima.

Meus mais sinceros parabéns a Olívio Dutra, um homem de luta, extremamente íntegro na sua postura e nas suas ideias. Pelo que ele fez, pelo que ele representa e pelo que ele ainda constroi dentro e fora do PT.

Fotos: Em 2010, aos 69 anos, na campanha de Tarso governador. E com Sergio Buarque de Hollanda e Lula, na fundação do PT, em 1980.

Diretor da Secretaria do Meio Ambiente do RS defende monocultura de eucaliptos

16/05/2011 20 comentários

Foi ainda em janeiro a nomeação do atual diretor do Departamento de Florestas e Áreas Protegidas (Defap) – atentem para o significado do nome do departamento! – da Secretaria de Meio Ambiente (Sema) do Rio Grande do Sul, por indicação da secretária, Jussara Cony. Integrante do PSB, Roberto Magno Ferron é engenheiro florestal e já havia publicado alguns artigos por aí.

Chamam a atenção dois em especial, de 2007, na revista do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do RS (Crea). Para quem não se lembra, a essa época o estado vivia um debate vigoroso na área do meio ambiente. A governadora Yeda Crusius – do PSDB, atual oposição, é sempre bom lembrar – contrariava os técnicos concursados do estado ao ignorar o Zoneamento Ecológico-Econômico da Silvicultura e liberar o plantio de eucalipto. Os funcionários, especialistas na área, haviam delimitado zonas em que o plantio era mais aceitável e outras em que traria enormes prejuízos ambientais, com diferentes gradações e alternativas produtivas.

Mas aquele governo, não canso de insistir, não estava exatamente preocupado com o meio ambiente. A sorte do nosso Pampa foi que uma crise econômica monstruosa pegou as papeleiras e frustrou suas expectativas de investimento por essas bandas. Se não fosse isso, até área de fronteira estaria tomada.

Mas voltando ao causo em questão, eu falava dos artigos de Roberto Ferron, integrante do atual governo – do PT -, escolhido pela atual secretária – do PCdoB – e filiado ao partido do vice-governador – o PSB. Pois ele, naquela época, escrevia que,

Por todos estes atributos amplamente positivos que beneficiam o ser humano, há de se defender e respeitar este excepcional e exemplar cidadão vegetal, chamado Eucalipto.

Na parte II, continua no mesmo ritmo:

Fica evidente e claríssima a tentativa de empurrar “goela abaixo” as restrições ao plantio de florestas, sem a opinião dos verdadeiros atingidos – a população da Metade Sul do RS.

Sem contar o absurdo:

Vale lembrar que o bioma pampa só é campo, porque o “boi” está sobre ele desde o tempo dos jesuítas, há mais de 300 anos, e impede a sucessão natural das espécies vegetais.

E a inversão dos fatos (não dá pra negar o senso de humor):

O Estado não pode ser refém de meia dúzia de tecnoburocratas que se acham acima da lei, ditando normas e regras ao seu bel-prazer, em detrimento da sociedade, sem contemplar as opiniões divergentes da comunidade técnico-científica, das entidades afins, dos representantes da população. Isso não faz parte do Estado democrático.

Pois eis que o Departamento de Florestas (!) e Áreas Protegidas (!!) adota o discurso dos empresários, não dos ambientalistas. E não quero dizer que o governo do PT tenha que adotar totalmente o discurso verde, mas a Secretaria do Meio Ambiente é a responsável por fazer o contraponto aos interesses econômicos que não enxergam a nossa natureza e a importância de conservá-la, diante da tentação do lucro – vale ainda lembrar que a silvicultura não distribui renda, antes a concentra ainda mais, ao contrário do que argumentou Ferron. Se o Defap, que deveria ser ferrenho defensor da preservação ambiental – ou seja, mata nativa -, não o faz, o que sobra pro resto?

Importante ressaltar que grande parte dos integrantes do governo ao qual Ferron pertence, à época na oposição, posicionou-se contrária à liberação da silvicultura. Agora no governo, nomeia uma figura identificada com a postura tucana. Vai entender.

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