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Está tudo invertido no mundo

Já tinha até desistido de escrever um post específico sobre a privatização de espaços públicos em Porto Alegre, já que abordei um pouco do tema aqui e aqui. Mas os acontecimentos de ontem à noite, que somam a política privatista da Prefeitura com a truculência da Brigada Militar (do governo do estado), me deram comichão, e aqui vão alguns comentários…

Pra começar, essa história está errada desde o princípio. A agressão de ontem aos manifestantes que derrubaram o boneco da Coca-Cola foi só o cúmulo do negócio. Um absurdo total, mas que é consequência da escolha anterior.

Ao leitor que não é daqui, explico… Porto Alegre tem, na frente do Mercado PÚBLICO, um largo (que leva o nome de um jornalista das antigas, Glênio Peres) com características históricas da nossa colonização açoriana, como o piso de paralelepípedos. Várias coisas aconteciam ali, de característica popular. Era um espaço de manifestações do povo, de comícios de partidos e de atividades que incentivam a economia solidária e a agricultura familiar, como feira de produtos. Sempre aconteceu ali uma tradicional feira de peixe às vésperas da Páscoa, por exemplo.

Recentemente, parte desse espaço público foi entregue à iniciativa privada, com a justificativa de que embelezaria a cidade. A Coca-Cola/Vonpar construiu um chafariz que tem 19 pontos de saída de água ao longo do largo e instalou um boneco inflável gigante com o tatu-bola que é símbolo da Copa do Mundo (outro negócio em que circula uma grana violenta que a gente não vê, mas isso fica pra outro dia). Algumas das manifestações que antes aconteciam continuam acontecendo normalmente, mas outras foram prejudicadas, sem falar no cartaz da Prefeitura, na entrada do prédio (ao lado do Mercado Público e do Glênio Peres), que leva o símbolo da Coca-Cola.

Aí chegamos a ontem. Nesta quinta-feira, dia 4 de outubro de 2012, um pessoal saiu ta frente da Prefeitura, em uma manifestação pacífica. O mote era a alegria e a defesa era a dos espaços públicos, como o Largo Glênio Peres e o também privatizado auditório Araújo Vianna (espaço de shows pertencente a Porto Alegre que foi concedido à Opus e agora cobra ingressos do nível de iniciativa privada, elitizando a cultura). Protegendo o boneco tinha, segundo reportagem do Sul21, mais de 20 guardas municipais, 19 policiais militares, quatro viaturas e três motos. Ainda assim, derrubaram o tatu. Como resposta, foram reprimidos violentamente. As fotos com o pessoal sujo de sangue impressionam.

E aí vem a triste constatação de que está tudo errado no mundo. A Prefeitura compra o discurso privatista e cede parte do patrimônio PÚBLICO à inciativa privada, prejudicando atos populares. A Brigada Militar, do governo estadual, reprime os manifestantes. Mas o problema vai muito além, está na sociedade. Critiquei a repressão aos manifestantes e vieram com o discurso classe-mediano me perguntar se eu gostaria que destruíssem meu carro. Discurso vazio de defesa da propriedade privada frente à vida. Não, se eu tivesse carro, não gostaria que o destruíssem. Mas esse carro não seria um patrimônio público que me tivesse sido entregue. E nunca, em hipótese alguma, eu defenderia que batessem na pessoa que destruiu um bem material.

Não concorda que destruam o boneco? Ok, aceito o argumento. Mas nada disso justificativa a agressão.

Acontece que as coisas estão na frente das pessoas, e isso não tem o menor sentido. Daqui a pouco vamos viver em um mundo só de coisas, sem pessoas. Ou com pessoas se odiando em nome de coisas. Um mundo de ódio, de extremos. Que mundo é esse, deus do céu? Eu sou contra a privatização porque defendo que o mundo é das pessoas, não das coisas. E que entregar o patrimônio que é de todos para muito poucos ajuda muito a colocar as coisas em primeiro lugar.

Um mundo que incentiva a intolerância é um mundo triste.

Contra esse mundo aí, porém, temos armas poderosas. Podemos usar o amor e a tolerância, em vez do ódio. Ainda acredito que vai funcionar.

Fotos: Ramiro Furquim (as duas primeiras) e André Ávila. Mais fotos aqui.

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  1. 05/10/2012 às 14:17

    Fiquei muito abalada sabendo o que acontece em Porto Alegre. Sou de Buenos Aires mas moreí um tempo por lá. Imagine o Largo privatizado! Coisa assasina o neoliberalismo, Cristina. Sempre tem a ver com a morte.

  2. 05/10/2012 às 14:53

    Eu achei a história toda bizarra. Alguns manifestantes meio desvairados atacam um boneco inflável representando um tatu-bola de olhos azuis e com um símbolo de refrigerante do peito. Importante efetivo militar oficial é destacado para proteção do boneco inflável. As duas “forças” entram em confronto, produzindo baixas do boneco e de manifestantes. Enquanto isso leio na página 27 do Correio do Povo de hoje que a Fifa quer proibir venda de acarajé num raio de 2 km do Estádio da Fonte Nova, em Salvador, para não prejudicar as vendas de um fabricante de sanduíches patrocinador da copa e que a Associação das Baianas de Acarajé vai protestar. Se não fosse o sangue das pessoas que apanharam dos militares seria tudo muito engraçado…

  3. Catia do Canto
    05/10/2012 às 16:44

    Fico me perguntando, quem boicota o Secretário Michels! Essa atitude da BM é suspeita! Não combina com as orientações do novo Secretário.

  4. Luisa Helena Stern
    05/10/2012 às 16:50

    É quase inacreditável que isso tenha acontecido. O Glênio Peres que dá nome ao largo, além de jornalista foi um dos vereadores que teve o mandato cassado pela ditadura militar, durante a vigência do AI-5. Mais tarde, ele foi o Vice-Prefeito na gestão de Alceu Collares, vencendo a primeira eleição direta do processo de redemocratização, em 1985.

    Aquele espaço PÚBLICO que agora leva o nome dele, antes de se tornar um largo, abrigava o terminal de ônibus da Praça XV.

    No início da década de 1980, em uma greve geral, um jovem sindicalista e militante de esquerda, deitou-se no chão, na frente das rodas dos ônibus, para impedir que eles circulassem e só saiu de lá carregado pela polícia.

    A foto saiu em capa de jornal e não me sai da memória até hoje. Embora ainda estivéssemos no regime militar, ele foi apenas “carregado” pelos policiais, sem uso excessivo de força ou violência.

    Sabem o nome desse militante ?

    Era José Fortunati, o mesmo que agora como prefeito, está privatizando aquele e outros bens de uso comum do povo, que deveriam ser de livre acesso para todos.

  5. Pablo
    06/10/2012 às 8:46

    Vou reescrever o que escrevi o Porto Imagem porque acho que vale a pena…
    Vamos repassar a história recente para entender os fatos:
    .
    1. RBS denuncia falta de PMs. Número de PMs é o mesmo desde os anos 90;
    2. RBS denuncia aumento do roubo de automóveis de PoA;
    3. RBS denuncia aumento do número de homicídios na região metropolitana;
    4. RBS expõe que grande parte do efetivo da PM está na Câmara, MP,…;
    5. RBS expõe que os Clubes de futebol sejam responsáveis pela segurança ao invés da PM.
    .
    Por fim. Um boneco inflável aparece protegido por forte aparato policial!
    .
    O protesto era direcionado contra a prefeitura, contra a proibição de manifestações culturais no Largo, contra fechamento de bares e limite de horário na Cidade Baixa, por que diabos se revoltaram contra um boneco?
    .
    Pelo simples motivo do boneco estar protegido por policias. Se fosse a prefeitura que estivesse protegida, o alvo seria a prefeitura.
    .
    O inflável da Coca Cola no Araújo também teve o mesmo motivo. As pessoas não poderiam estar “sentadas na grama e protegidas pelas grades do Araújo Viana”, mas o inflável da Coca Cola estava. Acho que se o inflável estivesse na rua, junto à Osvaldo Aranha, nada aconteceria com o inflável.
    .
    Fato é que as pessoas se sentem desprotegidas pelo poder público e enxergam a Coca Cola, a Opus, os estádios e os órgãos públicos sendo protegidos pela polícia.

  1. 05/10/2012 às 14:26

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